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Première Vision supera expectativas nacionais

Depois de três dias em que os expositores portugueses receberam, no geral, mais contactos do que esperavam, a feira parisiense de fios, tecidos, couro, acessórios e confeção encerrou as portas envolta em otimismo e confirmou as novas datas para 2022, com a antecipação para julho da segunda edição do ano.

Manuela Araújo (Lemar)

«Melhor do que o esperado» foi, provavelmente, uma das frases mais ouvidas no recinto do parque de exposições de Paris-Nord Villepinte durante os três dias do certame, que reuniu presencialmente 756 expositores, a que se somam mais 147 na edição digital, que encerra hoje.

César Araújo, João Correia Neves e Mário Jorge Machado

As palavras foram ditas por muitos dos empresários portugueses – a comitiva nacional presencial integrou 56 expositores, dos quais 52 com presença física, incluindo cinco empresas de fios, 29 de tecidos, 11 de confeção e três representantes na área Smart Creation, dedicada à inovação sustentável – aos dois Secretários de Estado que visitaram o certame.

Augusto Sousa (Juvema)

«Num dia fez-se mais contactos do que em três dias em Munique», revelou Augusto Sousa, administrador da empresa de confeção Juvema, uma das sete empresas apoiadas pelo projeto 100%ModaPortugal, promovido pelo CENIT em parceria com a ANIVEC.

«Estamos agradados», confessou a Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, João Anjo, administrador da confeção Anjos & Lourenço, que esteve na Première Vision Paris com o apoio do projeto From Portugal, promovido pela Associação Selectiva Moda e pela ATP. Uma visão igualmente partilhada por José Carlos Rodrigues, diretor-geral da Outfit21. «Estamos positivos em relação a esta feira», referiu.

Aires Santos e José Carlos Rodrigues (Outfit21)

Nos tecidos, Carla Araújo, responsável de desenvolvimento de produto e marketing da Joaps, disse a João Correia Neves, Secretário de Estado Adjunto e da Economia, que «está a correr muito bem. Ontem e hoje [terça e quarta-feira] temos estado muito ocupados». Também André Andrade, responsável de marketing e vendas da Anbievolution, que esteve no certame pela primeira vez, confirmou que o primeiro dia «correu muito bem».

«Para ser a primeira feira, tem havido bons contactos», assegurou Domingos Peixoto, comercial da JFA, presente na área dedicada aos fios. «Ontem esteve movimentado. Hoje está mais calmo, mas está a querer mexer. Temos estado a trabalhar», referiu Fátima Antunes, administradora da fiação Filasa.

Inovar para vencer

Esta presença positiva na feira é também fruto dos investimentos e da capacidade de adaptação e inovação que as empresas nacionais procuraram fazer, quer em termos de apresentação, quer de produto ou de comunicação, sempre muito alinhado com aquilo que são os requisitos do mercado, nomeadamente a questão da sustentabilidade.

Cortadoria Leather[©Première Vision]
RDD [©PremièreVision]
Na Smart Creation, a Adalberto mostrou uma camisa pensada para todas as situações, em malha, para conferir conforto, e com tecnologia easycare, que evita as rugas e o engomar, e antibacteriano, para manter os odores afastados e permitir menos lavagens. Já a Cortadoria Nacional de Pêlo apresentou, sob a designação Cortadoria Leather, pele de coelho que se apresenta como uma alternativa ao couro tradicional, posicionando-se como mais amigo do ambiente e com reutilização de um subproduto que, de outra forma, seria desperdiçado, resultando num produto único no mundo. E a RDD esteve a expor vários desenvolvimentos, num stand que partilhou com a sua parceira Pangaia Science.

Ricardo e Mário Jorge Silva (Tintex)

Mesmo fora da área focada na inovação, as empresas nacionais mostraram-se capazes de se adaptar. A Brito Knitting, por exemplo, está a lançar malhas mais estruturadas que podem ser usadas para a produção de blazers e calças clássicas, preservando o aspeto visual, mas incrementando o conforto, a Penteadora lançou nesta coleção a linha K.N.I.T. (Knits our New and Inspired Trend), alargando a sua oferta a este tipo de estrutura, e a Marfel está igualmente a apostar na malha para confecionar camisas.

Já a Tintex decidiu revolucionar a sua oferta, acabando com as coleções e também com as estações, optando por lançar cápsulas ao longo do ano e apresentar-se em Paris sob o mote “This is not a collection”.

Potenciar o sector

Além de conhecerem estas inovações, João Correia Neves e Eurico Brilhante Dias ouviram ainda as preocupações manifestadas pelos empresários.

Ricardo Ferreira (Siena)

Ricardo Ferreira, administrador da Siena, abordou a questão energética, até porque «o gás e a eletricidade é algo que influencia imenso [os custos]», sublinhou. «O que precisamos é que nos baixe os impostos e a energia», reforçou Manuela Araújo, CEO da Lemar. «Precisamos de chamar rapaziada nova [para a indústria]», indicou Tiago Castro, International sales manager da estreante Magma Têxtil.

Questões que ambos os Secretários de Estado garantem estarem a ser seguidas pelo Governo. «Sentimos, e todos os países estão a sentir, uma alta de preços, quer do lado da energia, quer do lado das matérias-primas, há razões objetivas para que isso aconteça. O Governo, do lado daquilo que são os apoios que pode dar à estabilização dos preços dirigidos à indústria, vai fazer iniciativas fortes», afirmou. «Vamos usar todos os recursos que temos disponíveis para ajudar a que a definição tarifária, que é da responsabilidade da ERSE [Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos], possa conduzir a uma redução muito significativa das tarifas de acesso à rede», apontou, acrescentando que «acreditamos, com base nos elementos que dispomos, que a redução das tarifas de acesso à rede vai compensar a evolução das outras componentes. Aquilo que estimamos com esta intervenção é que, ao longo do próximo ano, a evolução dos preços de energia para as utilizações industriais possa, de algum modo, estabilizar».

Joana Guimarães e Tiago Castro (Magma Têxtil)

Já quanto à escassez de mão de obra, João Correia Neves explicou que, face à demografia nacional, «temos que, por um lado, apostar na automatização daquilo que é possível automatizar, um enorme esforço de construir soluções tecnológicas com a nossa capacidade de conhecimento daquilo que são os processos de fabricação para acelerar esta dimensão de resolver as partes que a automatização pode permitir resolver. Por outro lado, temos de apostar muito na formação das pessoas e no acréscimo de competências que elas podem ter».

Eurico Brilhante Dias, por seu lado, acredita que é necessário atrair e fixar recursos qualificados e que isso se faz com a subida da remuneração. «Quando chegarmos à valorização da remuneração do trabalho, vamos ter melhores condições de fixar talento. Muitos jovens não ficam nestas indústrias porque as condições remuneratórias são mais atrativas nas concorrentes. A indústria não tem futuro se não for capaz de pagar melhor. É nesse caminho que vamos ter de trabalhar. Para sermos mais competitivos temos que ter melhores salários», sustentou.

O Secretário de Estado da Internacionalização garantiu ainda que o Governo português está a trabalhar para defender a competitividade nacional, nomeadamente das empresas portuguesas de têxtil e vestuário, na Europa, «num quadro concorrencial que nem sempre é “level playing field”», enquadrando a atividade industrial portuguesa nos princípios que norteiam a política europeia e mundial, nomeadamente ao nível do combate às alterações climáticas. «Enquadram-se naquilo que entendemos ser melhor para a Europa e para o mundo», declarou.

Première Vision em julho

Depois de, face à situação pandémica, ter adiado a antecipação da segunda edição anual da feira para julho, a Première Vision já confirmou que em 2022, essa mudança vai mesmo acontecer.

«Posso confirmar que no próximo ano a Première Vision vai ser em julho, a 5, 6 e 7 de julho», revelou, ao Portugal Têxtil, Gilles Lasbordes, diretor-geral da feira parisiense. «O processo de vacinação está a melhorar em todos os países desenvolvidos e no próximo ano voltaremos ao plano inicial de mudar a Première Vision para julho, que será um grande desafio para nós e também para a indústria, que terá de ter as coleções prontas mais cedo do que o habitual», acrescentou.

Em relação à presença lusa na Première Vision, Gilles Lasbordes considera que «os portugueses mostraram confiança e isso é muito importante neste momento para toda a indústria. Os produtores de têxteis e os confecionadores têm feito um ótimo trabalho nos últimos cinco anos para serem fortes no mercado de moda europeu e têm tido um papel muito importante também mundialmente para fazerem um upgrade da marca Portugal. O made in Portugal é muito forte e os portugueses têm de estar muito confiantes no futuro tendo em conta a evolução da cadeia de aprovisionamento, devido à evolução do consumo e à procura por produtos sustentáveis. É algo muito positivo para o futuro da indústria em Portugal».

Mário Jorge Machado, Gilles Lasbordes, César Araújo e Eduardo Henriques