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Portugal Fashion renovado

Foi no passado fim-de-semana, no CACE Cultura do Porto, que se realizou a 14ª edição do Portugal Fashion Nacional. Apesar da controvérsia criada durante esta edição, o Portugal Fashion é sem dúvida um evento de extrema importância para moda e indústria portuguesas.

 

Este foi um ano de transição para o Portugal Fashion, pelo que os desfiles tiveram uma estrutura completamente diferente. A aposta passa pela passagem dos desfiles colectivos para os individuais, e daí também a ausência dos criadores, que surgiam no primeiro dia do evento.

 

Nesta alteração de estrutura coube a Ana Sousa e à Lion of Porches, no primeiro dia, os desfiles individuais, e no segundo, – dia dos criadores -, à linha Miguel Vieira Jeans, Tenente Jeans e a Fátima Lopes.

 

E se esta nova estratégia foi um sucesso, o mesmo não se pode dizer em relação aos desfiles dos criadores, que para além da redução do número de estilistas presentes, alguns ficaram mesmo aquém das expectativas. Esta situação deve-se, segundo as informações avançadas pelo Jornal de Notícias, à nova lei de exclusividade criada pela ModaLisboa, que exigia que a participação num evento implicava a não participação no outro, ou quem insistisse em participar nos dois não pudesse apresentar a mesma colecção.  

Assim, Fátima Lopes que normalmente desfilava no ModaLisboa, optou pelo Portugal Fashion, enquanto Nuno Baltazar fez exactamente a escolha contrária. E se para Miguel Vieira e Tenente correu bem, tendo optado pelas suas linhas jeans e Katty Xiomara apresentado a sua linha de fatos de banho Xiomar, para outros o resultado foi mais que mau. Esse foi o caso de Maria Gambina que depois de ter apresentado em Lisboa uma colecção sólida e muito criativa, apresenta no Porto algumas t-shirts apenas, nem sequer se dignando a entrar na pasarela para agradecer os aplausos do público.  

Miguel Vieira impróprio para cardíacos  

Colecções coloridas e atraentes fizeram esquecer a chuva que teimava em cair lá fora. Uma promessa de uma estação quente com um colorido e uma leveza que faziam desejar passar já para o próximo Verão.

 

O primeiro dia de desfiles foi preenchido pela indústria, onde Ana Sousa desfilou individualmente levando-nos ao mundo da fantasia e do sonho. Coordenados que revelam uma mulher forte, dinâmica e que gosta de marcar a diferença. No desfile colectivo a Concreto apareceu com a desconhecida Susana Santos, que substitui Osvaldo Martins. Uma colecção inspirada na infância, com formas exageradas e folhos, prendeu a atenção. A Kispo by Katty Xiomara seguiu na sua linha sportswear, onde as riscas em grandes e pequenas dimensões se destacam. Um dos desfiles mais esperados foi o da Lamia, com Paulo Cravo (da ex-dupla Cravo/Baltazar), que promete renovar a imagem da marca, desenhando uma colecção feminina e comercial. Na parte da indústria, de referir ainda a Jotex, by Luís Buchinho, que numa clara mistura de influências juntou elementos de África e México, resultando um silhueta feminina e elegante com cores fortes retiradas das especiarias. A primeira noite fechou com a Lion of Porches, que contou com a primeira ovação desta edição. Com uma gama de cores renovada, a Lion, by Júlio Torcato apresentou uma colecção de estilo neoclássico que coordenadas com peças vincadamente desportivas faziam descobrir novas silhuetas. Um ambiente descontraído e animado aguçou a curiosidade para a noite dos criadores.

 

O segundo e último dia do Portugal Fashion, abriu com o desfile dos Novos Talentos do Programa Aliança, com a Decénio by Joana Sousa a sobressair, apresentando uma colecção segura onde a referência obrigatória passou pelo tailleur dos anos 50. Segue-se o desfile mais aplaudido da noite. Miguel Vieira, especialista em criar impacto fez os corações parar. Um desfile dinâmico onde foi realizada a apresentação mundial do novo Motorolla, ginástica acrobática e até conversas telefónicas em directo. Um desfile pouco usual, impróprio para cardíacos com tanta sensualidade, e que marcou a diferença de um criador que está para ficar. Miguel Vieira optou pelo lado chic do denim, onde os eternos básicos jeans e t-shirt se desdobram em peças para todas as ocasiões, com estampados e efeitos nas próprias malhas. A apresentar também a sua linha de jeans esteve José António Tenente, que optou por uma colecção multicolor trabalhando os cortes e os detalhes numa versão descontraída. Na apresentação colectiva Júlio Torcato e Luís Buchinho sobressaíram. Torcato apresentou uma colecção que remetia para o universo Macintosh, com básicos transformados e trabalhados com materiais sofisticados. O algodão foi o material de eleição. Já Luís Buchinho inspirou-se na praia com silhuetas desregradas e personalizadas. A honra de encerrar esta edição do Portugal Fashion coube a Fátima Lopes. Como é já habitual Fátima Lopes apresentou um desfile pouco convencional e escaldante, até. Pertenceu à estilista a última ovação da noite, cuja criatividade e ousadia não deixa indiferente quem vê. Vestidos longos, curtos, transparentes, brilhantes e sempre com cortes geométricos são a cara da criadora.

 

Os comentários  

Durante os dois dias do Portugal Fashion foi impossível deixar de ouvir e comentar os desfiles e colecções que se vão vendo. Desde o público à imprensa todos têm uma opinião e um estilista ou desfile preferido.  

E apesar de tudo as opiniões divergem. Fátima Lopes, talvez pela sua ousadia é normalmente amada ou odiada. Já Miguel Vieira gera menos conflitos de opinião e agrada na generalidade. A Kispo conquistou também alguns votos, apesar do maior destaque ir normalmente para Miguel Vieira, Katty Xiomara e Luís Buchinho, especialmente no que diz respeito à imprensa estrangeira.

 

No entanto, é de destacar a qualidade que o design em Portugal vai tendo, e segundo Sílvia Riera, da revista espanhola Pinker Moda, «é de destacar a qualidade do design que se faz em Portugal. Os espanhóis não conhecem o Made in Portugal, não sabem que há moda e nem sequer que a moda é interessante…». Aqui fica o recado.