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Première Vision: inovações convencem, data nem tanto

Na mais recente edição da feira parisiense, a comitiva lusa destacou-se com uma oferta inovadora que abarcou das fibras e processos sustentáveis à utilização de inteligência artificial, passando até pelo lançamento de novas áreas de negócio. A antecipação da Première Vision para julho não foi, contudo, consensual.

Luís Guimarães

A Première Vision Paris, que abrange toda a fileira têxtil, dos fios à confeção, passando pelos tecidos, acessórios e design têxtil, realizou-se de 5 a 7 de julho e, do lado dos mais de 60 expositores portugueses, novidades não faltaram, desde as parcerias entre empresas, como a da Calvelex com a Somelos, traduzida num casaco, às apostas na sustentabilidade, como as propostas da Tintex – com poliamida Amni Soul Eco, que permite uma decomposição mais rápida do vestuário no seu fim de vida do que a poliamida convencional – da RDD, que mostrou produtos com processos de tingimento mais amigos do ambiente, como o Colorifix, que usa microrganismos para produzir pigmentos e fixá-los aos têxteis, e a Recycrom, uma tecnologia que tinge com pó colorido feito a 100% com restos de têxteis pulverizados, ou as da Tearfil. «Temos um fio que fazemos com marca própria com a reciclagem da nossa própria empresa», revelou Maria de Belém Machado, CEO da empresa, que apostou também «em produtos de valor acrescentado – as caxemiras, os linhos, os liocéis –, mas sempre muito na linha dos reciclados».

César Araújo, Gonçalo Santos, Eduardo Augusto, João Neves, Paulo Melo e Mário Jorge Machado

As fibras inovadoras fizeram igualmente parte da oferta das empresas nacionais na feira, nomeadamente nas propostas da TMG. «Temos apostado muito na seleção de novas matérias-primas, em trabalhar muito com parceiros nacionais, com indústrias que estão perto de nós e que conseguem, de forma mais rápida, suprir as necessidades, e temos algumas fibras interessantes: a parte dos reciclados está a ser uma nova adição, em maior escala, principalmente os fios totalmente reciclados, a partir de algodão, de poliéster, etc.; e temos também a incorporação de novas fibras de base natural, como a banana e o ananás, que começámos a trabalhar nesta estação e tem tido um feedback muito positivo de quem tem visto a coleção», revelou Pedro Silva, diretor de I&D da TMG.

Paulo Loureiro

Regressada uma década depois à Première Vision, a Polopiqué mostrou na feira «misturas que fazemos na nossa fiação e que dificilmente são copiáveis, como algodão/liocel/viscose/poliamida e uma flanela de viscose/linho», destacou o diretor comercial, Paulo Loureiro. Além das fibras, a empresa, que recentemente entrou nos têxteis-lar, mostrou ainda uma vasta gama de acabamentos, desde a utilização de corantes naturais a revestimentos com membrana. «Temos feito uma aposta não só na sustentabilidade, mas que seja diferenciadora», acrescentou.

Foi essa diferença e também diversidade de produto, de resto, que a empresa procurou consolidar nestes anos de ausência do salão de tecidos. «A Polopiqué cresceu e diversificou-se, e nada melhor do que as feiras para mostrar ao mundo do que agora é capaz», justificou Luís Guimarães, presidente da empresa.

Funcionalidade, metaverso e novos negócios

João Abreu

Já a funcionalidade esteve em destaque na oferta tanto de produtores de tecidos, como de vestuário. A Crispim Abreu «introduziu um bocadinho daquilo que já se vinha a fazer para o activewear na moda», aliando as fibras mais sustentáveis e naturais «a tecnologia e funcionalidade», indicou o diretor-geral, João Abreu.

A montante, a TMR mostrou «uma linha mais técnica» e está mesmo a fazer «investimento numa linha técnica, com colados e laser, uma máquina de corte single layer», sendo que o desporto representou já 20% das vendas da empresa de confeção no ano passado. «É por aí que queremos seguir. E também moda com

Miguel Máximo

desporto», sublinhou Miguel Máximo, administrador da TMR, durante a visita do Secretário de Estado da Economia, João Neves.

Incontornável é igualmente o papel que o mundo digital está a ter no negócio, como provam as incursões no metaverso e na inteligência artificial de empresas como a Trimalhas ou a Riopele, mas também da Adalberto. «Ao aproveitar o tema metaverso, quisemos impactar todos os nossos clientes, e visitantes da feira, com uma coleção totalmente desenvolvida através de inteligência artificial e machine learning», afirmou Joana Oliveira, diretora de marketing e comunicação da Adalberto. «Há algum tempo que temos vindo a desenvolver algoritmos matemáticos de inteligência artificial e machine learning em projetos internos da empresa. O que tentamos criar aqui foi um sistema para meter no nosso pipeline de produção para dar um suporte extra de criatividade aos nossos designers. Por isso temos aqui uma coleção em que trabalhámos de três formas: de forma totalmente autónoma, em que os algoritmos dão um output de imagens; um trabalho de parceria entre o designer e os algoritmos, em que os designers fornecem palavras-chave, cores e imagens, por exemplo, e depois os algoritmos trabalham esses inputs e criam imagens novas; e em forma de machine learning, em que são fornecidas imagens e são solicitadas imagens parecidas», explicou Hugo Miranda, diretor de inovação da empresa.

Hugo Miranda e Joana Oliveira

Houve ainda quem se tenha aventurado em novas áreas, como é o caso da Paulo de Oliveira, que lançou a primeira coleção de malhas. «Esta área já estava a ser estudada há algum tempo, porque percebemos que a Paulo de Oliveira poderia fazer um complemento à sua linha de produtos, por isso, porque não ter malhas Paulo de Oliveira quando temos fiação e temos acabamentos e isso pode diferenciar o produto», revelou Rita Ribeiro, diretora do negócio da área de malhas da empresa. «Não é para competir com o mundo algodoeiro, de todo, mas é um complemento, que acaba por ser uma nova área de negócio, às lãs que são normalmente conhecidas em tecido», acrescentou.

Rita Ribeiro

Data dececiona

Maria de Belém Machado

Apesar da expectativa de que julho seria uma altura mais indicada para a realização da feira, uma ideia apoiada, e até exigida, pelos expositores, a verdade é que a antecipação da segunda edição do ano não convenceu.

«Teoricamente, está bem pensada ser em julho, agora, não sei se na prática tivemos os resultados de que estávamos à espera. Não ficou dentro das expectativas que tínhamos, ficou abaixo. Será culpa da data? Será culpa das greves dos transportes públicos? Não sei. A amostra é pequena – foi a primeira vez que aconteceu – para podermos dizer que foi a data», considera Maria de Belém Machado.

«Obrigou-nos a correr mais, porque cortou-nos o tempo que tínhamos para desenvolvimento», apontou Helder Rosendo, diretor de negócio da TMG. «Noto menos gente na feira, não sei se tem a ver com a mudança de data ou não, se tem a ver com a fraca presença de italianos na feira, e se isto não vai transformar a Milano Unica [que começou hoje, 12 de julho] numa feira mais interessante e com mais dimensão», acrescentou.

Helder Rosendo e Pedro Silva

José Alexandre Oliveira, presidente da Riopele e membro do comité da Première Vision, acredita que a antecipação foi um erro. «A culpa foi nossa. Nós, industriais, é que

José Alexandre Oliveira

andamos a pedir para que a feira fosse antecipada. Eles puseram em julho e agora chegou-se à conclusão que não funciona», assumiu.

«Tínhamos a ideia de que ser em julho ia antecipar o trabalho, a entrega das modelagens, etc. Mas chegamos à conclusão que toda a gente chega ao dia 15 de julho e desaparece, vai de férias até ao final de agosto. Em setembro vou fazer outra feira em Paris e vou fazer uma feira Riopele exclusiva para os clientes mais importantes, porque a maior parte das pessoas não está a ver nem metade da minha coleção, porque não consegui trazer tudo», indicou.

Ainda assim, alguns expositores tiveram boas experiências, como a estreante Spring Fashion & Design, presente na área do Manufacturing. «Já estávamos na plataforma digital,

Alexandra Carneiro

tínhamos algumas marcações, mas realmente não estávamos à espera de tanta afluência. Isto da pandemia mexeu muito e as pessoas querem o contacto pessoal», referiu a CEO Alexandra Carneiro.

«É aqui que temos contacto direto com os clientes», assinalou Carla Silva, diretora comercial da Matias & Araújo. «Os nossos clientes habituais ficaram satisfeitos [com a presença na Première Vision], é diferente ver aqui a coleção», resumiu.

De acordo com os dados da organização, a versão física da Première Vision recebeu 23.377 visitantes, o que representa um aumento de 37% em comparação com setembro de 2021 e de 10% face à primeira edição do ano, em fevereiro.

«Estamos satisfeitos por termos podido finalmente responder à exigência do mercado com uma nova agenda que foi antecipada dois meses. A criatividade da nossa oferta, a energia dos nossos visitantes, o regresso de mercados distantes, o desafio da responsabilidade ecológica e o sucesso dos novos serviços que oferecemos são sinais fortes e encorajadores de que somos capazes de manter a nossa atividade apesar do contexto atual», acredita o diretor-geral da Première Vision, Gilles Lasbordes.