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Promover made in Portugal

O Governo quer aproveitar o exemplo da Swatch e da Mglass para relançar sectores como os têxteis, vestuário e calçado, embora o modelo possa ser aplicado a quaisquer outros sectores de actividade. O ministro da Economia Carlos Tavares quer que as marcas deixem de ser um mero activo registado, na maior parte dos casos com valores muito baixos, para passarem a ser um factor que, mais do que mera publicidade, ajude a criar valor e riqueza para as empresas e para o País. O ministro da Economia afirma que «as empresas portuguesas de têxteis, vestuário e calçado apenas aproveitam 30 por do valor do sector», explicando que o novo projecto não fica pela promoção do made in Portugal. Segundo Carlos Tavares, «70 por cento do valor económico destes sectores encontra-se no final da cadeia de valor, que abrange a marca, distribuição e comercialização. As empresas portuguesas dedicam-se, na sua esmagadora maioria, à produção de matérias-primas e terminam com a produção dos artigos». Isto significa que a maior parte das empresas nacionais de têxteis, vestuário e calçado, apesar de terem know-how e boa tecnologia, não chegam ao consumidor final. Um problema que se traduz na produção de artigos de qualidade, por subcontratação, para marcas que acabam por ganhar muito mais do que quem os fabricou. Por isso, estes sectores empregam, em conjunto, seis por cento da população activa nacional, mas representam apenas cerca de três por cento do PIB. Por seu lado, Madalena Torres administradora do ICEP, afirma, a propósito do projecto «Marcas Portuguesas», apresentado no Porto na passada sexta-feira , que «não se pretende anular o que foi feito durante dois anos no âmbito do Projecto Marca Portugal, mas capitalizar sobre o diagnóstico realizado e aproveitar o conhecimento acumulado para focalizar nas vertentes económicas». Para que as empresas e associações lancem e consolidem marcas é necessário disponibilizar apoios que até agora estavam limitados a dois anos no âmbito do Programa Operacional da Economia (POE) e que, com o novo projecto, deverão passar, no mínimo para quatro, segundo afirmou o ministro. Marcas portuguesas como a Vista Alegre, a Lanidor, a Mglass, o vinho do Porto, o Mateus Rosé, a Renova, a Atlantis, o João Lago Sport, a Novabase e a Via Verde são apenas algumas marcas nacionais com boa implementação no estrangeiro. Alguns dos produtos nacionais foram recentemente alvo de uma acção de marketing por parte do El Corte Inglês, em Espanha, acção essa, que incidiu especialmente nos têxteis, louças e alimentação. Em 2001 foram apresentados em Portugal 8587 pedidos de registo de marcas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, contra os 8080 lançados em média entre 1998 e 2000. Em contrapartida o número de solicitações de registo de patentes e modelos de utilidade atingiu os 266 no ano 2001 enquanto que entre 1998 e 2000 atingiu apenas os 232 registos. O processo de registo de uma marca é burocrático podendo demorar seis meses a ser despachado, sendo a aceitação ou recusa publicada no Boletim de Propriedade Industrial e o preço do registo depende do número de classes em que essa marca é registada, podendo sê-lo a nível nacional ou internacional. Quanto ao registo de novas invenções, o tempo médio de espera é de dois anos e obriga ao cruzamento de um grande número de informações. Uma grande parte dos empresários portugueses já interiorizou que o reforço competitivo das suas unidades tem de passar pela implantação de marcas fortes no exterior, mas poucas são as empresas com dimensão e capacidade financeira para se lançarem neste caminho. Há no entanto casos de sucesso no têxtil, vestuário e calçado como é o caso da Petip Patapon, Lanidor, Swear, Fly London, Dieba e Ejected. Os sectores têxtil e de calçado têm seguido estratégias diferentes pois, enquanto o primeiro tem apostado no desenvolvimento de marcas de distribuição, ou seja, associadas a cadeias de lojas, como é o caso da Petit Patapon, Lanidor, Bruno Belloni, Decénio ou Salsa, o calçado optou, salvo raras excepções, pela venda directa aos retalhistas. Um caminho porventura mais difícil, e a exigir maior capacidade de investimento. Este sectores divergem, também, nos alvos. O calçado vira-se totalmente para o exterior, enquanto que o têxtil parece preferir testar o conceito em Portugal, amadurecê-lo e só depois avançar para fora. Luísa Santos, directora de relações externas da Associação Portuguesa de Têxtil e Vestuário (APT), admite o atraso da indústria nacional neste caminho, mas lembra que a implantação de uma marca «exige investimentos vultuosos, para os quais a maioria não está preparada». E lembra que o facto de Portugal não possuir uma imagem associada à moda, como Itália ou França, vem dificultar ainda mais o processo. Segundo esta responsável, apenas 10 por cento das empresas da indústria têxtil e do vestuário estarão aptas a desenvolver e implantar uma marca, mas outras terão lugar reservado no mercado da subcontratação. «O que não é um drama», assegura. Há que não esquecer que um dos casos de maior sucesso da indústria no exterior é protagonizado pelos têxteis-lar, que representam 10 por cento das importações dos Estados Unidos funcionando em regime de subcontratação. Já a APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado e Artigos de Pele e Seus Sucedâneos), estima que 27 por cento das empresas trabalhem com marcas próprias o que é muito positivo, mas não satisfaz por completo. «É preciso continuar a aprofundar este caminho. O que é significativo é que, num recente inquérito e numa escala de um a quatro, os industriais tenham valorizado a marca como elemento decisivo no reforço da competitividade em 3,4», refere a associação.