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Porque é que a China não está a dominar o mundo? (Parte II)

O boom de compra dos EUA

Se a América tivesse mantido as suas importações de vestuário ao mesmo nível de 2004 as exportações dos países emergentes que não a China teriam caído 16.5 por cento. Se os países vizinhos da América detivessem a mesma fatia que este ano estariam todos, não apenas o México, perante um grande declínio das vendas.

Se os retalhistas americanos tivessem comprado tanto vestuário a países estrangeiros como em 2004, El Salvador teria exportado menos 3 por cento de vestuário do que no último ano e não 11 por cento mais. A República Dominicana e as Honduras teriam vendido 7 por cento menos. O México teria perdido 21 por cento e o Perú teria registado um aumento de apenas 1 por cento e não os impressionantes 16 por cento.

É apenas uma questão de tempo até que a América abrande o seu boom de comprar. Se este boom for o resultado de um aumento dos gastos do consumidor acabará por parar mais cedo ou mais tarde. Se for o resultado da compra excessiva por parte dos retalhistas americanos, parará muito mais cedo.

China deixa espaço livre

A boa notícia para todos os fornecedores não-chineses é que durante mais alguns anos a China não vai poder impor-se. A UE dispõe agora de um sistema estável de quotas anti-China para 2006 e 2007 e a China anunciou o seu próprio sistema.

Mesmo que os EUA e a China nunca acordem um sistema similar, é agora claro que os lobbies dos EUA irão constantemente apelar à utilização das limitações de crescimento das importações da China de 7.5 por cento em muitas categorias ao longo de 2006/7 e a administração irá concordar com a maioria delas. A China vai mostrar a sua ‘irritação’, mas não vai cancelar contratos com a Boeing ou sancionar oficialmente software pirateado. A América vai manter a China controlada até as restrições serem provavelmente levantadas em 2008. “Provavelmente”, uma vez que as quotas actuais estão a ser impostas seguindo as cláusulas específicas para têxteis da entrada da China para a OMC e essas cláusulas expiram em 2008.

Contudo, existem outras cláusulas no acordo que permitam a reposição de quotas e que não terminam até 2014. É quase certo que vão existir pressões para essas cláusulas serem invocadas em 2008, não sendo tão provável que os legisladores as apliquem. O factor mais relevante é que estas hipóteses deram às fábricas de vestuário não-chinesas mais alguns anos para se adaptarem à grande probabilidade de a China estar totalmente livre depois de 2007.

Mudanças legislativas

Existem também algumas mudanças legislativas eminentes que ajudam os fornecedores americanos. Na América Central, o CAFTA-DR (Acordo de Comércio Livre da América Central) dará aos produtores locais mais algum tempo de adaptação, enquanto o Peru e a Colômbia irão beneficiar das condições do Andean Pact (Pacto Andino).

A lei do comércio, presentemente no congresso, vai conferir acesso livre de impostos ao Bangladesh, Cambodja e Laos, se realmente for aprovada. A Free Trade Area (Área de Livre Comércio) com Marrocos ainda tem de ser implementada e o representante americano do comércio, Rob Portman, falou com optimismo da possibilidade de implementação de áreas deste género com a Tailândia e os Emirados Árabes Unidos.

Se não houver outras alternativas, o futuro imediato é indubitavelmente rosado para as empresas de consultoria que dão a conhecer aos comerciantes os pequenos refúgios das leis de comércio americanas.

Para os fornecedores que têm como mercado alvo a Europa as notícias não são tão positivas. A UE não pode fazer muito para facilitar o acesso ao seu mercado para os produtores de vestuário dos países de Leste ou do Mediterrâneo, uma vez que os negócios nestes países já dispõem de áreas de acesso à UE sem restrições.

A adesão à UE da Roménia e da Bulgária em 2007/8 poderá significar o fim da indústria de vestuário nestes países à semelhança dos acontecimentos na Polónia e Hungria. A União Europeia pode rever as suas leis de origem para beneficiar o Sri Lanka, Bangladesh, Cambodja e Vietname, mas os lobbies do sector têxtil, contrariamente ao do vestuário, são contra esta estratégia.

No entanto, em todo o mundo as fábricas vão procurar melhorar e preparar-se para a nova conjuntura ao longo dos próximos dois anos. É surpreendente a quantidade de localizações diferentes a partir das quais os produtores operam e sem dúvida de cada vez que um destes sítios for encerrado vão surgir vozes a anunciar o colapso total da indústria nesse país. Grande parte dos produtores emergentes tem uma produtividade baixa e ao recorrer a equipamentos mais modernos e eficazes para se tornar mais competitivos vão dispensar trabalhadores dando azo a mais rumores de devastação económica no país em causa.

Na verdade o que se assiste é a centenas de milhares de empresas emergentes a tornarem-se cada vez mais eficientes. Não deixa de ser irónico que os proteccionistas europeus e americanos tenham ajudado tanto a indústria dos países em desenvolvimento. Será que era esse verdadeiramente o seu objectivo?