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Pré-recessão assombra vestuário – Parte 3

As vendas de vestuário continuam em queda nos principais mercados mundiais, relativamente ao registado no segundo semestre de 2008, período que já não foi nada auspicioso. Face a este cenário, muitos países exportadores estão a exagerar os seus prejuízos, procurando assim conseguir benefícios para a sua indústria (Pré-recessão assombra vestuário – Parte 2). Na realidade, embora o valor das exportações seja inferior, muitos países estão agora a exportar um volume superior de vestuário, segundo Mike Flanagan, director-executivo da Clothesource Sourcing Intelligence. «é a economia» Fingir que o problema é a economia mundial também se adapta aos que possuem pior desempenho. Nas Honduras, Guillermo Matamoros, director da Associação dos Fabricantes de Vestuário (AHM), afirmou que «por causa da crise económica mundial, esperamos que, até ao final de 2009, as exportações caiam 10%». Complicado, na medida em que as exportações para os EUA caíram 34% em Agosto e o melhor desempenho do país para o corrente ano foi uma queda de 16%. As Honduras começaram o ano com um desempenho melhor do que outros países da América Central e agora está bastante pior. Um dos motivos foi o golpe de Estado em meados deste ano, o que preocupou os compradores, provocou o encerramento ocasional das fronteiras, originou prejuízos na produção e ocasionalmente fechou o acesso ao seu porto de Puerto Cortes, que é crucial para o vestuário e para as matérias-primas que entram e saem de toda a América Central. Os problemas nas Honduras prejudicam toda a produção de vestuário da região. A AHM apoiou o golpe, acreditando que o presidente deposto, Zelaya, era mau para o negócio, pois instituiu salários mínimos mais elevados na indústria – embora tenha dispensado as fábricas de vestuário. No entanto, as empresas que compram nas Honduras acreditam que os golpes e as rupturas são ainda piores do que salários mais elevados. A AHM está a tentar culpar o clima económico pelo desempenho catastrófico das Honduras nos últimos seis meses. Mas os problemas das Honduras não se resumem todos à instabilidade política gerada pelo golpe, pois muitos deles são originados no próprio país, razão pela qual perdeu quota de mercado tão acentuadamente. Admitir os problemas Alguns países estão a admitir os seus problemas. Na Tailândia, existe «uma grave escassez de trabalhadores qualificados… na medida em que a maioria dos trabalhadores demitidos não estão interessados em regressar ao seu antigo emprego», após a recessão ter exposto os seus riscos, afirma Promote Vittayasook, director-geral do Departamento de Promoção Industrial do país. Vittayasook acredita que as indústrias de produtos têxteis e curtumes necessitam de 20.000 a 30.000 trabalhadores adicionais para cumprir as ordens de encomenda até ao final do ano. O responsável tailandês diz que não tem uma ideia clara sobre de onde eles virão. Neste aspecto, a Malásia importa trabalhadores do Vietname. Ao todo, cerca de 100.000 trabalhadores vietnamitas são susceptíveis de se deslocalizarem sob contrato para sectores industriais como têxteis e vestuário. Mão-de-obra a contrato A questão da mão-de-obra traz à superfície uma outra questão que recentemente desapareceu em silêncio: as condições laborais. O Departamento do Trabalho dos EUA obriga a comunicar os casos de trabalho infantil ou trabalho forçado na fabricação de produtos importados para o mercado norte-americano, com origem em países com baixos rendimentos. No dia 10 de Setembro, identificou mais casos de trabalho forçado na fabricação de vestuário do que de trabalho infantil. Isto parece estranho para muitas pessoas, uma vez que – não considerando o trabalho em algumas prisões na China – não existem casos onde os trabalhadores sejam forçados a entrar em fábricas todos os dias – aliás, o problema habitual neste sector são as longas filas de pessoas desesperadas por um emprego. No entanto, o que o ministério norte-americano entende por “trabalho forçado” é o sistema de contrato: o sistema em que os trabalhadores são recrutados no estrangeiro, entregam os seus passaportes e rejeitam todos os seus direitos civis no país para onde foram importados. O departamento tem descoberto que este sistema é comum em fábricas na Malásia, Tailândia e Jordânia, que recorrem a trabalhadores migrantes temporariamente residentes. À medida que os retalhistas ocidentais se tornam mais exigentes em matéria de preços e a escassez de trabalhadores se agrava, existe um risco real de que as fábricas em países como a Malásia e a Tailândia venham apoiar-se cada vez mais nos trabalhadores migrantes recrutados através do sistema de contrato. Até agora, isto é algo que tem preocupado poucas pessoas, excepto quando houve exemplos extraordinários de abuso. Mas o destaque da prática pelo departamento norte-americano, juntamente com diversos projectos de lei actualmente propostos, vai provavelmente fazer com que o trabalho servil seja, no mínimo, controverso e até possivelmente ilegal. Ah, mas pelo menos a inflação nos países fornecedores será algo que podemos esquecer? Infelizmente não. A inflação está de regresso à Polónia e alguns analistas pensam que também já estará de regresso ao Vietname.