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Portugal é o pior aluno europeu em inovação

Décadas de atraso na implementação de novos sistemas de trabalho, uma iliteracia elevada e a difícil coordenação entre institutos, unidades de investigação e empresas constituem as principais causas do atraso de Portugal em termos de Investigação e Desenvolvimento (I&D), um factor fundamental para melhorar a competitividade e fomentar a inovação. Os investimentos efectuados nos últimos anos ajudaram a melhorar a situação, mas não o suficiente para acompanhar os parceiros europeus, mesmo os países do Sul da Europa, que partilham com Portugal alguns dos problemas mais comuns da cultura latina. Quando a própria Grécia ultrapassa Portugal nos principais indicadores de I&D, é motivo de parar para pensar o que é que aquele país foi capaz de fazer e nós não. Segundo os últimos dados divulgados pelo Observatório das Ciências e das Tecnologias, relativos a 2001, a tendência de crescimento do sistema científico e tecnológico português é contínua desde 1995. Nesta última análise, o Observatório destaca que se registou «um forte crescimento no sector das empresas, quer quanto aos recursos humanos em actividades de I&D, quer sobretudo quanto à despesa executada por este sector relativamente a despesa total nacional». Em contrapartida, o Estado mostrou um decréscimo nas despesas de I&D e os sectores do Ensino Superior e das instituições privadas sem fins lucrativos abrandaram o crescimento. A falta de participação das empresas tem sido um dos principais obstáculos ao desenvolvimento da I&D em Portugal. As empresas investem pouco em I&D e raramente dispõem de investigadores, o que se reflecte depois na sua fraca capacidade de inovar e adoptar novas tecnologias. O Observatório revela ainda que «este crescimento no sector das empresas poderá representar um momento histórico no sistema científico nacional», embora admita que essa conclusão «só se poderá tirar dentro de alguns anos». De acordo com o relatório, o volume de despesas das empresas em I&D aumentou de 28% entre 1999 e 2001. Em 1999, o sector executou 23% da despesa total em actividades de I&D enquanto que, dois anos depois, o valor executado subiu para 32%, equivalente a 330 milhões de euros, sendo a quase totalidade financiada pelas próprias empresas. É ainda destacado a consolidação dos recursos humanos nas empresas, que apresentam uma taxa de crescimento anual de 17,4%. Pelo contrário, os sectores do Ensino Superior e das instituições privadas sem fins lucrativos viram o seu crescimento abrandar significativamente entre 1999 e 2001. No Estado, por sua vez, registou-se um decréscimo da despesa executada, que se traduz em menos 6% ao ano nesse mesmo período de tempo. Apesar do decréscimo do investimento do Estado e da estagnação dos sectores de investigação, a percentagem em despesas em I&D em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) aumentou em 2001 para 0,83%, correspondentes a valores que rondam os 1.000 milhões de euros. Refira-se que essa percentagem em 1997 era de 0,62%, enquanto que em 1999 os valores se situavam nos 0,75% do PIB. O crescimento positivo não invalida, porém que Portugal esteja ainda muito atrasado em relação à média europeia, que rondava os 1,88% em 2000. Esta desigualdade torna-se mais grave se se levar em conta as metas traçadas pela União Europeia, na Cimeira de Sevilha, para atingir os investimentos em I&D da ordem dos 3% do PIB para toda a Europa. Os dados do Observatório permitem concluir que, na UE, apenas a Finlândia e a Suécia têm despesas de I&D acima dos 3& do PIB em 2000, embora a Alemanha também se aproxime deste valor com investimentos superiores a 2,5% das despesas nacionais. A maioria dos países comunitários estava, em 2000, abaixo dos 2% , mas apenas Portugal e a Grécia apresentaram despesas em I&D inferiores a 1% do PIB nacional. No entanto, apesar de ser um indicador importante, a capacidade de inovação de um país não se mede apenas em termos de I&D. Há todo um conjunto de indicadores que permitem avaliar esse potencial de inovação, nos quais se incluem a área dos recursos humanos, a criação, transmissão e aplicação do conhecimento e ainda o financiamento, resultados e mercados de inovação. No Painel Europeu de Inovação de 2001, Portugal e a Grécia foram os dois países que apresentaram piores desempenhos relativos. Este painel revela ainda que os países comunitários se encontram bastante atrasados em relação a países como os EUA e o Japão, uma situação que terá de ser rapidamente ultrapassada para não perder a competitividade económica.