Início Destaques

Portugal mais digital

À semelhança do resto do mundo, o negócio no canal online está a crescer em Portugal. No entanto, tanto do lado do consumidor como, sobretudo, do lado das empresas, há ainda muita margem de progressão, dentro e fora das fronteiras nacionais.

De acordo com o estudo Economia Digital em Portugal, da ACEPI – Associação da Economia Digital em Portugal, apresentado em outubro de 2018, as organizações nacionais começaram a incorporar a transformação digital na sua visão, com um quarto das empresas a indicar ter iniciativas de transformação digital alinhadas em todo ou em parte com a estratégia de negócio.

A presença online, que pode traduzir-se numa simples página no Facebook, também tem aumentado, mas, afirmou ao Jornal Têxtil Alexandre Nilo Fonseca, à margem da Conferência e Entrega de Prémios Norte Digital, «60% das empresas portuguesas nem sequer têm presença na internet. Nos dias de hoje é quase como se não existissem». No comércio eletrónico, o número é ainda mais baixo, revela o presidente da ACEPI, apontando para apenas 10%. Contudo, sublinhou, «temos várias empresas que estão agora a dar os primeiros passos no digital e que têm vindo a perceber que é impossível nos dias de hoje não tirar partido da oportunidade que é conquistar novos mercados, seja o nacional ou internacionais».

Em 2017, o valor do comércio eletrónico B2C ultrapassou os 4,6 mil milhões de euros em Portugal, o que representou um crescimento de 11,3% face a 2016. Este valor multiplica-se várias vezes no caso do comércio eletrónico B2B, que superou os 70 mil milhões de euros (+11,1%).

Alexandre Nilo Fonseca

Segundo a ACEPI, cerca de 18% das vendas já têm como destino os mercados externos, mas o potencial de crescimento é enorme. «Uma marca hoje pode estar em qualquer parte do mundo, bastando para isso ter um bom site e uma boa aplicação», acredita o presidente da ACEPI, que está a promover o projeto Norte Digital, que apoia as PME do Norte de Portugal na construção de uma estratégia digital de sucesso para competirem no mercado global.

E, tal como acontece no comércio físico, também no mundo virtual o “made in Portugal” começa a ser uma mais-valia. «Hoje ter um domínio “.pt” é valioso, se calhar mais do que ter um “.com”. As empresas normalmente queriam ter domínios “.com” para parecerem muito internacionais. Hoje estamos na situação completamente inversa: ser português, ter uma empresa em Portugal, ser uma marca de origem portuguesa, normalmente está ligado a qualidade, a algo que é feito com atenção ou dedicação, com craftsmanship. Isso é algo que as marcas portuguesas devem aproveitar tanto quanto possível», considera Alexandre Nilo Fonseca.

Online conquista consumidores lusos

Do lado dos consumidores, expõe o Observador Cetelem 2019, 38% dos portugueses já fazem compras online, o que mostra um crescimento de 19% em comparação com 2018. No entanto, indica o estudo, apenas 32% confirma ter realizado compras online nos 12 meses entre março de 2018 e fevereiro de 2019, com 7% a afirmarem que a última compra que fizeram foi há mais de um ano.

«Ainda assim, e apesar da se assistir à diminuição do número de portugueses que não fazem compras online (62% este ano versus 68% em 2018), o país continua longe da média europeia, que, de acordo com os dados divulgados pelo INE/ Eurostat se situa acima dos 50%», pode ler-se no estudo.

«O comércio online está a crescer em Portugal e a conquistar cada vez mais consumidores. Verificamo-lo no aumento do número de consumidores e nos montantes que gastam nas compras online. Não se estranha a tendência, sobretudo se tivermos em consideração o aumento da oferta, a melhoria dos serviços, a simplificação das plataformas, a promoção e o investimento que tem vindo a ser feito. No entanto, e apesar destes “bons ventos”, diferentes indicadores mostram que a taxa de penetração do comércio online em Portugal está ainda aquém do desejado: mais de 20 pontos percentuais abaixo da média europeia», indica, no estudo, Paul Milcent, CEO do BNP Paribas Personal Finance Portugal.

Em termos regionais, o Norte tem menos penetração das compras online (33%) face ao Sul (39%) e ao Centro (41%). Já quanto ao género, são os homens portugueses que mais compram online (54%), segundo o Observador Cetelem 2019, e na idade, são os adultos jovens – entre os 25 e os 34 anos (33%) e os 35 e os 44 anos (35%) – os que mais recorrem à internet para efetuar compras, sendo que entre os que têm mais de 55 anos, apenas 1% adquire produtos online.

Em média, cada consumidor faz compras online cinco vezes por ano, um valor que se manteve inalterado face a 2018, tendo gasto no último ano cerca de 606 euros – o que representa um incremento face aos 543 euros gastos em média em 2018.

No que diz respeito à plataforma utilizada, a maioria dos consumidores compra em sites de marcas/lojas (79%, um ligeiro decréscimo face aos 81% de 2018) e cerca de 60% dos inquiridos assegura fazer as suas aquisições em marketplaces, «que têm vindo a ganhar adeptos, o que poderá ser justificado pela oferta diversificada», defende o estudo.

Os inquiridos apontam como grande vantagem para as compras online a comodidade de pesquisar em diferentes lojas sem sair de casa e, como tal, metade dos portugueses já fez pesquisas online antes de comprar. Embora com menos preponderância (69% face a 83% no estudo anterior), os preços baixos continuam a ser o principal fator determinante para que os consumidores continuem a fazer compras online no futuro.

Para o próximo ano, 34% revelaram que tencionam fazer compras online, um crescimento de 6% face ao ano anterior. A moda ocupa o segundo lugar nas intenções de compra, com 33%, logo atrás da categoria lazer/cultura/bilhetes.

No Observatório EY: Portugal Digital, Bruno Padinha, advisory services e digital leader na Ernst & Young, destaca, contudo, que «os portugueses são em geral exigentes com as experiências online, sinalizando a importância de estratégias digitais focadas no cliente. Com 73% a usar regularmente dispositivos móveis para a pesquisa de produtos ou serviços, é essencial para as empresas assegurar uma experiência de cliente consistente, que permita um acesso fácil à informação e que seja fácil de utilizar e com um nível de interatividade diferenciador da concorrência».