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Private label mais marca própria

De uma empresa de vestuário com um só funcionário, trabalhando exclusivamente a feitio, à actual empresa com 300 trabalhadores, duas marcas próprias, uma filial comercial em Espanha e grandes planos para o futuro, 22 anos depois a Moritex reflecte o espírito empreendedor do seu fundador e sócio maioritário, Lourenço Freitas. Numa fase tão determinante para a Industria Têxtil e do Vestuário (ITV) nacional e europeia, o Jornal Textil quis conhecer melhor este percurso. Jornal Têxtil (JT)– Nestes 22 anos de existência da Moritex, quais os momentos mais marcantes? Lourenço Freitas(LF)– Sem dúvida a criação da empresa, e o seu primeiro ano de existência. A escada era muito alta, mas trabalhando para exportação e apesar de todas as dificuldades burocráticas da altura, impostas pelo sistema de quotas, consegui no primeiro ano uma facturação de 30 mil contos. Ao fim de 3 anos comprámos estas instalações, remodeladas e ampliadas ao longo dos anos e uma confecção com 40 trabalhadores. A capacidade produtiva própria permitiu o grande salto. Trabalhei duma forma obsessiva, mas fui recompensado e no fim do quarto ano facturámos 450 mil contos. A partir daí o crescimento da Moritex foi constante. Em 2002 a facturação atingiu os 15 milhões de euros. JT- E como conseguiu esse crescimento constante? LF- Nunca ficámos parados e adaptamos sempre as estratégias às alterações dos mercado. Abrimos uma filial na Póvoa de Lanhoso. Actualmente temos 300 trabalhadores, 230 na Moritex e 70 na Póvoa de Lanhoso. Avançámos para a comercialização de acessórios, com um contrato de distribuição exclusiva estabelecido com uma empresa sul-coreana, que deu origem, há cinco anos, a uma empresa autónoma, a Safeitex, com 12 empregados e que exporta para Espanha, França e Tunísia. Em 1993 abrimos uma filial comercial em Espanha. JT- Até agora só referiu aspectos positivos. O que nos pode dizer quanto aos negativos? LF- Por vezes os momentos mais difíceis transformam-se em factores de desenvolvimento. Relembro uma situação ocorrida em 1990, altura em que o nosso mercado principal era o escandinavo e representava 60% da nossa produção. Inesperadamente, os dois clientes mais significativos nesse mercado suspenderam as encomendas e ficámos sem 40% da nossa produção. Durante meses não estive em Portugal, a tentar arranjar novos clientes. Nunca atrasámos os ordenados dos trabalhadores e conseguimos mesmo subir a facturação. Por isso, esta fase difícil, é um motivo de orgulho e obrigou-nos a repensar a estratégia de futuro, estabelecendo uma regra interna, que impede qualquer cliente de ocupar mais de 20% da nossa capacidade produtiva. Também posso referir que nenhum momento difícil implicou estagnação em termos de investimento em tecnologia e equipamento. JT- Quando e como decidiu avançar para a criação de marca própria? LF- Diz-se que a liberalização total do comércio em 2005 provocará grandes alterações do comércio internacional. Mas essas alterações já estão em curso. Actualmente, países como a China, o Paquistão e a Índia já têm elevados direitos aduaneiros para produtos têxteis e de confecção, enquanto que os direitos aduaneiros dos países da CE são os mais baixos do mundo. A situação é preocupante, porque está muito desequilibrada e porque o poder desses países já é enorme no sector. Neste contexto, temos de lutar muito para sobreviver. A Moritex fabrica 2 milhões de peças/ano, mas penso que devemos ter pelo menos metade da produção assegurada para o risco ser menor. Mas isso só é garantido se tivermos uma colecção própria e uma rede de lojas próprias, para garantir o escoamento da produção. As grandes redes de lojas mundiais foram deixando de fabricar cá os seus produtos porque devido às grandes quantidades conseguem preços perfeitamente inatingiveis para Portugal. O que é mau é que o consumidor português, em Portugal, compre produtos fabricados noutros países e que poderiam perfeitamente ter sido fabricados cá. Assim, há cerca de 6 anos criámos duas marcas próprias no segmento sportswear, a Mori para homem e senhora e a LSF para criança, que representam cerca de 20% da produção. Destes 20%, cerca de 80% é vendida em Portugal, directamente ao retalho. Actualmente a verdadeira aposta é na Mori. O objectivo é como disse atingir os 50 % da produção dentro de cinco anos. JT- A Mori, em termos comerciais, vai ser trabalhada no mercado interno e externo. Como? LF- O primeiro passo é reforçar as colecções, que actualmente tem 60 modelos, para 200. Durante os próximos dois anos vamos estar fortemente empenhados em criar a nossa rede de lojas. Vamos começar por abrir 3 lojas nos próximos 6 meses, com um investimento de 750 mil euros. A primeira será uma loja de fábrica e funcionará como modelo para as outras. Como já referi, a nossa colecção ainda não tem uma dimensão ideal e assim venderemos produtos comprados a outras empresas, nos quais colocaremos a nossa etiqueta. Em termos de mercado interno, não vamos fazer concorrência às zonas em que a marca já esteja bem implantada. Vamos contratar um quadro altamente especializado e conhecedor do mercado, pois nós não temos know-how suficiente para gerirmos este negócio. JT – Quanto à internacionalização da marca, o que está previsto? LF- A internacionalização da marca Mori terá de ser acompanhada por uma elevada aposta nas áreas comercial e de marketing. Espanha, neste momento o nosso principal mercado e onde temos uma filial, será privilegiada. É um mercado em franca expansão, onde as vendas deste ano da Mori já aumentaram 40% em relação ao mesmo período do ano passado O nosso funcionário em Espanha vende a colecção directamente ao cliente, que deve ter pelo menos três lojas. A cobertura total do mercado só será concretizada na próxima estação e se tudo correr bem vamos ter um representante em cada região de Espanha. Além de Espanha, vendemos para a Áustria e Alemanha. Posso avançar em primeira mão que já estamos numa fase adiantada de contactos com alguns países recém admitidos na CE , onde temos agentes e a receptividade nos parece vir a ser muito boa. JT- A sua atitude parece-nos muito cautelosa, que contrasta com a forte aposta na imagem da marca Mori feita recentemente. LF- Não nos dizem que nos tempos que correm a imagem é tudo? Então não poderíamos agir de outra forma. Devíamos até ter uma atitude mais agressiva, mas isso tem custos. Sabemos que os frutos neste negócio não são imediatos, mas vamos avançar lentamente de forma a que os alicerces sejam fortes. Vamos fazer publicidade em revistas, contemplando duas ou três estrangeiras, e numa ou duas rádios a nível nacional. Não podemos gastar hoje o que nos pode fazer falta amanhã. Não vamos fragilizar a empresa e, se for necessário, aplicamos economias próprias. JT- Não posso deixar de pensar na pequena dimensão do nosso mercado. Será que há lugar para mais lojas, mais marcas? LF- Não podemos parar e vamos para o mercado com uma atitude diferente. Queremos, por um lado, que os consumidores quando compram nas lojas Mori, sintam que estão a pagar o preço justo como se estivessem a comprar na loja de fábrica. Por isso as margens serão mais baixas, mas os benefícios mais altos. Penso que este seria um dos caminhos para as marcas portuguesas fazerem uma concorrência mais forte às marcas estrangeiras. Por outro lado, vamos centrar a nossa promoção na sensibilização do consumidor para que quando comprar um produto Mori, esteja a contribuir não só para a empresa especifica que o produziu mas para o bem estar geral de todos os que trabalham na CE. Tenho a certeza absoluta que entre dois produtos de boa qualidade, com design actualizado, um fabricado na CE e outro fabricado fora, o consumidor, desde que sensibilizado, vai optar pelo fabricado na CE. No entanto, o factor preço é muito importante e como não podemos combater a mão-de-obra barata doutros países, baixamos as margens.