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Proteger, até onde? – Parte 1

Embora o panorama financeiro mundial continue a ser, inevitavelmente, o foco principal para os Governos de todo o mundo, o estímulo fiscal e os acordos de comércio bilaterais estão no centro de vários pacotes de recuperação destinados a auxiliar os sectores têxtil e vestuário. Mas existe um perigo real de que as políticas proteccionistas possam prolongar os efeitos da recessão em vez de resolvê-los. Face a estas dificuldades persistentes, dificilmente haverá um país neste planeta que não esteja a actuar no sentido de proteger a sua indústria nacional, apesar de não existirem muitos governos que apoiem o proteccionismo. À medida que crescem os receios de políticas proteccionistas no sector do vestuário, a UE anunciou que estará vigilante face a actividades nacionalistas, enquanto que os EUA introduziram a polémica legislação “Buy American” para auxiliar a Indústria Têxtil e de Vestuário do país. Em conjunto, os sectores têxtil, vestuário e retalho geram uma grande quantidade de receitas de exportação para muitos países, além de níveis significativos de gastos do consumidor, o que significa que, para começar a recuperação económica, estas são áreas essenciais onde concentrar as estratégias de estímulo fiscal. Numa tentativa de aumentar os gastos dos consumidores e orientar os investimentos para o mercado doméstico de vestuário, as autoridades podem actuar no sentido de criar políticas e barreiras comerciais que podem ser consideradas como proteccionistas. Em períodos de recessão, uma visão desfocada permite sugerir que o proteccionismo pode realmente ajudar o mercado nacional, aumentando as receitas e introduzindo mais oportunidades de trabalho para o crescente número de cidadãos desempregados. Por exemplo, se aos grandes retalhistas for dito que todos os fornecimentos devem ser originários dos Estados Unidos, isso vai ajudar directamente os fabricantes norte-americanos e, por sua vez, criar mais empregos para as massas de desempregados. Actividades nacionalistas No entanto, as iniciativas nacionalistas, como o proteccionismo, podem de facto ser bastante prejudiciais para as outras nações, em particular os países em desenvolvimento, e também para os próprios retalhistas nacionais. Retirar o comércio das economias emergentes, não apenas pára o desenvolvimento, mas pode resultar num recuo dramático no progresso do país. Da mesma forma, condicionar empresas a aprovisionarem apenas a partir de fabricantes nacionais pode resultar num forte aumento dos custos, o que pode originar com que muitos retalhistas em dificuldade acabem por sair do negócio. Se o proteccionismo se tornasse uma estratégia generalizada, causaria o encerramento dos mercados ocidentais ao mundo em desenvolvimento e poderia ser um sinal do fim do livre comércio no sector do vestuário. A sobrevivência do mais forte não é o melhor caminho para a solução rápida da crise mundial. Os economistas de renome internacional sugerem que é essencial a introdução de uma abordagem coordenada de regulamentação global e uma redução nas barreiras comerciais, para a recuperação da economia internacional. Em declarações publicadas no jornal The Times, o embaixador da UE em Washington, John Bruton, declarou que «os mercados abertos continuam a ser a pré-condição essencial para uma rápida recuperação da crise». A implementação de políticas proteccionistas poderia prolongar os efeitos da recessão em vez de resolvê-los. Abrandamento da procura A procura do consumidor norte-americano tem sido, há muitos anos, um dos principais motores do crescimento global e do desenvolvimento, não só da indústria do vestuário, mas de todos os sectores do mercado. No entanto, 2009 tem conhecido um grande declínio na procura por parte do consumidor, não só nos EUA, mas na maioria dos principais países comerciais, algo que tem tido num grande impacto no mercado de exportação mundial. Como resultado da diminuição da procura global e da queda nos níveis de exportação, os economistas previram que o comércio mundial possa cair até 10% em 2009. As crescentes preocupações em relação ao plano financeiro são generalizadas; muitos governos continuam a concentrar-se em estratégias que lhes permitam restabelecer o pleno potencial da sua economia. Muitos países parecem estar focalizados nas suas finanças domésticas ao contrário de impulsionar a economia global como um todo – até Janeiro de 2009 o investimento directo estrangeiro nas economias emergentes caiu cerca de 80%. Muitas nações em desenvolvimento não têm a “folga fiscal” necessária para lançar os seus próprios pacotes de estímulo económico e, com uma diminuição substancial no apoio, as perspectivas para muitas economias emergentes não são positivas. Na segunda parte do artigo, são analisadas as implicações do proteccionismo para a economia.