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Portugal Fashion entre estreias e regressos

Quase 35 mil pessoas passaram pela Alfândega do Porto, entre quinta-feira e sábado, para mais uma festa da moda, na 43ª edição do Portugal Fashion. De “bloomers” a nomes consagrados da moda nacional com muitas surpresas à mistura, o certame cumpriu o prometido.

Júlio Torcato

«É um programa repleto de novidades», prometia a diretora de comunicação, Mónica Neto, no primeiro dia de desfiles para a primavera/verão 2019. «Temos as estreias da Sophia Kah e da Marques’Almeida, marcas portuguesas já com projeção internacional, o regresso de Maria Gambina, os desfiles da Decenio e da Lion of Porches nas suas próprias instalações, recém-estreadas, a sublinhar a importância da indústria no nosso calendário e que nos permite passar à escala nacional e internacional a mensagem de que temos uma indústria com design e criatividade, pelo que faz todo o sentido promovê-la no contexto de uma semana de moda, e vamos encerrar com a celebração dos 30 anos de carreira de Júlio Torcato, que continua a revelar tanta irreverência, tanta criatividade e tanta capacidade para fazer diferente», revelava ao Portugal Têxtil.

Mónica Neto

E, com efeito, a irreverência e a criatividade de Júlio Torcato, e da sua tribo de 30 pessoas – ilustradas nos 30 looks do designer nos quais intervieram com pinceladas de street art e até de inovação tecnológica com eletrónica integrada – que deixaram marca ao longo destas três décadas do designer consagradas à moda, fecharam com chave de ouro este Portugal Fashion, num ambiente de muita festa e igual dose de emoção. «É uma responsabilidade e uma honra que o Portugal Fashion me deu», afirmou o criador de moda, que trouxe para a passerelle muitos nomes habituais dos bastidores, como os produtores de moda Isabel Branco e Luís Pereira – revisitando o seu passado comum de modelos e mostrando que para eles é como andar de bicicleta para nós, nunca se esquece – ou ainda o cabeleireiro Miguel Viana.

Não há duas sem três

Decenio

Dois dias antes tinha também cabido a Júlio Torcato, desta feita no “coletivo” criativo – com Natércia Margarido, Josefina Borges, Fernando Nunes e Odete Reis – da Decenio e da Lion of Porches, a honra de abrir a “passerelle” principal do Portugal Fashion, que viajou para a nova sede do grupo Cães de Pedra, proprietário de ambas as marcas.

«A Decenio, neste seu primeiro desfile, propõe uma coleção inspirada pela aventura, pelo Norte de África, um certo chique que vem quase do colonial. Já a Lion of Porches apresenta uma coleção mais florida, mais urbana», resumiu Júlio Torcato, diretor criativo da linha masculina de ambas as marcas da Cães de Pedra.

Mergulhar nas raízes

Se Júlio Torcato mergulhou nas raízes da sua marca com 30 anos de história(s),  contada(s) por muitos dos que a(s) viveram, já Francisco Rosas, diretor criativo da Meam (ver Meam em romaria no Portugal Fashion), mergulhou nas raízes culturais da sua terra, Barcelos, que inspirou não só o vestuário, mas também o calçado, os acessórios e até a própria passerelle, vestida com um tapete que recriava o tapete de flores instalado na igreja do Senhor da Cruz em maio último, durante as festas locais. «As raízes estão na minha memória e são muito fortes, e sendo muito fortes não preciso de estar ligado a elas. Posso estar do outro lado do mundo que as raízes estão sempre comigo», afirmou o designer que passou mais de três décadas além-fronteiras, dividido entre França e Itália.

Meam

Atualmente, Francisco Rosas é também o diretor criativo da marca Concreto, detida pelo grupo Valerius, e assim bisou na passerelle com «uma coleção essencialmente de tricots, mais ousados do que nas coleções precedentes porque temos fatos de banho, casacos em rede de pesca, vestidos com transparências … tudo isto com técnicas de vanguarda para dar uma imagem mais jovem e mais moderna à Concreto», destacou o criador de moda.

De igual forma, a Pé de Chumbo mergulhou nas raízes culturais do Minho porque «tem tudo a ver comigo, com o que fazemos. É um trabalho à mão, português, feito em Portugal, com materiais portugueses», justificou a designer e fundadora da marca vimaranense, Alexandra Oliveira. Cuca Roseta, também ela cliente da Pé de Chumbo, abriu e fechou o desfile com o seu fado cantado ao vivo e acompanhado pelos seus músicos.

O artesanato minhoto foi ainda vislumbrado no desfile da Alves/Gonçalves. «Há indícios de utilização de algo que tem um bocadinho a ver com as meias de Viana do Castelo, mas que alterámos para transformar noutra coisa qualquer», admitiu Manuel Alves, não sem deixar de ressalvar que «é [uma coleção] muito virada para o futuro, que é a minha preocupação». De resto, as propostas primaram pelos tecidos técnicos, que deram forma «a volumetrias pouca convencionais, a silhuetas pouco convencionais», sublinhou o designer.

Há também vir e voltar

Ora com o cais de Gaia como fundo, ora no interior da alfândega do Porto, a passerelle do Portugal Fashion foi ainda palco de mais estreias e um regresso.  

Sofia Kah

Sophia Kah, marca de Ana Teixeira de Sousa, desfilou pela primeira vez em solo português, na noite de sexta-feira, depois de uma estreia durante a Semana da Moda de Londres. «Foi uma coleção totalmente inspirada em Portugal, nas cores das nossas fachadas, nos prédios, no nosso lifestyle e na nossa assinatura: as rendas, que tentamos sempre renovar», adiantou ao Portugal Têxtil. A designer, que nasceu em Felgueiras no seio de uma empresa têxtil, tem na carteira clientes como Beyoncé, Sarah Jessica Parker, Kylie Minogue e Keira Knightley. «Cada estacão é um novo começo. Tem que se estar sempre a reconquistar», reconheceu.

Mas as estreias não se ficaram por aqui. Também a Marques’Almeida deu os seus primeiros passos na passerelle portuense, com o cais de Gaia a servir de cenário, depois de ter ido pela primeira vez à Semana da Moda de Paris. A dupla portuguesa sedeada em Londres apresentou o resultado de uma «miscelânea» de inspirações, «quase como se fossem atiradas para a máquina de lavar», brincou Paulo Almeida. «Tem a ver com a inspiração realista nas nossas MA’girls e também tem algum prisma de quem está em Londres há muito tempo, se calhar, tem essas influências mais street e mais punk, e, depois, as nossas raízes e aquilo que é tradicionalmente português completamente misturado», acrescentou Marta Marques.

Cristina Ferreira no Portugal Fashion foi também uma estreia cintilante. Criada em 2014, a marca de sapatos que apresentou vai para a 10ª coleção, propondo agora uma linha de noiva e um único fato de banho, teaser de uma linha de swimwear que lançará para o verão de 2019. O desfile contou com dançarinos coreografados por Cifrão, divididos em três momentos:  ballet clássico, salsa e flamenco, com a mensagem “love is love”. «Tive uma experiência na ModaLisboa e achei que o Portugal Fashion, feito no Norte, onde sou tão acarinhada, fazia todo o sentido. Os sapatos são fabricados no Norte e era a homenagem necessária a esta gente que tanto trabalha neste sector», elogiou, garantindo regressar ao certame.

Marques’Almeida

Mas o regresso ao Portugal Fashion pertenceu, nesta edição, a Maria Gambina, ausente das passerelles há cinco anos. «É uma sensação muito boa. Os cincos anos dedicados ao ensino foram muito importantes e fizeram perceber o que quero da minha vida», afirmou ao Portugal Têxtil. «Vou pegar nas peças mais comerciais, com preços mais acessíveis, e começar a vender online», avançou. A coleção “Construção”, apresentada ao som da canção homónima de Chico Buarque refletiu-se em três dimensões. «É uma construção enquanto designer, encontro-me num processo de construção; é uma construção que se reflete nas volumetrias e modelação das peças, em detalhes que se encaixam ou se transformam e, por último, nos grafismos, porque peguei na sinalética das obras de construção, com a música “Stop in the name of love”, juntei a letra a alguns desenhos», apontou.

Da fábrica para território feminino

Depois de ir à “fábrica” da Decenio e da Lion of Porches, a primeira noite de Portugal Fashion foi feita no feminino, com Carla Pontes, Susana Bettencourt e Teresa Martins. A coleção “Corpo”, de Carla Pontes, com as influências dos desenhos de Egon Schiele, inaugurou a passerelle com passagem pelo exterior da Alfândega do Porto. Numa paleta colorida, a designer, desta vez, misturou elementos naturais e artísticos, «inspirada nas marcas do corpo, as pequenas estrias e cicatrizes, que nos dão memória», onde privilegiou a «simplicidade e intemporalidade» das peças», elucidou.

Susana Bettencourt

Em seguida a passerelle foi tomada por Susana Bettencourt, com as propostas “Resilient Individuality”, «uma celebração a todas as pessoas que podem ter dificuldade em marcar, ou em simplesmente por um pé no chão, e serem elas próprias», revelou a designer. Estreando-se nos fatos de banho, a coleção contou com muitos estampados, jacquards, viscose e bambu. A modelo «surpresa» que fechou o desfile de Susana Bettencourt foi Morgana, uma transsexual em pleno processo de transição, que desfilava uma t-shirt onde se lia “Power”. Cor, deserto, flores e intensidade marcaram o último desfile do primeiro dia do Portugal Fashion, da TM Teresa Martins, que decorou o cenário e as modelos, ora sentadas em bancos ou encostadas em almofadões, foram, à vez, percorrendo a passerelle. «É uma sequência das últimas duas coleções que fizemos. É uma tomada de consciência sobre aquilo que é realmente importante na vida», garantiu Teresa Martins.

A força feminina regressou no sábado, pela mão de Katty Xiomara com a coleção «Be Bold» inspirada em três mulheres: Paula Scher, Barbara Stauffacher e Carmen Herrera, que se destacaram no mundo artístico. O resultado foi uma coleção «extremamente gráfica, misturada com o romantismo», afirmou a criadora de moda.

A revolução das cores

Foi com uma «explosão de cores» que Carlos Gil, com 20 anos de carreira, se apresentou no Portugal Fashion, com 45 coordenados, partindo do tema “aguarela”. «É transmitida para uma mulher alegre, sofisticada e elegante que procura algo divertido. Há uma união entre a arte da pintura e a explosão da cor», referiu.

Miguel Vieira

A cor também invadiu a coleção de Miguel Vieira, que fechou o segundo dia com «coordenados inspirados em pop art e ilustrações vintage», fugindo do preto e branco que o caracterizavam. Depois de ter passado pela Semana da Moda de Milão, na edição dedicada ao vestuário masculino, em junho, o criador revelou, no Porto, o resto da coleção. Cores primárias e estampados combinaram-se com grafismos e o resultado foi “streetwear couture”.

Nuno Baltazar

Nuno Baltazar também se deixou levar por cores vibrantes na criação das propostas para a primavera/verão 2019. Elis Regina e Chico Buarque e a censura pela qual passaram foram o ponto de partida da coleção «de intervenção» de Nuno Baltazar, preparada bem antes das eleições no Brasil e apresentada no sábado. «É preciso intervir, ir ao ponto certo. Eu não sei fazer músicas nem poemas. Esta é a minha forma de poesia. Houve uma mistura muito grande e um grande contraste entre tecidos muito estruturados, telas de algodão muito compactas duras, militares, que refletiam as cores, por oposição a tecidos leves, sedas misturadas com lurex, com cores vibrantes, com pormenores que expõem a censura». “Tatuagem” «foi uma das coleções mais difíceis» que o designer fez até hoje, admitiu.

Também numa chamada de atenção, “Restricted”, a coleção apresentada por Estelita Mendonça na sexta-feira, apresentou-se como «uma atitude política e social, que tem a ver com a censura que tem vindo a acontecer. O nosso trabalho como designers é refletir sobre o que está a acontecer. Serralves ou o que está a acontecer no Brasil são os exemplos mais fortes», resumiu.

Viajando entre Paris e o Porto

Hugo Costa apresentou no Portugal Fashion a coleção unissexo que passou pela Semana da Moda de Paris, com mais algumas propostas complementares, reforçando a presença de denim, passando pelo verde, azul e rosa, com tingimentos manuais. «São peças que podem servir a homens e mulheres, através de ajustes e modelação», assegurou.

Diogo Miranda

Igualmente chegado de Paris, há duas semanas, Diogo Miranda propôs um verão de silhuetas inspiradas na fotografia de Irving Penn. «Quis dar um input às mulheres, seguras delas e do que querem», assumiu. Vendas e linhas femininas e etéreas, com drapeados compuseram a fotografia do designer.

Bloomers, uma nova geração de designers

A passerelle reservada a jovens criadores abriu, como é habitual, mais uma edição do certame. A primeira tarde de desfiles ficou marcada pela estreia de Rita Sá na plataforma, depois de ter participado nas duas últimas edições do Sangue Novo. «Achei que chegou uma fase que tinha que procurar uma plataforma que me desse formas de chegar ao meu objetivo: estabelecer a minha marca», justificou. Sobre a coleção, Rita Sá foi beber inspiração numa história e «na sensação de estarmos à espera de alguma coisa, aborrecidos, mas a nossa imaginação estar a trabalhar. Criei várias personagens, que vão passando por uma paragem de autocarro», revelou. Malhas técnicas da Tintex, um tecido impermeável da Lemar, para dar uma nova identidade às propostas, numa coleção onde domina o amarelo, referiu. «Procurei saber sobre objetos mais vintages que me remetessem para uma silhueta mais antiga e descobri as antigas Lays, que tinham este amarelo», acrescentou.

Maria Meira
Rita Sá

Seguiram-se as vencedoras do Concurso Bloom, Mara Flora e Maria Meira, que tinham estado na Altaroma, em junho deste ano. Mara Flora inspirou-se no período em que as pessoas acabam o trabalho para irem de férias, numa «luta» entre o ócio e a labuta. «Trago elementos que sugerem conforto e elementos presentes no uniforme de trabalho, blazer e casacos mais formais, com materiais como sarja e turco», destacou. A preto e branco apresentou-se Maria Meira, inspirada numa artista plástica, com a palavra Muto, que significa mudança em latim, começando com coordenados negros e terminando com o branco quase total, usando plissados, napa e elastano.

A fechar o Bloom estiveram Daniela Pereira e Joana Braga, que também estiveram presentes na Altaroma, A primeira inspirou-se em Pina Bausch, com malhas, cetins e denim a marcar a sua coleção, enquanto a segunda inspirou-se num «mood» de verão, com a ideia da procrastinação, baseada no seu próprio processo, traduzindo-se em peças inacabadas e meias golas, por exemplo.

Luís Sandão

Ainda na tarde do primeiro dia, apresentaram-se os dois finalistas do Concurso Novos Criadores PFN, Luís Sandão (ESAD) e João Sousa (Escola de Moda do Porto). Sandão partiu da união dos corpos e dos fenómenos dos gémeos siameses, fazendo os manequins desfilarem aos pares. Para o jovem designer, o Portugal Fashion, «além de ser uma experiência diferente, com todos os stresses e complicações, dá-nos traquejo e também exposição». Uma experiência igualmente importante para João Sousa. «Só caí em mim que estava no Bloom quando apareci no final. Um dos meus sonhos era apresentar em Portugal e consegui isso aos 18 anos. Quero crescer cada vez mais a partir daqui», confessou ao Portugal Têxtil.

O Bloom terminou com balanço positivo, reconheceu o coordenador Paulo Cravo, «Acho que ao longo das edições que têm vindo a acontecer, há um gradual melhoramento das coleções, a nível de qualidade, coerência e materiais», assegurou.

Jovens talentos na passerelle principal

David Catalán

O Portugal Fashion viu ainda subir à passerelle principal Nycole e Sara Maia, dois dos jovens talentos em evidência nas últimas edições nacionais do evento. Nycole recuou aos anos 70, com mistura do desporto com um ar retro e camisas de malha. «Tentei ir buscar detalhes dos Led Zeppelin, como cabedal e trazer esses detalhes para as partes de trás das camisas e malhas», adiantou. Sara Maia não quis prender-se a conceitos que «não me permitissem explorar outras coisas». Utilizou sarjas, malhas tricotadas e gabardines, com base em clássicos do vestuário masculino, para servir ambos os sexos da mesma forma, sem divisões.

Seguiu-se outra dupla, David Catalán e Inês Torcato, que têm sido «siameses», sempre juntos no Portugal Fashion. Catalán inspirou-se em Elvis, viajando aos anos 50, com looks desportivos, com cores pastel e sofisticação. Já Inês Torcato revelou a «Alma», baseada nas assimetrias, o que se refletiu «nas silhuetas justas e sobreposições de tons de pele em collants, criando uma segunda pele», referiu a designer.

Escolas também tiveram palco

Os estudantes das escolas de moda foram os primeiros a entrar em cena, nomeadamente do Modatex (Porto), Escola de Moda do Porto (EMP), da Cenatex (Guimarães), Esad (Matosinhos) e Esart (Castelo Branco).

O Modatex foi a primeira escola a apresentar-se, num projeto que conciliou coleções desde 2011, o ano em que começou a participar no Portugal Fashion, até 2017. O objetivo foi «mostrar o percurso que foi feito ao longo destes sete anos, para pensar o passado com o objetivo de projetar o futuro», explicou o responsável João Melo Costa.

EMP

Pelas restantes escolas, foram apresentados os trabalhos finais de finalistas escolhidos pelas instituições de ensino, como foi o caso de Diana Soares, designer da Esart, que se inspirou no Holocausto. «Gosto de temas que falem sobre a sociedade, que tenham algum impacto em mim. Fiquei muito feliz por ter sido convidada. Acho que é uma plataforma que dá muita visibilidade a quem aqui vem. É importante para todos nós, jovens criadores que querem dar a conhecer o seu trabalho», afirmou.

Uma opinião partilhada por Victor Duarte, jovem designer finalista da Esad. «Estarmos a apresentar uma coleção, com manequins profissionais, com todo o trabalho do cabelo, da maquilhagem… é uma plataforma muito importante para dar visibilidade ao nosso trabalho e nome», assumiu.

As mesmas perspetivas têm os docentes das escolas, como Jordann Santos, ex-bloomer e docente da EMP. «Sinto, por experiência própria e depois pelo que vejo nos meus alunos que vão crescendo, que o Bloom é uma importante plataforma, não só a nível da experiência do próprio evento, mas também ao nível da ligação a nível internacional e da visão com a indústria», sublinhou.

ESAD