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Primark na rota do algodão sustentável

Nos últimos anos, a Primark tem defendido que o seu modelo de negócio focado nos preços baixos ao consumidor é perfeitamente compatível com a melhoraria dos padrões éticos na sua cadeia de aprovisionamento. Agora, a retalhista está investida em garantir que todo o algodão usado nos seus produtos é aprovisionado de forma sustentável.

A editora-adjunta do portal Just-style, Michelle Russell, fez uma viagem ao norte da Índia, onde o programa de algodão sustentável da Primark está já em andamento. «Somos uma retalhista de volume e queremos ter a certeza de que estamos a fazer as coisas corretamente e a minimizar o impacto que temos tanto em questões sociais como ambientais», afirmou Katharine Stewart, diretora de comércio ético e sustentabilidade ambiental na Primark.

Para a terceira maior retalhista de vestuário do Reino Unido em valor, com 325 lojas em 11 países e vendas na ordem dos 95 mil milhões de libras (aproximadamente 89,4 mil milhões de euros) no seu último ano fiscal, uma das metas é alcançar um aprovisionamento 100% sustentável de algodão em Gujarat, o maior produtor de algodão da Índia.

O projeto, criado há pouco mais de quatro anos em comunidades agrícolas, combina o conhecimento da iniciativa de agricultura sustentável conhecida como Cotton Connect, que recruta pequenos agricultores, e da Associação de Mulheres Trabalhadoras Independentes (SEWA) na promoção de mudanças duradouras e sustentáveis ​​no aprovisionamento de algodão – desde a seleção de sementes ao armazenamento. Cerca de 1.251 mulheres em 37 aldeias já integraram o projeto, sendo que o objetivo é chegar às 10.000 nos próximos seis anos.

No terceiro ano do programa, os agricultores viram um aumento médio de lucro de 247%. O uso de pesticidas químicos diminuiu em média 44%, enquanto o uso de fertilizantes químicos baixou 40%. O consumo de água caiu 10% e os custos de insumos diminuíram 19,2%.

Katharine Stewart revelou que apenas uma «pequena percentagem» do algodão produzido pelo programa tem sido incluída nas roupas da Primark, mas que as quantidades deverão crescer com a continuidade da iniciativa.

Atualmente, a Cotton Connect e a retalhista adotam uma abordagem manual para rastrear o algodão ao longo da cadeia de aprovisionamento, a fim de assegurarem que o algodão deste programa sustentável chega ao vestuário comercializado pela Primark. Isso significa verificar ordens de encomenda, recorrendo, entre o agricultor e a fiação, a identificadores nos fardos. Alison Ward, CEO da Cotton Connect, admite que a rastreabilidade é uma «tarefa difícil», facilitada pelo envolvimento ao longo da cadeia de aprovisionamento, mas nota que a Primark pode investir em tecnologia «mais fiável».

A diretora de comércio ético e sustentabilidade ambiental na Primark refere que a retalhista está a considerar o investimento em tecnologia à medida que o programa vai crescendo, admitindo que «ao chegar a uma escala maior, é preciso ter um sistema. Os sistemas artesanais permitem adulterações, mas temos de encontrar algo que funcione para nós».

A Primark escolheu a Índia para a iniciativa piloto porque queria envolver-se com os campos de algodão que já estão a ser usados pelos seus fornecedores. Este país é também um dos cinco principais destinos de aprovisionamento da retalhista e o maior produtor mundial da matéria-prima.

Num dos campos de algodão de Gujarat que participam na iniciativa, a agricultora Kanchan Ghanshyam Kazarie, que acompanha o programa desde o início, referiu ter aumentado a sua produtividade de 300 kg de algodão bruto por acre para 800 kg, em média. O valor recebido pelo algodão também cresceu, de 600 rupias (aproximadamente 8,41 euros) por kg, para cerca de 1.000 rupias. O programa mudou a vida Kazarie, embora esta tenha reconhecido que é «difícil» ser agricultor de algodão.

A maior parte do algodão do campo acabará na cadeia de aprovisionamento interna, com cerca de 20% exportado. A pequena quantidade de algodão que está a ser produzida atualmente para a Primark irá disseminar-se através das 1.200 fábricas que fornecem a retalhista na Índia.

A Primark espera que o seu programa de algodão sustentável possa ser expandido para a China, Paquistão e, potencialmente, para Myanmar, embora se mostre relutante em estabelecer um prazo. «Este é o primeiro passo e, de seguida, vamos olhar para outros países e outro tipo de produtos que não apenas vestuário», explicou Katharine Stewart. «Este é apenas o começo, não somos um negócio que estabeleça metas, sabemos apenas que vamos fazê-lo», concluiu