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Produção global aumenta em março

Com o ressurgimento da procura e, por consequência, de novos pedidos a todo o vapor, há sinais definitivos de melhoria na produção global em março, segundo revela a mais recente análise do IHS Markit. Uma evolução que, em alguns casos, chegou mesmo a bater recordes.

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A produção global cresceu no mês de março, mas a pandemia deixou marcas em todo o mundo ao limitar a expansão e problemas nas cadeias de aprovisionamento com o bloqueio no Canal de Suez fizeram baixar as expectativas.

EUA

Os dados de março do Índice de Gestores de Compras (PMI) da IHS Markit indicam a segunda melhoria mais acentuada no sector produtivo dos EUA desde o início da recolha de dados em maio de 2007.

A expansão geral foi sustentada pelo aumento do volume de novos pedidos desde junho de 2014, ainda que o fabrico tenha sido contido, dada a escassez de oferta e os prazos de entrega dos fornecedores terem sido alargados como nunca antes.

O PMI ajustado sazonalmente da IHS Markit para a produção dos EUA fixou-se nos 59,1 em março, um valor superior aos 58,6 registados em fevereiro, mas em conformidade com as estimativas da empresa, que apontaram para os 59.

Em março, as produtoras de bens tiveram a recuperação mais rápida em novos negócios num período de quase sete anos. A evidencia anedótica sugere que a expansão foi sustentada pela procura dos clientes. Algumas empresas também relataram esforços de armazenamento por parte dos clientes, tendo em conta o preço crescente dos custos produtivos.

Embora a produção tenha aumentado pelo nono mês consecutivo, o aumento mais rápido na procura não se traduziu num crescimento mais acentuado do fabrico, uma vez que a produção foi limitada pela escassez de oferta e pela situação sem precedentes no que diz respeito aos prazos de entrega. Deste modo e mesmo que forte em geral, a taxa de expansão produtiva foi a mais lenta desde outubro.

«Março viu os fabricantes a lutarem para lidar com o fluxo crescente de novos pedidos. Embora a produção tenha continuado a crescer a um ritmo sólido, a capacidade está a ser severamente prejudicada pela combinação da procura crescente e pelas interrupções na cadeia de aprovisionamento», afirma Chris Williamson, economista-chefe de negócios da IHS Markit, ao Sourcing Journal. «Atrasos na cadeia de aprovisionamento e de pedidos não concluídos estão a aumentar a taxas sem precedentes, o que significa que o stock de produtos acabados está a cair a uma taxa acentuada», explica Williamson, sublinhando que o poder de fixação de preços está a crescer à medida que a procura ultrapassa a oferta.

Segundo o economista-chefe de negócios da IHS Markit, o preço das matérias-primas também subiu à taxa mais acentuada numa década e os preços de venda nas fábricas escalaram a um nível não visto, pelo menos, desde 2007.

«As taxas de aumento mais rápidas para novos pedidos e preços foram relatadas entre os produtores de bens de consumo, assim como a chegada de cheques de estímulo… Acrescentou combustível a um aumento marcado da procura, enquanto a economia continuava a sair do mal-estar causado pela pandemia. Com as expectativas dos negócios a tornarem-se ainda mais otimistas em março, é provável que haja um forte crescimento da produção no segundo trimestre, porém, a grande questão é se as crescentes pressões sobre os preços também se vão tornar mais elevadas», adianta Chris Williamson.

Canadá

Os produtores do Canadá encerraram o primeiro trimestre com uma melhoria recorde no inquérito nas condições gerais de negócio. Um aumento significativo de novos trabalhos impulsionou os volumes de produção e, consequentemente, a criação de emprego em março.

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O aumento na procura contribuiu igualmente para um crescimento inegável de pedidos em atraso, mas, em oposição, a escassez de material e as restrições entre países desencadeadas pela pandemia contribuíram para o alargamento nos prazos de entrega desde abril do ano passado.

O PMI ajustado sazonalmente da IHS Markit para a produção foi de 58,5 em março, consideravelmente acima dos 54,8 verificados em fevereiro, o que se tornou na leitura mais alta em mais de 10 anos de recolha de dados. Os produtores revelaram o segundo aumento mais rápido nos níveis da produção desde o início da série, o que, por norma, está relacionado com volumes de trabalho superiores e maior capacidade de produção.

Os inquiridos apontaram maior procura do mercado interno e exportação. Para responder a esta procura, os produtores tiveram de aumentar a força de trabalho, que deu origem ao pico da taxa de criação de emprego em três meses. Apesar disso, houve sinais de que as empresas não conseguiram acompanhar o aumento do volume de trabalho trimestral, promovendo o aumento quase recorde de negócios.

«Os produtores canadianos fecharam o primeiro trimestre de 2021 com uma nota otimista. O crescimento foi impulsionado por uma procura mais forte, já que as restrições da Covid-19 continuam a ser leventadas nas províncias. No que toca às preocupações, as pressões da cadeia de aprovisionamento global continuaram em março. Restrições nas fronteiras e medidas mais rígidas nos mercados internacionais continuam a criar dificuldades. Como resultado, as empresas tiveram que assumir custos crescentes e atrasos na produção. Deste modo, o ambiente mais resiliente da procura possibilitou que as empresas protegessem as margens de lucro ao aumentar os preços de venda», elucida Shreeya Patel, economista da IHS Markit.

Zona Euro

A economia de produção da Zona Euro teve um forte desempenho em março, com as condições operacionais a melhorar ao máximo em quase 24 anos de recolha de dados.

O PMI subiu para 62,5, acima dos 57,9 registados em fevereiro, o que sugere um fortalecimento considerável do desempenho do sector. O crescimento foi amplo em toda a região, com a Holanda e a Alemanha a liderar a tendência. A Áustria evidenciou também um desempenho «excecionalmente bom», quando Itália e França verificaram os níveis mais altos mediantes os respetivos históricos de análise.

A subida recorde na produção e o volume de novos pedidos em março levou à consolidação geral da procura, o que impulsionou a confiança nas condições económicas futuras e ajudou a impulsionar os aumentos recordes na produção e no rendimento.

«Embora centrado na Alemanha, que teve uma expansão recorde particularmente forte durante este período, a tendência de melhoria é ampla em toda a região, já que as fábricas se beneficiam do aumento da procura interna e do ressurgimento do crescimento das exportações. O que impulsionou a retoma foi uma melhora acentuada na confiança dos empresários nos últimos meses com expectativas de crescimento no ano seguinte, atingindo níveis recordes em fevereiro e março. Isso não só estimulou os gastos, mas também levou ao aumento do investimento e do reabastecimento, à medida que as empresas se preparam para uma procura ainda mais forte depois da vacinação», avança Williamson da IHS Markit, dando enfase às interrupções nas cadeias de aprovisionamento e ao bloqueio no Canal de Suez que podem pintar um cenário negativo.

Brasil

A recuperação da indústria transformadora no Brasil foi interrompida em março com o aumento nos casos de coronavírus e a implementação das restrições que reduziu os novos pedidos, provocando a diminuição da produção e também de postos de trabalho.

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Mediante os resultados de uma nova avaliação que projeta a produção para o próximo ano, destacam-se graves interrupções na cadeia de aprovisionamento, que vão dar origem a um aumento acentuado dos encargos e a atrasos nas entregas. Com o objetivo de proteger as respetivas margens, as empresas estão a aumentar os preços de venda. Já o PMI continuou acima de 50, diminuindo de 58,4 no mês de fevereiro para 52,8 em março.

«O sector produtor brasileiro teve um retrocesso em março, com os novos pedidos e a produção novamente em contração, devido ao aumento de casos de Covid-19 e à introdução de novas restrições para conter a propagação da doença», aponta Pollyanna De Lima, diretora-associado de economia da IHS Markit, que reconhece que «os prazos médios de entrega aumentaram para uma das maiores subidas que vimos».

Reino Unido

A recuperação da produção do Reino Unido registou um impulso no final do trimestre, uma vez que março teve o crescimento mais rápido da produção desde o final de 2020, com a entrada de novos negócios no mercado interno e externo.

Mesmo assim, o sector foi afetado por graves problemas na cadeia de aprovisionamento e logística, que criaram atrasos nas entregas dos fornecedores e interrupções nos planos de produção e distribuição.

O PMI subiu para 58,9 em março, o que deu a este mercado o melhor resultado desde fevereiro de 2011. O nível do PMI foi sustentado por um maior crescimento da produção, novos pedidos e mais emprego, juntamente com maiores prazos de entrega dos fornecedores. Uma redução mais lenta nos stocks também teve um impacto positivo na leitura mais recente, em comparação com o mês anterior.

A produção de bens de consumo voltou a subir após contrações consecutivas. O aumento da produção adveio da subida de novos pedidos, campanha de vacinação e desconfinamento gradual.

Face a este cenário, as empresas sentiram uma melhoria na procura interna e externa, que aumentou a confiança dos negócios, levando à colocação antecipada de pedidos. A recuperação contínua das condições económicas espalhou otimismo e promoveu a criação de emprego nas fábricas do Reino Unido.

«O mercado interno continuou a ser a principal fonte de novos pedidos, já que as empresas relataram que a campanha de vacinação e o alívio das restrições alimentaram o crescimento. Muitos esperam que este processo seja também favorável ao longo do próximo ano, aumentando o otimismo dos negócios e o crescimento do emprego para os níveis mais altos em sete anos», esclarece Rob Dobson, diretor da IHS Markit.

China

A condições operacionais foram uma melhora apontada pelas produtoras chinesas no mês de março, visto que a produção e novas encomendas continuaram a aumentar a taxas moderadas, fomentando também as exportações.

Neste período, o PMI da China foi de 50,6, uma diminuição face ao PMI de fevereiro de 50,9.

Os fabricantes chineses aumentaram a produção em março pelo 13.º mês consecutivo, mas a taxa de crescimento desceu para uma baixa de 11 meses e permaneceu moderada no geral. As empresas referem que uma recuperação da pandemia e o aumento dos pedidos dos clientes incentivaram a recente retoma.

Os dados subjacentes sugerem que o abrandamento da procura interna foi amplamente compensado pelo aumento das vendas externas, que subiram pela primeira vez em três meses.

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«Em geral, o sector produtivo continuou em recuperação em março, mas o ritmo da oferta e da procura enfraqueceu. As empresas estão ainda confiantes de que a economia continuará a recuperar e que a pandemia será controlada, com o indicador para as expectativas de produção futura a ultrapassar a média de longo prazo», assegura Wang Zhe, economista-chefe sénior do Caixin Insight Group. «Devemos prestar atenção à inflação no futuro, uma vez que os indicadores de preços da produção e venda têm subido desde há vários meses. A crescente pressão inflacionária limita o espaço para políticas futuras e não é bom para sustentar uma recuperação económica no pós-pandemia», acrescenta.

Vietname

Para o Vietname, o crescimento na indústria produtiva acelerou no final do primeiro trimestre, com aumentos significativos na produção, novos pedidos e mais exportações que impulsionaram a criação de emprego e a compra.

Numa nota menos positiva, a rutura nas cadeias de aprovisionamento continua a afetar o sector e fortaleceu as pressões inflacionárias. Os custos de produção e os preços de venda aumentaram à taxa mais rápida em pouco mais de três e quatro anos, respetivamente. Já o PMI atingiu os 53,6 em março, um aumento em comparação com os 51,6 assinalados em fevereiro.

«A confiança dos empresários atingiu a maior alta em 20 meses», garante o estudo, que realça ao aumento da produção nos principais sectores, principalmente nas empresas de bens de consumo, que lideram o crescimento.