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Pôr o Porto no Y da moda

Aumentar a atratividade do sector para os mais jovens e posicionar a Invicta como uma capital de moda, reforçada pelos concelhos industriais vizinhos, foram as principais ideias debatidas na conferência “Fileiras da moda no Porto e Norte de Portugal: presente e futuro”, organizada pelo CENIT.

Manuel Teixeira

A ligação da moda ao território e às cidades foi o mote para a conferência, que juntou ontem, dia 29 de maio, no Porto, associações sectoriais, designers e representantes autárquicos.

A premissa, afirmou, na abertura, Manuel Lopes Teixeira, «é pensar nestes sectores na sua ligação ao território», avançando que outras cidades de renome mundial têm vindo a apoiar-se na moda para se afirmarem. «As grandes cidades da Europa e do mundo – destacaria Nova Iorque – nos seus planos de desenvolvimento competitivo e nos planos de marketing têm o sector da moda como uma das principais apostas. O sector da moda ocupa o primeiro lugar daquilo que são os investimentos do ponto de vista de desenvolvimento estratégico. E nós, teremos a possibilidade de algum dia sermos um player? Como as grandes cidades com certeza que não, mas podemos desempenhar um papel à medida daquilo que é a nossa realidade», assegurou o presidente do CENIT.

A verdade é que as fileiras da moda, concentradas no Norte, têm já um peso significativo na economia do país. De acordo com os dados compilados no estudo “Fileiras da moda no Porto e Norte de Portugal”, comissionado pelo CENIT à Sigma Team, em conjunto, a indústria e comércio de têxtil e vestuário, calçado e acessórios, onde se inclui a ourivesaria, incluem 44.386 empresas, representam 269.817 postos de trabalho e um volume de negócios próximo dos 17 mil milhões de euros. «Em 2015, o conjunto das fileiras da moda representou cerca de 4% do total de empresas, 8% do emprego e 5% do volume de negócios total da economia portuguesa», revelou Hermano Rodrigues, da Sigma Team, sublinhando a relevância das indústrias da moda. «Para a economia como um todo, as indústrias da moda representam 1,4% das empresas, 5,2% do emprego, 3% do volume de negócios e 3,7% do VAB [valor acrescentado bruto]. Mas em termos da indústria transformadora, as indústrias da moda representam 24% das empresas, 28% do emprego, 12% do volume de negócios e 15% do VAB», acrescentou.

Hermano Rodrigues

Olhando para o Norte do país, em particular, «a concentração das indústrias da moda nesta região tem vindo a acentuar-se», apontou. Segundo o estudo, mais de 50% das empresas das fileiras da moda encontram-se no Norte, respondendo por cerca de 73% do emprego e 70% do total de volume de negócios, bem como do VAB. Em termos apenas da indústria, a região contribui com cerca de 79% das empresas e 87% do total de trabalhadores e do volume de negócios.

É esta concentração que se traduz no que a Sigma Team batizou de “grande Y da moda na região Norte”, que inclui o sul da área metropolitana do Porto (Oliveira de Azeméis e São João da Madeira), o eixo Vila Nova de Famalicão/Barcelos, por um lado, e o eixo Paços de Ferreira/Guimarães/Felgueiras, por outro lado.

Autarquias atentas

Por se encontrarem neste “grande Y”, autarquias como a de Guimarães e Vila Nova de Famalicão têm construído políticas para alavancarem a indústria da moda no seu território.

Sérgio Gonçalves

Sob a chancela da Guimarães Marca, a Câmara Municipal de Guimarães tem, desde 2013, procurado dar visibilidade, a nível nacional e internacional, ao know-how das empresas fixadas no concelho, ao mesmo tempo que pretende potenciar o turismo cultural e industrial do concelho e promover a atratividade da Cidade-Berço. Presenças na feira de têxteis-lar Heimtextil e noutros certames sectoriais e a existência de uma loja pop-up que todas as semanas tem uma empresa diferente a apresentar os seus produtos fazem parte das iniciativas. «Temos de diversificar o tecido económico e temos que potenciar isso», defendeu Sérgio Gonçalves, vereador-adjunto na Câmara Municipal de Guimarães. Sem bairrismos e lembrando que o território é muito pequeno para se assumirem barreiras geográficas – «Guimarães também tem um aeroporto, fica apenas a 50 km», lembrou –, Sérgio Gonçalves reconheceu que «toda a gente tem a ganhar» com a colaboração entre municípios, mas «queremos ser Guimarães».

Também Vila Nova de Famalicão se assume como «um concelho orgulhosamente industrial», com o vereador Augusto Lima a citar os números que fazem do município uma referência nacional. «Famalicão é o terceiro concelho mais exportador do país e, o que nos traz mais orgulho, é o que mais contribui para a balança comercial», destacou.

Augusto Lima
Ricardo Valente

A iniciativa Famalicão Made IN tem dado visibilidade aos bons exemplos industriais da cidade, onde se incluem a Louropel, a maior empresa de botões da Europa, as marcas de moda Salsa e Tiffosi, gigantes como a Leica e a Continental e referências do sector agroalimentar, como a Vieira de Castro e a Primor. «Agora estamos a dar passos numa segunda etapa, com a marca Famalicão Cidade Têxtil», adiantou, frisando, contudo, que não se trata de se assumir como a maior cidade dedicada ao têxtil, mas sim mostrar que Famalicão está no epicentro deste sector, albergando o Citeve, o CeNTI, o Museu da Indústria Têxtil e players importantes na área dos têxteis técnicos, como a TMG Automotive e a Olbo & Mehler. «É uma marca territorial», realçou Augusto Lima, apontando que «tem dois propósitos: a atração de pessoas e a valorização da imagem do sector».

E é exatamente na atração de novos talentos, nomeadamente internacionais, para as indústrias da moda que o Porto pode assumir um lugar de destaque. Embora o vereador Ricardo Valente tenha recusado um «papel dirigista» na definição da Invicta, preferindo uma versão do Porto como «uma cidade aberta, de liberdade», a autarquia reconhece que «a moda tem muito valor acrescentado» e, como tal, «é uma fileira que vemos com bons olhos». Na relação com os concelhos vizinhos, «o Porto está neste centro, entre uma parte a sul que é fortíssima no industrial, uma parte a norte que é fortíssima na indústria – e ainda bem, fantástico – e, portanto, só se não formos muito inteligentes é que não percebemos isto e não tiramos partido desta clara integração que temos que fazer entre uma metrópole com enorme capacidade de conhecimento, de atrair pessoas de fora, que tem uma proposta cosmopolita que mais ninguém vai conseguir ter», referiu Ricardo Valente. «Evidentemente que temos de olhar para isto numa lógica win-win», salientou.

Luís Buchinho

Foi com o objetivo de aproveitar esta mais-valia da centralidade que Luís Buchinho se instalou no Porto há quase 30 anos. «Achei que aqui havia uma logística muito fácil para uma marca de autor. Na altura, tal como agora, há uma rede têxtil que dá um serviço maior a esse nível, que é ideal para uma marca que tem uma dimensão média ou pequena», revelou o designer. Crítico da expressão “moda portuguesa” porque, esclareceu, «não temos uma moda Portugal, somos um país de manufatura para quem faz moda, que é completamente diferente», Buchinho acredita que faz falta «marcas portuguesas que sejam pertinentes a nível global e, para isso, é preciso um grande investimento».

Associações apostam na promoção

É também com pesar que Luís Figueiredo, vice-presidente da Anivec – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção e administrador da Hall&Ca, que há 20 anos produz em exclusivo para a marca própria Laranjinha, reconhece a falta de marcas nacionais, mas mostra-se otimista. «A nossa indústria de moda tem uma capacidade enorme que muitas vezes, nós empresários, nem nos apercebemos quão bons somos», garantiu. No entanto, no horizonte surge o desafio de renovar a mão de obra. «A média etária dos funcionários está a subir e não está a haver regeneração», alertou, avançando com a necessidade de, por um lado, «passar a imagem de um sector com glamour» e, por outro, «apostar na digitalização da indústria».

Luís Figueiredo, Manuel Teixeira, Fátima Santos e JoãoMaia

A questão da imagem dos sectores e da escassez da mão de obra é, de resto, transversal também ao calçado e à ourivesaria. João Maia, diretor-geral da Apiccaps – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos, afirmou que, apesar de as empresas não estarem na cidade, «o Porto é central na atração de talentos» para a “indústria mais sexy da Europa”, embora o grande foco do plano estratégico da associação seja a internacionalização e, nesse âmbito, a comunicação digital. «Estas ações são críticas para conseguirmos aumentar o nosso preço médio», sublinhou.

Já na Aorp – Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal, o primeiro plano estratégico, que está agora a ser delineado, deverá focar-se na internacionalização, com campanhas de imagem – como a que teve como protagonista Milla Jovovich – para abrir as portas de grandes grupos. «A nossa margem de crescimento é gigante», admitiu a secretária-geral Fátima Santos.