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Portugal visto de fora – Parte 2

O exemplo português em termos de vendas ao exterior surpreendeu muitos economistas, sobretudo tendo em conta a situação económica, nomeadamente em termos de financiamento, que o país tem vivido (ver Portugal visto de fora – Parte 1). Muitos questionam, por isso, se não é demasiado bom para ser verdade. Pedro Galhardas, partner da consultora de estratégia mundial Roland Berger, que presta serviços aos exportadores portugueses, afirma que as empresas percebem agora que o mercado interno é «demasiado pequeno e já não podem contar com a recuperação económica como algo que lhes vá permitir crescer». O valor das exportações portuguesas aumentou no ano passado para 41% do PIB, em comparação com 28% no início da crise mundial em 2008, ultrapassando o crescimento da vizinha Espanha e da maior parte do resto da Europa. O governo quer aumentar essa quota para 52%, o nível conseguido pelo motor das exportações europeias, a Alemanha. O Ministro da Economia, António Pires de Lima, considera que as reformas já impostas sob o programa de resgate, juntamente com os cortes nos impostos às empresas, que serão feitos gradualmente a partir deste ano, irão ajudar a atingir o objetivo. Também cita medidas nos «custos de contexto» – licenciamentos e outras despesas burocráticas que estão ainda a travar os negócios em Portugal. «As reformas estruturais dos últimos anos irão dar frutos a médio e longo prazo, reduzindo as barreiras ao investimento e os custos de contexto, por isso no final da década as exportações podem ultrapassar os 52% do PIB», afirma Pires de Lima. Outros, contudo, questionam até quando as exportações vão impulsionar o crescimento económico. Ansgar Belke, um economista sediado na Alemanha que estudou o caso de Portugal, prevê mais um acréscimo das exportações devido à melhoria da confiança interna e da Zona Euro em geral. Mas Belke, que é diretor do Instituto de Gestão e Economia na Universidade de Duisberg-Essen, não está seguro que isso se vá manter assim que as empresas tenham usado todo seu espaço livre em termos produtivos e estiverem no limite das suas capacidades. «Vai ser o momento da verdade para as exportações portuguesas», sustenta Belke, lembrando que as empresas também fizeram avanços nas exportações durante as crises dos anos 70 e 80, apenas para depois regressarem ao conforto do mercado interno assim que a economia recuperou. A este respeito, a produtora de vestuário em malha Inarbel não é um caso típico. A sua fábrica em Marco de Canaveses, a algumas dezenas de quilómetros do Porto, tem trabalhado na sua capacidade total nos últimos dois anos e ainda assim a empresa tem conseguido aumentar o valor das suas vendas em 10%. Conseguiu isso ao subir de gama, vendendo produtos com maior valor, sobretudo com destino a novos mercados, como o México. Dentro das instalações modernas da empresa, que dominam a paisagem rodeada por campos de vinha, as tricotadeiras automáticas facilmente trocam de materiais, do acrílico à caxemira, servindo as necessidades imediatas dos clientes e contratos específicos. «É preciso ser versátil e procurar constantemente novos negócios de exportação para nos mantermos vivos», resume o administrador da Inarbel, José Armindo Ferraz. As exportações da Inarbel aumentaram para 90% da produção em comparação com 60% a 65% nos últimos dois anos e a empresa está preparada para expandir a sua capacidade – desde que o financiamento bancário acessível se torne novamente disponível após a crise da dívida. «Se a situação com os empréstimos começar a melhorar efetivamente com a retoma da economia, isso irá aumentar dramaticamente as nossas possibilidades de expandir a capacidade de produção para as exportações», refere José Armindo. O designer de calçado Luís Onofre já atingiu essa fase. Revela que os bancos já estão a oferecer empréstimos aos principais exportadores de calçado, o que se refletiu num aumento de quase 50% das vendas do sector para fora da UE no ano passado. Onofre espera um maior crescimento das vendas da sua empresa este ano, depois de uma pequena quebra em 2013, e planeia investir na distribuição no estrangeiro, incluindo lojas em nome próprio, com a ajuda de investidores estrangeiros. A empresa exporta praticamente toda a sua produção para França, China, Rússia e África. Estes mercados incluem Angola, que está a aproveitar um boom no petróleo, e Moçambique, assim como África do Sul, Gana e Nigéria. Os ricos e as novas classes médias destes países encheram-se de produtos, incluindo de Portugal, durante um boom dos mercados emergentes nos últimos anos. Mas a Argentina e a Turquia estão agora a sofrer crises monetárias numa liquidação que se arrisca a espalhar a economias semelhantes, levantando novas incertezas aos exportadores para os países emergentes. Na terceira e última parte deste artigo são destacados os ganhos de competitividade portugueses e a estratégia de inovação que têm permitido que as empresas se diferenciem no mercado internacional.