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Portugal e a indústria 4.0

A chamada 4.ª revolução industrial deixou de estar apenas no radar das empresas para se tornar numa realidade. Até 2020, as empresas na Europa vão investir anualmente 140 mil milhões de euros na Indústria 4.0.

Os números são da PricewaterhouseCoopers (PwC) e o mais recente relatório da consultora sobre o tema comprova que as empresas, incluindo as portuguesas, estão cada vez mais atentas às novidades nesta área. «Quando a PwC desenvolveu o seu primeiro estudo da Indústria 4.0, em 2014 na Alemanha, o tema estava no radar de muitas empresas, mas poucas estavam realmente em processo de implementação. Esta situação mudou radicalmente nos últimos dois anos», explicam António Brochado Correia, partner responsável pelo sector de consumo, produtos e serviços industriais, e Pedro Deus, advisory partner, na introdução do estudo “Global Industry 4.0”, publicado em setembro de 2016.

Esta evolução não é apenas internacional mas também se verifica em Portugal, destaca o estudo, o primeiro a contar com informação nacional. «As empresas assumem claramente que esperam ter aumentos significativos nos seus portefólios a nível de produtos e serviços digitais. Em Portugal, segundo os resultados, 86% das empresas esperam nos próximos cinco anos ver os seus processos, das cadeias de valor horizontal e vertical, altamente digitalizados», aponta.

Os dados recolhidos pela PwC relativos a Portugal mostram ainda que 57% das empresas portuguesas do sector industrial antecipam um aumento médio da sua receita através do digital até 10%, 55% têm como expectativa uma redução de custos acima dos 10% e cerca de 70% preveem obter ganhos de eficiência acima dos 10%. «As empresas pioneiras, que já contam com níveis de investimento significativo e com níveis de digitalização avançados, contam ter resultados ainda mais favoráveis», sublinha a PwC.

Uma evolução que poderá contribuir para que a indústria transformadora aumente o seu peso na economia, tal como esperado pela Estratégia de Fomento Industrial para o Crescimento e o Emprego 2014-2020, do Ministério da Economia, que prevê que a representatividade deste sector passe de 15,4% em 2015 para 18% em 2020.

No entanto, destaca a consultora no relatório, «o grande desafio não está na implementação das tecnologias mais adequadas, está sim na transformação cultural da empresa e na atual falta de competências para lidar com esta mudança». Citando o estudo Digital IQ, a PwC sublinha que «investir nas tecnologias apropriadas é importante, contudo, o sucesso ou a falta deste não irá apenas depender de sensores específicos, de algoritmos ou de programas de análise de dados mas sim de um maior número de fatores relacionados com pessoas», pelo que «as empresas têm agora a

necessidade de desenvolver uma sólida cultura digital e garantir que o exemplo vem do topo. É também obrigatório que as empresas possam atrair, reter e formar recursos da próxima geração (os chamados nativos digitais) ou outros, que se sintam confortáveis a trabalhar num ecossistema cada vez mais dinâmico».

Com a informação e, consequentemente, a análise de dados a estarem na base da quarta revolução industrial, «as empresas do sector industrial vão ter de desenvolver sólidas estruturas organizacionais de suporte à análise de dados para toda a empresa».

Com este cenário, acredita a PwC, a globalização assumirá características diferentes, que irão beneficiar tanto os países desenvolvidos como as economias em desenvolvimento, embora «a opinião geral é de que as economias desenvolvidas se podem destacar, pelo menos no curto prazo, na Indústria 4.0, já que estão mais alinhadas com melhorias ao nível das operações digitais para ganhar eficiência».

Prova disso, refere a consultora, é que as empresas no Japão e na Alemanha são as mais avançadas na digitalização das suas operações internas e parcerias ao longo da sua cadeia de valor horizontal.

A empresa multinacional de engenharia e eletrónica Bosch – que está a liderar a revolução da Indústria 4.0 tanto na Alemanha como em termos mundiais –, por exemplo, não só é a principal produtora de tecnologias de produção conectadas, mas está também a implementar as soluções da Indústria 4.0 nas suas próprias instalações. Na sua unidade de Blaichach, no sul da Alemanha, que produz sistemas de controlo de travões, mais de 5.000 máquinas estão interligadas, o que lhes permite coordenar o trabalho e, ao mesmo tempo, adaptar-se às mudanças no processo de produção. A análise constante, em tempo real, de dados é usada para detetar tendências e erros recorrentes antes destes se tornarem problemáticos.

«No presente estudo, tomamos consciência que uma elevada percentagem de empresas industriais está já a converter os seus processos e os seus recursos para as novas tecnologias digitais (data analytics & big data, cloud computing, impressão 3D,

robótica, internet of things, etc.…). Tudo indica que as fábricas estão a ficar cada vez

mais inteligentes», sublinha Pedro Deus. «As empresas (industriais ou não) que queiram sobreviver e, entretanto, aproveitar as vantagens destas novas ferramentas, devem melhorar as suas competências digitais e, a curto prazo, serão forçadas a investir em projetos de digitalização dos seus modelos de negócio, seja atuando no portefólio de produtos ou processos, nos modelos de distribuição ou na otimização dos seus processos internos, sob pena de serem ultrapassadas por novos players, mais preparados digitalmente e com maior capacidade de adaptação a um mundo globalizado e digitalmente interconectado», conclui.