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Política desafia economia

Em 2017, a instabilidade política deverá assumir-se como o principal desafio da economia global, para empresas e consumidores, de acordo com um novo relatório, com dois dos maiores riscos – os efeitos da eleição de Donald Trump e do Brexit – a afetarem particularmente as economias avançadas.

Segundo relatório “As economias globais e os consumidores em 2017”, recentemente divulgado pela Euromonitor International, a incerteza depois das eleições presidenciais norte-americanas e a preocupação com a saída do Reino Unido da União Europeia estão entre as principais tendências a serem observadas no corrente ano.

«O risco das barreiras comerciais e do isolamento económico está a crescer nos países ocidentais, uma vez que o descontentamento com a globalização alimenta o apoio de populistas e da extrema-direita», explicam os autores.

Durante a campanha eleitoral, o atual presidente dos EUA, Donald Trump, expressou as suas intenções de implementar um imposto de importação de até 45% sobre bens provenientes do México e da China, renegociar o Acordo de Comércio Livre da América do Norte (Nafta) e retirar-se da Parceria Transpacífico (TPP) (ver EUA saltam fora do TPP).

O Reino Unido, por seu lado, corre o risco de ser cortado do mercado único europeu depois da decisão de deixar a União Europeia, uma medida que a Euromonitor identifica como prejudicial tanto para a economia do Reino Unido como da União Europeia.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) estima que 2016 tenha sido o ano de crescimento mais lento do comércio mundial desde a crise financeira. Em 2017, a Euromonitor International espera que o crescimento do comércio se fortaleça com o crescimento económico, mas sublinha os riscos crescentes decorrentes do sentimento antiglobalização. De acordo com a Euromonitor, os três principais eixos de mudança enfrentados pela economia global em 2017 são:

1 – A incerteza depois das eleições norte-americanas

«O facto de Donald Trump ter ganho as eleições presidenciais nos EUA é outro choque político para as economias do mundo desenvolvido. Mesmo que o Congresso e o Senado moderem algumas das políticas planeadas por Donald Trump, se estas forem totalmente implementadas, podem aumentar significativamente os riscos de uma recessão mais severa nos EUA ou a estagnação geral da economia global», alertam os autores do relatório “As economias globais e os consumidores em 2017”.

Os principais riscos, aponta a Euromonitor, são os aumentos maiores do que o esperado nos impostos sobre as importações e restrições à imigração (ver Trump defende protecionismo), que poderão causar uma desaceleração na economia dos EUA, com o crescimento do PIB a cair 0,9% em 2017.

«Na escala global, a vitória de Trump aumenta a incerteza em termos de posições da política externa dos EUA, como as guerras comerciais com a China, um muro com o México, o envolvimento em acordos multinacionais e as atitudes em relação a algumas das políticas da União Europeia», refere a Euromonitor.

 2 – Os riscos políticos que ameaçam travar o crescimento da Europa

«Os EUA não são o único país a testemunhar a ascensão do populismo protecionista e anti-imigração. Os partidos de direita estão a ganhar terreno em toda a Europa, aumentando a incerteza política», afirma a Euromonitor.

Os analistas acreditam que a preocupação contínua em torno do Brexit reduzirá a procura do Reino Unido e aumentará a vulnerabilidade das economias europeias em 2017. Em França, as eleições deste ano poderão desempenhar um papel decisivo na direção futura da União Europeia. Enquanto isso, em Itália, o primeiro-ministro Matteo Renzi renunciou no final de 2016, depois de perder o referendo às alterações constitucionais, o que fortalecerá o Movimento Cinco Estrelas (anti-UE) nas eleições de 2018, admite a Euromonitor.

«A expansão do populismo político poderá aumentar as restrições comerciais e de imigração e retardar a implementação de reformas estruturais, levando a uma quebra na confiança do sector privado, com efeitos negativos sobre o investimento e os gastos dos consumidores», explicam os analistas.

3 – A pressão da dívida chinesa

De acordo com os analistas, o crescimento do crédito deverá persistir na China ao longo de 2017, apesar das medidas recentemente introduzidas pelo governo para combater a dívida excessiva. A dívida do sector privado não-financeiro da China ao PIB situou-se em mais de 200% em meados de 2016, crescendo quase duas vezes mais rápido que o PIB do país. Os empréstimos são uma especial causa de preocupação, aumentando a probabilidade de uma crise bancária nos próximos três anos.

«O governo chinês começou recentemente a tomar medidas para combater a crescente dívida», explicam os autores do relatório “As economias globais e os consumidores em 2017” da Euromonitor Internacional. «As empresas altamente endividadas são encorajadas a declarar falência, com os bancos instados a cancelar os seus empréstimos. As cidades chinesas introduziram restrições de venda de propriedades e os principais bancos da China foram obrigados a reduzir os empréstimos imobiliários», revela a Euromonitor Internacional. No entanto, os analistas consideram que estas medidas não serão suficientes para estabilizar os mercados de crédito da China.