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Portugal deve continuar a ser um país do Têxtil e do Vestuário»

O Secretário de Estado da Industria, Comércio e Serviços, Fernando Lopes Ribeiro Mendes, convocou na Sexta-Feira, 28 de Setembro, alguns dos principais protagonistas da ITV nacional para a realização de uma mesa redonda sobre «As perspectivas de desenvolvimento estratégico e apoios públicos para o Têxtil e Vestuário». A iniciativa, mediada pelo ex-Secretário de Estado Nelson de Souza, teve uma significativa adesão de instituições e empresários reunidos nas instalações do Citeve, em Vila Nova de Famalicão. O Jornal Têxtil colocou algumas questões que considerou pertinentes para a presente situação do Sector. Jornal Têxtil – Dada a significativa importância da ITV na economia nacional – 20% do emprego industrial, 15% do VAB da Indústria Transformadora, 20% das exportações – qual a resposta estratégica do sector para que não se fale no futuro apenas em sobrevivência mas em vantagem competitiva sustentada? Fernando Ribeiro Mendes – A resposta estratégica do sector está a ser dada e por quem deve ser dada, ou seja pelas próprias empresas e por aqueles que estudam, acompanham e apoiam o desenvolvimento empresarial. Sinto que há hoje um consenso amplo no sentido de reconhecer que esta industria tem que subir na cadeia de valor, entrar pela áreas a jusante, de aproximação ao mercado, de conhecimento das tendências da procura, e a montante investindo no desenvolvimento do produto, nas áreas de marketing, ou seja deixar de ser uma industria tradicional de produção. Investir na apresentação: “Temos aqui os nossos produtos, é isto que produzimos e é isto que queremos vender”. Hoje as industrias tem que se voltar de facto para a procura e saber que os consumidores pedem soluções e são esses movimentos que ditam todas as soluções do plano industrial. Um aspecto positivo que eu gostava de realçar é que me parece que há um consenso em volta de um diagnóstico do sector, e é muito sólido e muito amplo. Por outro lado, a dimensão global das economias dita que não há soluções no nosso pequeno cantinho. Não há soluções só portuguesas, temos que nos internacionalizar, a ITV, que é uma industria tradicionalmente exportadora, mais do que continuar a ser exportadora, tem que ser integrada, tem quer acompanhar a evolução e saber situar-se numa gestão de cadeia de valor dessa industria à escala global. JT- Anteontem, no seminário do Cenestap sobre as oportunidades da ITV, falou na «importância da atitude pró-activa», «mudar a mentalidade de uma sociedade muito hierarquizada, a dar mais importância ao estatuto que à qualificação». É difícil operar as necessárias mudanças neste domínio? FRM – Julgo que uma parte dessa mudança acabará por ser conseguida com a renovação geracional, porque naturalmente que quando chegamos a fases mais avançadas da nossa vida criamos resistências, por razões até biológicas e psicológicas. De qualquer forma, uma política de pequenos passos de mudança – e quando digo política não digo política só do Estado mas da sociedade em geral, das empresas e do movimento associativo empresarial – é uma política de pequenos passos que vá ajudando a renovar, trazendo para as empresas quadros novos, com a formação técnica superior, que incentiva não só a mobilidade como a inserção nestes sectores tradicionais. Houve aqui sugestões muito interessantes a este respeito como a criação de bolsas, a criação de pós-graduações ligadas ao sector, para fazer essa tal renovação de mentalidades que só pode ser feita pelo sangue novo. JT- No contexto da agressiva competitividade do sector, da globalização e da liberalização prevista para 2005, o Estado desempenha um papel importante e certamente que partilha das preocupações do sector. No seminário falou numa «relação entre governo e industria para um mesmo esforço». Como é que se está a prever a contribuição para este desafio? FRM – Eu quero sobretudo manifestar aqui uma atitude aberta a todas as propostas consistentes de parceria, de actuação conjunta do Estado e da indústria. Existem instrumentos de política publica, são conhecidos e temos já o POE. Há medidas que permitem uma conjugação de esforços entre os sectores público e privado muito interessantes. JT – Mas não está previsto algo de mais especifico integrado no POE para o sector, algo como um IMIT 2? FRM – Não, isso ainda não está previsto. Vamos ver as sugestões da indústria, vamos ver o que têm para nos propor e depois avançaremos com segurança e sem preconceitos. Se for justificado um programa especifico, e se os argumentos forem sólidos, creio que o Governo saberá dar uma resposta à altura. JT- Quais as principais medidas e conclusões da reunião que efectuou esta manhã sobre desenvolvimento estratégico e apoios públicos para a ITV? FRM – A reunião foi essencialmente para auscultar, para ouvir a opinião. Responderam ao meu convite largas dezenas de responsáveis empresariais e associativos, pessoas com grandes conhecimentos técnicos do sector. Foi uma troca muito franca de impressões, a reunião não queria ser mais do que isso, não se destinava a tirar conclusões. Verificamos que há um diagnóstico muito consensual sobre os problemas do Sector e que as medidas de superação das dificuldades e os rumos novos que a Industria tem que empreender são também conhecidos. Neste momento é uma questão de disposição e determinação por parte dos empresários e dos responsáveis da Industria, e por parte também do Estado. JT – A ITV nacional tem futuro? FRM – A ITV nacional tem futuro, Portugal deve continuar a ser um país do Têxtil e do Vestuário, e estão em marcha propostas suficientemente consistentes para permitirem visualizar resultados a curto prazo no sentido de renovação da industria têxtil.