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Prós e contras da Zaradependência

No final do passado mês de Setembro, uma notícia caiu como uma bomba no meio têxtil do Vale do Ave e do Cávado: o grupo Inditex pretendia abandonar a produção em Portugal, na sequência do impedimento de abrir novas lojas no nosso país. Embora o desmentido tenha sido imediatamente efectuado pelo próprio grupo e a situação relativa à abertura de novas lojas rapidamente contornada, o rumor deixou claro o quanto a indústria têxtil portuguesa está dependente da marca espanhola. Um modelo que graças aos ingleses, alemães, suecos e agora aos espanhóis parece longe de se ter esgotado, apesar dos vários e duros reveses. Nunca a nova campanha publicitária de “nuestros hermanos” esteve tão actual: “A Espanha Marca”. E de que maneira na região do Minho! «No Vale do Ave, quem não trabalha para a Zara tem essa ambição», revela Virgínia Abreu, co-propriétaria da Crispim Abreu, à revista Visão. «A Zara teve a maior importância no meu crescimento. Sem eles não teria chegado onde cheguei». Mas esta empresa têxtil pertence ao restrito grupo que soube realmente aproveitar o trabalho em “private label” como alavanca para crescer e poder, a posteriori, apostar em design e distribuição próprias. Com efeito, graças à sua colaboração com Agatha Ruiz de la Prada, a Crispim Abreu detém hoje a licença, em exclusivo e para todo o mundo, da produção e distribuição de vestuário de senhora e criança da estilista espanhola. No entanto, são ainda muitas as empresas que deixam plenamente o seu futuro nas mãos do gigante espanhol e têm apenas como aspiração máxima produzir cada vez mais para este grupo. Uma forma de dependência que, todavia, já se mostrou fatal para a nossa ITV no passado, quando esses grandes clientes retiram subitamente as encomendas de Portugal… Mas, desta vez, trata-se de uma dependência partilhada, já que o grupo Inditex possui mais lojas em Portugal (190) do que em qualquer outro país, à excepção da própria Espanha (1100, total no mundo: 1848). Um grupo onde a Zara ocupa claramente a primeira posição quer em número de lojas no mundo – 601 – quer em termos de vendas – 2.913 milhões de euros (total de 3.974 em 2002), mas que possui ainda mais 8 marcas: Massimo Dutti, Bershka, Pull & Bear, Stadivarius, Kiddy’s, Oysho, Often e Zara Home. A Inditex confirma a existência de «um importante sentimento de afinidade e pertença ao mercado português», que se reflecte tanto na vertente comercial – ou não tivesse sido o Porto a primeira cidade a acolher uma loja Zara fora de Espanha – como produtiva – Portugal representa hoje 15% da produção total, ocupando o segundo lugar logo a seguir à Espanha. E o grupo espanhol pretende duplicar os seus “50 milhões de artigos produzidos em Portugal” até 2005. Se a dependência é grande, o respeito espanhol tem também dimensão similar. O patrão da Inditex, Amancio Ortega, considera que o fornecedor é o elo mais importante da cadeia. No entanto, apesar de haver um culto pelo modo como a Inditex trabalha e se relaciona com os seus fornecedores, um facto é evidente: «espremem os preços que nem esponjas», ainda que «no dia combinado, cai o dinheiro na conta», revelam unanimemente os fornecedores. Todavia, para fazer face ao preço exigido, o salário médio de um operário têxtil é de 510 euros limpos, pagos 14 vezes por ano. A escritora galega Cecilia Monllor, que revela no seu Livro Zarápolis a história secreta deste império têxtil, põe o dedo na ferida: «a forte tradição têxtil portuguesa e a sua proximidade geográfica serve de base para um aprovisionamento a baixo preço e de mão-de-obra barata». O preço do trabalho é, por consequência, «essencial» e só contínua a ser possível num país que se quer no pelotão da frente da União Europeia «porque a Inditex pede grandes quantidades e a indústria portuguesa responde com eficácia». E não podia ser de outra forma para um grupo que aposta no “just in time” e na elevada rotatividade dos produto à venda, de modo a não criar excedentes. No entanto, os trabalhadores do Ave e Cávado têm bem presente que, nos tempos que correm, o desemprego lhes pode bater à porta, pois estão na base de uma pirâmide de dependências, com o grupo espanhol no topo. Daqui à base, há todo um equilíbrio sustido por uma teia, onde basta partir um fio para que tudo se altere. No programa de recuperação da Áreas e Sectores Deprimidos (PRASD), Daniel Bessa chama a atenção para o perigo de uma «concentração excessiva» nas confecções e avança com uma taxa de crescimento do desemprego – 33,7% – que não deixa ninguém indiferente. A reconversão, a que os mais avisados não puderam escapar, transformou as antigas fábricas em unidades mais pequenas e menos dependentes de mão-de-obra intensiva. No entanto, originou a pulverização de uma quantidade inimaginável de pequenas confecções, que empregam entre 10 a 40 trabalhadores, e que crescem como cogumelos na teia das empresas que apostam mais na área comercial. Mas a Zara é efectivamente um motor que faz avançar algumas empresas portuguesas. Pedro Guerreiro tornou-se um empresário de sucesso graças ao grupo espanhol, e à sua paciência e persistência. «Fui à Corunha cinco ou seis vezes e não fui atendido. Demorava então sete horas de carro. A primeira vez fui de gravata e senti-me mal, pois os gerentes e altos quadros andam todos de t-shirt e calças de ganga. São extremamente práticos a trabalhar», relata Pedro Guerreiro à Visão. Até que teve a primeira oportunidade. «Havia uma série de peças sem etiqueta. O prazo era curtíssimo. Mas consegui responder em 48 horas». E assim, à sombra da Zara, tem expandido as suas duas empresas, onde mais de metade da produção destina-se à Inditex. «Temos sempre três a quatro milhões de etiquetas em stock, 70 toneladas de fio e desenvolvemos 480 cores próprias». Em homenagem à Inditex criou, inclusive, uma etiqueta gigante com todas as marcas do grupo. Quanto ao grupo espanhol, vai agora instalar-lhe um sistema de videoconferência para que não seja mais necessário deslocar-se à Corunha uma vez por semana. «As empresas que trabalham para a Zara começam a desenvolver-se de uma maneira diferente. Há uma cultura Inditex». Para já, todas as manhãs de segunda-feira os camiões cinza metalizado com o símbolo Zara num vermelho discreto vão continuar a recolher a mercadoria nas várias fábricas do Vale do Ave e do Cávado. Mas, até quando?