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Portugal Fashion abraça mudança

Numa Europa abalada pelas convulsões sociais e políticas e com a indústria da moda em mudança, a 40.ª edição do Portugal Fashion mostrou o seu lado solidário, a sua adaptação a novos modelos de negócio e formas de apresentação. Como porto seguro, a fileira moda nacional voltou-se para as memórias da infância e, como hino à liberdade, as coleções dedicadas ao outono-inverno 2017/2018 viajaram pelo globo.

No Porto, o 3.º dia de desfiles da 40.ª edição do Portugal Fashion (ver Os decretos do Portugal Fashion e Novo comandante no Bloom) amanheceu no Centro Português de Fotografia, que recebeu não só as propostas para a próxima estação fria de Katty Xiomara – já apresentadas em Nova Iorque –, mas também uma exposição de fotografia organizada pela designer e um leilão solidário a favor da Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro.

Katty Xiomara

Sobre a exposição “Anatomia do Tempo – Memories Revisited – Night, Fashion & Fantasy”, que agregou o trabalho de oito fotógrafos de moda e deverá ficar no Centro Português de Fotografia durante um mês, Katty Xiomara explicou ao Portugal Têxtil que «por termos escolhido o Centro Português de Fotografia, também quisemos fazer uma exposição de fotografia de moda». Inspirado – tal como a coleção apresentada em passerelle – pelo tema musical “El toro enamorado de la luna”, aliando a criatividade da designer às técnicas de tapeçaria da empresa portuguesa Desistart, e a servir de pano de fundo ao desfile esteve também um tapete solidário com 2×4 metros, «que será licitado online e todo o dinheiro arrecadado irá reverter a favor da Acreditar». O quadro conceptual que serviu de ponto de partida à designer materializou-se depois no preto e azul da noite que serviram de base aos brilhos da lua e das estrelas em peças com várias texturas e volumetrias, com rendas, bordados, jacquards e estampados em destaque.

Anabela Baldaque
Carlos Gil

O alinhamento do 3.º dia de desfiles do Portugal Fashion continuou no quartel-geral da Alfândega do Porto, que deixou conhecer as coleções da marca Pé de Chumbo, Anabela Baldaque, Estelita Mendonça, Susana Bettencourt, Diogo Miranda, Luís Onofre e Carlos Gil.

Viajada pelo Oriente, a coleção “Império dos Sentidos” de Anabela Baldaque, como explicou a designer, «vive das cores das especiarias e foi bastante difícil de ser trabalhada. É uma coleção com pormenores incríveis, com dedicações de mão-de-obra primorosas», dos folhos ao pelo falso, dos estampados às rendas.

Susana Bettencourt

Para a próxima estação fria, Carlos Gil optou por viajar no tempo – depois de ter viajado até à semana de moda de Milão –, mais precisamente às suas memórias de infância e transpôs pássaros, tartarugas e pinguins para peças femininas, «mas confortáveis», como sublinhou, que ajudam a «reviver um passado feliz numa imagem alegre» que se estendeu também às cores vivas do cubo mágico que intersetou várias peças.

A brincar a sério com a geometria e texturas pixelizadas, fruto de parcerias com vários artistas plásticos, esteve também Susana Bettencourt, que nesta estação decidiu apostar no modelo “ver agora/comprar agora”, numa parceria com a loja online Minty Square. «A Minty Square já tem uma equipa preparada para fazer isso e como nós já tínhamos lookbook preparado e folha de preços, enviámos tudo para eles», contou ao Portugal Têxtil, ressalvando que «a ideia é fechar as encomendas até ao dia 15 de abril e as pessoas receberem as peças no dia 1 de agosto».

Pé de Chumbo

Num passo à frente, e portanto a par do impacto da coleção apresentada em passerelle junto dos clientes, esteve a marca Pé de Chumbo, cujas propostas para o outono-inverno 2017/2018 já correram as feiras internacionais. «Esta coleção já foi vendida, quando fazemos o desfile já fizemos as feiras todas e teve muita aceitação», sublinhou a designer Alexandra Oliveira sobre as peças com brilho em rendados com folhos para festa, jogos de lãs grossas e camisolões e vestidos soltos em tiras de malha.

Estelita Mendonça

Cada vez mais atentos ao que os rodeia, os designers nacionais não ignoraram também as questões políticas que têm marcado a atualidade. A este propósito, Estelita Mendonça reinterpretou logotipos já existentes, como o da DHL, Petrobras ou o símbolo da campanha política de Donald Trump. «A ideia desta coleção tem muito a ver com o que tem acontecido no último ano a nível social e político», resumiu sobre as propostas, na sua maioria desenvolvidas com materiais reciclados em silhuetas streetwear.

Diogo Miranda

O dia ficou ainda nas mãos – e nos pés – de Diogo Miranda e Luís Onofre, com o primeiro a comemorar 10 anos da marca numa coleção «bastante sexy e com peças em que as mulheres se sentem muito femininas» de estética anos 1980 e o segundo a poder assumir o papel de presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (Apiccaps), já depois das eleições agendadas para abril.

Luís Onofre

«Só posso dizer que é um orgulho ter sido eleito pela direção para formar uma lista para ser o novo presidente», afirmou, ao Portugal Têxtil, Luís Onofre, que encaminhou para a passerelle calçado e acessórios de homem e senhora, tendo introduzido nesta edição a marroquinaria masculina. «Há um especial destaque para a mochila de homem que tanto dá para mala de mão, como para mochila e inclusivamente para levar o portátil ou tablet – está muito bem pensada para um homem moderno», garantiu.

O Portugal Fashion encerrou a sua 40ª edição no dia seguinte, sábado, mas isso já é outra história.