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Produção regressa a casa

O reshoring está em movimento na Europa e nos EUA. Trazer a produção de volta a casa pode ajudar as empresas de moda a construir as suas marcas e a aumentar a flexibilidade. Todavia, a questão não se esgota nos “prós” e apresenta substanciais “contras”.

Nos EUA e no Reino Unido, a produção de moda já não assume os contornos de outrora. Em 1990, o sector de vestuário dos EUA empregava 939 mil pessoas. No Reino Unido, em 1970 e 1980, as cidades de Lancashire e Yorkshire eram alimentadas por fábricas têxteis, providenciando até 10.000 postos de trabalho por unidade.

As últimas três décadas trouxeram, porém, alterações significativas. Os empregos descolaram para o exterior e as fábricas começaram a fechar portas, à medida que as marcas de vestuário começaram a incluir o “Made in China” e, depois, “Bangladesh” ou “Vietnam” nas suas etiquetas.

Hoje, mais de 90% do vestuário dos EUA é importado e o sector emprega cerca de 135 mil pessoas, de acordo com a Alliance for American Manufacturing. No Reino Unido, a Fashion & Textiles Association (UKFT) calcula o número em cerca de 100 mil pessoas.

Não obstante, algumas marcas estão a resistir a esta tendência. No mês passado, a Burberry anunciou planos para investir mais de 50 milhões de libras (aproximadamente 64,5 milhões de euros) na ampliação da sua produção no norte da Inglaterra (ver Burberry revitaliza ITV britânica). No ano passado, a Nike prometeu criar até 10 mil novos empregos na produção e engenharia nos EUA se a Parceria Trans-Pacífico (TPP), fosse promulgada (ver O compromisso nacional da Nike).

Já novas marcas de vestuário como a Zady, Reformation e a Nasty Gal estão a fabricar alguns, ou mesmo todos, os seus produtos nos EUA.

Mas será o reshoring – que acontece quando os empregos que foram deslocalizados, ou mesmo provenientes do exterior, são trazidos de volta para os EUA e Reino Unido – uma realidade ou antes um mero golpe de relações públicas? O portal The Business of Fashion traça um quadro que mostra uma resposta intrincada.

Segundo o índex da consultora A.T. Kearney, o vestuário foi a terceira maior indústria para o reshoring nos EUA em 2014, respondendo com 12% dos casos. Já de acordo com o Bureau of Economic Analysis americano, entre 2013 e 2014 (último ano para o qual há dados disponíveis), a produção da indústria de vestuário nos EUA subiu 4%, tornando-se a segunda indústria do país com mais rápido crescimento. «Esta é a primeira vez que vimos um aumento no vestuário em, pelo menos, uma década», destaca Robert D. Atkinson, presidente da Technology and Innovation Foundation e coautor do relatório de 2015 “The Myth of America’s Manufacturing Renaissance”.

Esta informação não é, todavia, tão cor-de-rosa como parece. Em 2014, havia cerca de 300 casos de reshoring em toda a indústria transformadora dos EUA, de carros a cabos de telefone, de acordo com a A.T. Kearney. Em 2015 caíram para menos de 60. Além disso, o índice também mostra que todos os anos de 2011 a 2015, a relocalização da produção nos EUA não conseguiu acompanhar a deslocalização.

Offshoring versus Reshoring
«Havia uma mentalidade de rebanho nos EUA – quem fosse a última pessoa a chegar à China poderia ser demitido», argumentou Atkinson. Hoje, os proponentes do reshoring argumentam que as decisões de aprovisionamento das empresas são mais matizadas. Defendem que fatores como o aumento dos custos com os trabalhadores na China e a crescente necessidade de as empresas de moda respondam rapidamente ao mercado, bem como problemas com fornecedores no exterior – como a agitação industrial e problemas com a qualidade do produto – estão a fazer com que a produção nos EUA e no Reino Unido pareça mais atraente.

Outros argumentam que o custo ainda continua a ditar a atuação. «A indústria está a pedir preços mais baratos. As marcas vão declarar publicamente que não é o caso, mas, off the record, se perguntarmos a qualquer fábrica qual é, atualmente, o seu maior problema, independentemente do país onde estejam, vão responder: “a intensa pressão de clientes para preços mais baixos”», apontou Edward Hertzman, fundador do Sourcing Journal Online, uma publicação comercial que cobre a cadeia de aprovisionamento de tecidos e vestuário.
O consenso parece ser que os EUA e Reino Unido, tão cedo, não terão a indústria de vestuário a níveis próximos dos que conheceram há três décadas. «Não há mão-de-obra aqui e não há força de trabalho, nem capacidade, para a produção experimentar um ressurgimento em grande escala», considerou Hertzman.

Não obstante, ainda que o reshoring da produção de moda possa nunca chegar a ser uma realidade em grande escala, há casos em que a fabricação local faz sentido.

Adicionar rapidez e flexibilidade
Manter a produção perto das lojas também permite que uma empresa de moda seja capaz de construir uma cadeia de aprovisionamento ágil.

A Brooks Brothers, que se apresenta como a “mais antiga loja de roupa” americana, tem três fábricas nos EUA, que produzem de 45% a 50% de vestuário da empresa, 10% das camisas, e 100% dos laços. Os restantes produtos são fabricados na Ásia e na Europa. «A ideia é ter tempos de resposta mais rápidos e encomendas de menor volume», explicou John Martynec, vice-presidente de produção na empresa.

Construção de marca
«As marcas são nomes que representam algo», advogou Patrick Grant, designer da marca de moda masculina britânica E Tautz. Grant conheceu os problemas na produção do Reino Unido em primeira mão.

No ano passado, o designer comprou a Cookson & Clegg, uma fábrica que abastecia a marca e estava com dívidas e, atualmente, está envolvido num projeto designado “Community Clothing”, que visa tornar o menswear acessível recorrendo, para isso, a fábricas britânicas durante épocas do ano em que a procura é baixa. «Se a sua marca representa o estilo britânico, devemos pensar muito cuidadosamente sobre o que isso realmente significa», defendeu o designer, sublinhando a importância da produção local.

No início deste mês, a Burberry anunciou que iria investir mais de 50 milhões de libras numa nova fábrica e tecelagem em Leeds. A unidade irá empregar mais de mil pessoas.

A Burberry recusou-se a comentar sobre qual a percentagem da sa produção no Reino Unido. Porém, o que fica claro é que, para uma empresa cuja imagem de marca está tão intimamente ligada à “Britishness”, a produção no Reino Unido desempenha um papel muito importante.

Para a Shinola, uma marca de lifestyle de luxo americana fundada em 2011, a produção local também é a chave do apelo da marca. «É um diferenciador no mercado. Estamos a participar numa categoria de produtos de luxo e somos a única marca que realmente produz nos EUA», revelou o COO Heath Carr.

Sublinhando esta questão, uma pesquisa da Gallup de 2013 revelou que 45% dos americanos afirmaram ter feito um esforço especial para comprar produtos fabricados nos EUA – embora este sentimento não se estenda necessariamente a todos os sectores do mercado.

Customização em massa
Nos últimos anos, marcas como Nike e Burberry têm vindo a desenvolver a “customização em massa”, que permite que os clientes participem na conceção dos produtos, que são construídos por encomenda em fábricas de grande escala.

O serviço gravação personalizada da Burberry, por exemplo, no qual os consumidores podem optar por enaltecer os seus produtos com as iniciais numa cor de linha à escolha, é desenvolvido na fábrica da marca em Castleford, Inglaterra. «A tecnologia na produção está a permitir aquilo a que as pessoas chamam de customização em massa, menores ciclos de produção e um preço mais competitivo», explicou Atkinson, que acrescentou que a tendência é um trunfo para países como os EUA e Reino Unido, que lutam para competir com a produção de baixo custo e em grande escala, mas têm recursos para investir em tecnologias.

Desenvolvimento de produto
Tanya Menendez é cofundadora e diretora de marketing da startup Maker’s Row, um banco de dados online que relaciona os designers e as empresas com mais de 10 mil fabricantes norte-americanos. «As principais vantagens para as empresas são os tempos rápidos de resposta, a capacidade de colaborar com as fábricas e, depois, o controlo», destacou.

30% dos utilizadores da Maker’s Row são designers emergentes, enquanto 40% são pequenas empresas. Muitos usam fornecedores locais para desenvolver os primeiros produtos e avaliar o feedback dos consumidores antes de fazerem encomendas maiores. «É menos arriscado poder testar o produto aqui», admitiu Mendenez. «O problema com o exterior é que eles não sabem o que vai acontecer com o seu dinheiro; é muito difícil desencadear uma ação judicial e não há prestação de contas», concluiu.