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«Precisamos de estabilidade»

A escalada dos preços e os atrasos na chegada de matérias-primas são alguns dos desafios que a A. Sampaio está a tentar ultrapassar, ao mesmo tempo que promove investimentos em energias alternativas, capacidade produtiva e inovação, segundo Miguel e João Mendes, 3.ª geração da empresa familiar criada há 75 anos.

Miguel e João Mendes

Na presença na mais recente edição da Techtextil, a A. Sampaio & Filhos apresentou-se com um conjunto de malhas que aliam diferentes funcionalidades, desde o retardante de chama à proteção anti-estática ou às intempéries, mas mantendo um lado estético e de conforto apurado para o utilizador. Um portefólio de novidades que se mantém fiel ao rumo da especialista em tricotagem nos últimos anos, onde constam investimentos em capacidade produtiva, na inovação e na sustentabilidade, nomeadamente ao nível da energia, que deverão permitir que a A. Sampaio & Filhos encerre o ano em linha com 2021, apesar da falta de estabilidade que se vive no mercado, como revelam, ao Portugal Têxtil, os irmãos Miguel e João Mendes, a terceira geração ao leme da empresa familiar fundada em 1947, onde assumem hoje as funções de diretor comercial e administrador, respetivamente.

A A. Sampaio regressou à Techtextil, uma feira que vive ao ritmo da inovação. Que novidades apresentaram?

João Mendes – Um dos destaques foi uma malha para proteção pessoal industrial. Combina a cor laranja de alta visibilidade com o retardante de chama, que é algo muito difícil de obter. Tem propriedades anti-estáticas, tem proteção contra os efeitos térmicos do arco elétrico e é lavável a 60 ºC. As empresas de renting de vestuário para a indústria querem poder fornecer roupa de proteção à chama, portanto, há interesse. É um projeto no qual trabalhámos nos últimos dois ou três anos para termos malhas de proteção anti-chama, anti-estática, etc., mas que sejam certificadas sobre ciclos de lavagem industrial. Apresentámos também uma malha com uma mistura de lã com fibras ignífugas, que está certificada para retardante de chama, tem propriedades electroestáticas e é lavável a 60 ºC na máquina, está certificada para 25 ciclos de lavagem. E ainda um softshell, uma malha de três camadas com membrana que também está certificada para alta visibilidade, que é retardante de chama, é anti-estática e também tem proteção contra os efeitos térmicos do arco elétrico. É um produto muito procurado para as plataformas petrolíferas porque tem proteção à intempérie. Conseguimos aqui aliar a proteção ao conforto de uma peça ergonómica, com alguma elasticidade.

A empresa continua a fazer grandes investimentos em inovação?

João Mendes Continuamos sim, numa lógica de projetos. Queremos alcançar ou ser capazes de oferecer um determinado produto que ainda não existe para a indústria x. Vamos desenvolver um produto unicórnio. Existe agora uma nova tecnologia que poderá eventualmente ser incorporada em têxteis e que nos vai conferir determinada propriedade. Como conseguimos agora com os produtos atuais? Então, vamos tentar. Mas isto demora tempo e depois temos de estudar como é reprodutível, como é escalável… Tudo isso implica recursos e tempo.

Que outros investimentos têm sido realizados?

João MendesTemos investido em energias alternativas e vamos continuar a investir, para termos mais autonomia energética. Conto que, possivelmente dentro de dois anos, possamos ser 45% a 50% autónomos. E tudo o resto que compramos também é energia renovável. As novas viaturas de serviço são elétricas, para carga ainda não dá. E comprámos máquinas de produção novas, teares circulares, desde jogos muito finos até para outro tipo de sectores onde achámos que devíamos reforçar a capacidade, porque temos mais encomendas. Também estamos a investir em mais equipamento laboratorial e em upgrades do nosso software ERP.

Entre uma pandemia de covid e uma guerra na Europa, o que é premente para a A. Sampaio na conjuntura atual?

João Mendes Precisamos de estabilidade. Não há estabilidade de preços, os custos energéticos estão muito altos.

A área do vestuário para a defesa deverá ter desenvolvimentos nos próximos tempos?

João Mendes – Sim, é natural que os Estados reforcem os orçamentos da defesa. Se estamos a falar do contexto, é evidente, mas esta é uma opinião mais pessoal do que profissional – eu, como europeu, suponho que os países europeus tenham de se preparar minimamente para a defesa. É de supor que os orçamentos de defesa subam.

Essa era uma área em que a A. Sampaio estava já envolvida?

João Mendes – Nós temos o conhecimento técnico para entrar. Agora, é verdade que cada país tem, normalmente, as empresas que concorrem aos concursos. Nós estamos nestas feiras [como a Techtextil] também para sermos contactados por essas empresas, para podermos mostrar os nossos produtos e perceberem que podemos ser um fornecedor das empresas que concorrem aos concursos. A nossa presença na Techtextil também é importante para estabelecermos essas dinâmicas.

Algumas dessas empresas que concorrem a concursos são vossas clientes?

João Mendes – Sim, em vários países, maioritariamente na Europa. Mas temos até noutros continentes. Por exemplo, na Austrália, temos forças policiais que usam materiais nossos. Agora, se um dia vai passar para as forças militares não sei, porque depende um bocado do que o nosso cliente quiser fazer e das restrições legais.

Quanto exporta a A. Sampaio diretamente?

João MendesDe grosso modo, 50%. Os outros 50% são indiretamente, acredito que quase nada tem como destino final Portugal.

Miguel Mendes O que vendemos a Portugal já está determinado por marcas.

Em que mercados gostariam de ver a empresa entrar?

João MendesPara já, tratar bem os que temos. O mercado europeu já é grande o suficiente, ainda temos muito para crescer. Nos vários mercados onde estamos, na moda ou no desporto, por exemplo, temos conseguido chegar às marcas às quais nos temos proposto chegar. Portanto, acho que temos de continuar a servir bem e crescer bem com os que temos.

Miguel MendesPensar em ir para outras geografias, de maneira mais consistente, com o nível de atividade que temos atualmente, não faz muito sentido porque não vamos conseguir dar uma resposta adequada.

João MendesPreferimos ir com os recursos adequados para dar um bom serviço desde o início, em vez de andar aí a atirar para todos os lados. Isso não funciona.

Como correu o negócio nos últimos três anos? 

João Mendes – Não vou dizer que foi fácil, mas, no final, conclui-se que correu bem.

Miguel Mendes Em 2019 já estávamos um bocadinho melhor que antes.

João Mendes – E 2020 foi em linha com 2019. 2021 já teve um crescimento maior, foram mais de 28 milhões de euros de faturação.

Quais são as expectativas para o corrente ano?

João Mendes – Está a ser um ano difícil de gerir a nível de recursos de pessoal, de matérias-primas, de custos, etc., mas existem encomendas. O problema é entregá-las a tempo e horas e com preços que os clientes podem aceitar. A gestão disso é que é dificil.

Têm registado atrasos nas encomendas por causa da falta de matéria-prima e de recursos humanos?

João Mendes Temos tido a obrigação de gerir os nossos recursos de uma forma bastante severa. Não há nenhum ano em que não tenha de se atrasar alguma coisa. É impossível. Para isso, teríamos de trabalhar só com artigos fixos. Se fosse em stock service não falhávamos. O nosso problema não é esse. Neste momento, os prazos são longos por um conjunto de fatores. As matérias-primas demoram muito tempo porque a cadeia está muito ocupada. O prazo de entrega das encomendas aumentou – se disser para o dobro, não estou a mentir. Nós não temos menos capacidade de produção, até temos mais. Podemos é ter de gerir um covid em que, de repente, faltam 10 ou 15 pessoas que não estamos a contar substituir, por exemplo. Uma encomenda que antes demorava quatro semanas, agora vai demorar umas sete. Uma que era seis, pode ser 10 ou 12 semanas, depende. Há matéria-prima que temos em stock ou que é mais fácil de repor, há outras que vêm num contentor que deveria demorar seis semanas e demorou 15. Não é problema da capacidade produtiva, porque aí, na verdade, fomos reforçando. Comprámos mais máquinas ao longo destes dois, três anos.