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Política americana ameaça comércio

A expectativa de que, nos próximos anos, as políticas comerciais de Donald Trump coloquem o foco na produção e no emprego nos EUA deverá afetar o investimento estrangeiro direto e a imigração e colocar em risco o crescimento económico de países na América Latina e na Ásia Pacífico.

Um estudo do Moody’s Investors Service sublinha que, embora a natureza das políticas da próxima administração dos EUA esteja ainda a ser definida, as propostas de campanha do presidente-eleito Donald Trump indicam uma possível mudança nas políticas que podem afetar o comércio, o investimento direto estrangeiro e a imigração.

A agência de rating de crédito sublinha que, desde a crise financeira mundial, o comércio mundial permaneceu estagnado. E uma mudança na orientação internacional da maior economia mundial poderá exacerbar a situação, desafiando o crescimento e potencialmente restringindo o espaço político para países que dependem do comércio e são apoiados por investimento direto estrangeiro.

Além disso, regras de imigração mais apertadas nos EUA – como as propostas por Trump durante a campanha – irão, com o tempo, afetar o crescimento das remessas dos trabalhadores estrangeiros, que são importantes para algumas economias na América Latina e na Ásia Pacífico.

As conclusões da Moody’s fazem parte do estudo “Sovereign Monitor – Focus on the Pacific Rim”, que junta as pesquisas recentes nos países da região e fornece uma visão geral sobre as tendências das dívidas soberanas.

Embora a agência de rating espere que os acordos de comércio que já foram implementados continuem em vigor após a mudança na presidência dos EUA, as políticas para o futuro podem incentivar o chamado “onshoring” – o repatriamento de empregos em fornecedores sediados no estrangeiro de volta para os EUA – e um foco na produção doméstica e no sourcing.

Sendo os países mais dependentes das exportações de bens e serviços de alto valor acrescentado, que têm maior potencial de “onshoring”, o México e a Costa Rica serão os mais vulneráveis neste cenário.

Também a Índia e as Filipinas podem potencialmente sofrer com políticas que desincentivam o sourcing no estrangeiro.

Se a procura dos EUA, o maior importador mundial, abrandar acentuada e persistentemente como resultado de uma mudança nas políticas governamentais, o comércio internacional e intrarregional irá amplificar o impacto económico. As economias mais abertas estarão particularmente vulneráveis.

«Contudo, consideramos que a probabilidade deste cenário é muito baixa», afirma a Moody’s. Durante um longo período, a tendência de isolamento dos EUA pode também afetar os fluxos de investimento direto estrangeiro. O investimento direto estrangeiro de vários países financiam uma grande proporção dos défices correntes das contas de vários países da América Latina, ajudando a reduzir a dependência da região de um portefólio de entradas mais volátil.

A Moody’s destaca que as remessas de dinheiro dos trabalhadores emigrantes também são uma fonte estável de moeda estrangeira, que suporta as contas correntes e reforça o consumo e a atividade económica interna. Para países com défices maiores e menos reservas de moeda estrangeira, ou onde o crescimento está estagnado, um abrandamento nestas remessas pode intensificar estes desafios.

Numa outra nota sobre o impacto no México de uma possível mudança nas políticas de comércio e imigração dos EUA, a agência prevê que os fluxos financeiros e de investimento no México caiam à medida que investidores e empresas adotam uma atitude “esperar para ver” até que haja mais visibilidade.

A queda no peso mexicano desde a eleição pode alimentar a inflação, levando o banco central a apertar ainda mais a política monetária, acrescenta a Moody’s, sublinhando que a combinação de subida de taxas de juro e um sentimento mais negativo por parte dos investidores, vai criar mais dificuldades económicas.

Como tal, a Moody’s cortou as estimativas de crescimento para o México para o próximo ano de 2,5% para 1,9% e de 2,7% para 2,3% para 2018.

«A perspetiva de um aumento das taxas de juro num ambiente de crescimento económico lento pode também tornar mais difícil para os devedores pagar a sua dívida, aumentando os riscos de ativos para os bancos. Em particular, isto terá impacto no segmento de retalho em rápido crescimento, que representa cerca de 35% dos empréstimos», afirma a agência de rating.