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Portugal com pés para andar?

Numa análise realizada pelo jornal The Economist, as adversidades politicas e económicas portuguesas cruzam-se com os sucessos da indústria do calçado nacional, que se espere inspire o mesmo final feliz e Portugal se torne o mais sexy dos países em termos económicos e financeiros.

O ano de 2011 foi difícil para Portugal: o país iniciou um resgato internacional e a economia encolheu 1,8%. Não terá sido, eventualmente, o momento mais fortuito para o lançamento de uma campanha de marketing internacional sob o lema “Sapatos portugueses: a indústria mais sexy da Europa”. Porém, Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da Apiccaps destacou a necessidade de atuar: «Fabricávamos sapatos excelentes, mas a maioria não os conhecia».

Nos três anos seguintes, o desemprego aumentou, centenas de milhares de cidadãos portugueses emigraram e manifestantes marcharam pelas ruas de Portugal, enquanto o país atravessava as consequências de um duro programa de ajustamento económico. Porém, os fabricantes de calçado prosperaram. A indústria, que emprega cerca de 35.000 pessoas, essencialmente sediada a norte, testemunhou um aumento de 54% das exportações ao longo dos últimos cinco anos. Num país onde a taxa de desemprego alcança os dois dígitos, os produtores de calçado criaram 8.000 postos de trabalho apenas nos últimos dois anos.

Com as exportações a representarem 95% da produção, a indústria do calçado portuguesa é pioneira na representação daquilo que o resgate nacional pretendia alcançar: um reequilíbrio da economia, afastando-a da procura doméstica alimentada pela dívida, para um foco nas exportações. Os empresários nacionais afirmam que a disposição demonstrada pelo país para completar o programa de resgate potenciou a sua imagem no estrangeiro. «Sentimos isso nas nossas relações com os fornecedores e clientes internacionais», afirma Paulo Gonçalves ao The Economist. «Quanto mais Portugal é respeitado como um país responsável, mais somos vistos como empresas confiáveis».

Tais sentimentos contribuíram para a vitória da coligação de centro-direita nas eleições gerais de 4 de outubro. Pedro Passos Coelho tornou-se o primeiro primeiro-ministro da Zona Euro a ser reeleito depois de conduzir um país através de um programa de resgate. As forças contrárias à austeridade, em Portugal e em toda a Europa, ficaram desapontadas. Antecipavam que os cortes orçamentais aplicados no decorrer desse período afetassem o resultado da coligação Portugal à Frente (PAF).

Mas a vitória da coligação não representou um aval à austeridade. A sua quota de voto caiu de pouco mais de 50% nas eleições de 2011 para 38%, tendo perdido 12 assentos parlamentares. Os socialistas subiram para 32%, enquanto o Bloco de Esquerda duplicou a sua quota, fixando-a em mais de 10%, à frente do Partido Comunista.

As divisões ideológicas profundas impedem a formação de um governo à esquerda. Mas o PAF terá que negociar com o PS para aprovar leis ou um orçamento. António Costa, líder dos socialistas, pretende um alívio das medidas de austeridade, proteção dos beneficiários de apoios sociais e mais investimento público na ciência.

Um governo de centro-direita minoritário com o apoio do PS poderá «funcionar razoavelmente bem», acredita Federico Santi, da consultora Eurasia Group. «Apesar da postura anti-austeridade vocal de Costa, o PS continua a ser um partido fundamentalmente moderado e decididamente pró-europeu». No entanto, as divisões políticas que poderão atrasar as reformas económicas inquietam os exportadores, assim como Paulo Gonçalves, que afirma que a sua «principal preocupação atual é que o país continue a percorrer o caminho que começou em 2011».

A indústria do calçado encetou a sua transformação antes da crise do euro, em resposta ao abandono do território nacional por fabricantes estrangeiros, em benefício da Ásia e Europa de Leste, que oferecem menores custos laborais. As empresas portuguesas optaram, então, por abandonar o mercado de massas e concentrar-se em calçado de elevada qualidade, recorrendo a design, tecnologia e técnicas de marketing. No segmento do calçado de” alta-costura”, a etiqueta “made in Portugal” fica apenas aquém da famigerada “made in Italy” em termos de prestígio. As marcas portuguesas, como Luís Onofre, Hard Hearted Harlot e Fly London, expedem calçado para clientes entre os quais se encontram membros da realeza e celebridades como Madonna e David Beckham.

Isto enquadra-se num panorama mais vasto de sucesso das exportações portuguesas. Em julho de 2012, a balança comercial portuguesa alcançou o sinal positivo pela primeira vez desde que o Banco Central Europeu começou a monitorizar o indicador em 1996. As exportações já representam mais de 40% da produção nacional, em comparação com 28% em 2008. Stephan Morais, diretor executivo da Caixa Capital, um gestor de fundos de risco, explica que reformas realizadas durante o resgate têm ajudado os exportadores a reduzir os custos e a flexibilizar as regras. O programa de flexibilização quantitativa do Banco Central Europeu diminuiu, também, os custos associados aos empréstimos das empresas.

Contudo, o crescimento de Portugal é ainda frágil. Após três anos de contração, a economia cresceu pouco menos de 1% em 2014 e espera-se um crescimento de cerca de 1,6% este ano e no próximo. Passos Coelho conseguiu a aprovação de amplas reformas económicas, mas será necessário mais. As empresas manifestam-se contra as barreiras nacionais à concorrência, incluindo os elevados custos energéticos e um mercado de trabalho pouco flexível. A lei das falências deverá ser reformulada. O Fundo Monetário Internacional alertou Passos Coelho, ainda antes das eleições, para o abrandamento do ritmo das reformas e será pouco provável que um governo minoritário consiga acelerar a tomada de decisões. A vitória de centro-direita provou que com um pouco de crescimento, os governos pró-austeridade podem sobreviver. No entanto, se Portugal pretende que outras indústrias repliquem o sucesso do segmento de calçado nacional, necessitará de um governo que não se limite a sobreviver.