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Proteger o ambiente – Parte 2

Quando a Nike e a Adidas alteraram a cadeia de aprovisionamento com base nas conclusões de um relatório da Greenpeace (ver Proteger o ambiente – Parte 1), foram abertos novos precedentes para a cooperação multilateral com vista à sustentabilidade. Pressão sobre os fornecedores Sarah Shoraka, da Greenpeace Reino Unido, que trabalhou no relatório sobre o abate da Amazónia, reconhece que a complexidade das cadeias de aprovisionamento torna a situação mais difícil. «Demoramos três anos. Tínhamos de ir disfarçados para rastrear esses produtos na cadeia de aprovisionamento. Ao mesmo tempo, estas empresas têm muito mais recursos do que a Greenpeace», revela. Shoraka afirma ainda que as empresas podem exercer pressão sobre os seus fornecedores no sentido de «fazer as mesmas questões» sobre de onde vem o couro, com a ameaça de deslocar o negócio para outro lugar. A Nike assinou a política Commit or Cancel da Greenpeace, no âmbito da qual as empresas fornecedoras correm o risco da anulação de contratos, a menos que determinadas medidas sejam concretizadas. A Greenpeace está a pedir a mais empresas para seguirem o exemplo. As dificuldades geradas por cadeias de fornecimento complexas tornam o desafio ambiental semelhante às tentativas da indústria para melhorar as condições de trabalho entre os seus fornecedores. E, tal como com a questão laboral, os problemas decorrem do facto de muitos fornecedores estarem actualmente localizados em países em desenvolvimento onde, segundo David Santillo, cientista sénior da Greenpeace Research Laboratories, existe «uma preocupação muito inferior em relação à protecção ambiental e gestão de resíduos». No entanto, alguns acreditam que a disparidade entre as normas em países desenvolvidos e em desenvolvimento é, por vezes, exagerada. Malcolm Ball, presidente da Association of Suppliers to the British Clothing Industry (ASBCI), considera que o investimento em boas práticas ambientais tornou-se «uma parte nobre» do planeamento para os fabricantes nos países em desenvolvimento. E, de acordo com Steve Lamar, vice-presidente executivo da American Apparel and Footwear Association (AAFA), os fornecedores em países em desenvolvimento estão agora a ser informados de novos regulamentos, da procura de novos consumidores e da procura de novos retalhistas, existindo uma maior sensibilidade geral para a sustentabilidade e o meio ambiente. No entanto, embora existam claramente melhorias, o facto da Euratex acreditar que a diferença ainda cria problemas significativos de concorrência para os fabricantes europeus é muito relevante. «Na UE, existe um processo de produção ecológico, algo que não se encontra na China ou na índia ou noutros lugares. Existe um padrão mínimo, decorrente de toda a legislação em vigor, a qual na Europa é muito superior do que em qualquer outro lugar do mundo», refere Adil Elmassi, responsável pelo trabalho ambiental na Euratex. Colaboração entre diversos intervenientes Mas, à medida que se esforça para melhorar as normas ambientais entre os fornecedores dos países em desenvolvimento, a indústria deve ser estimulada pelo progresso registado em matérias laborais, através do trabalho de organizações como a Ethical Trading Initiative (ETI), no Reino Unido, e a Fair Labor Association (FLA), nos EUA. Até agora, a colaboração com diversos organismos tem sido menos prevalente em matéria ambiental e muitos acreditam que a amplitude das questões torna inviável a criação de uma iniciativa multilateral. Steve Lamar, da AAFA, considera que «seria muito difícil criar algo que fosse significativo, porque a questão é muito vasta». Existe mais apoio para a colaboração com diversas entidades, direccionada a áreas específicas e, sem dúvida, a mais bem sucedida nos sectores do vestuário e têxtil, até à data, foi a Better Cotton Initiative (BCI), sugerindo assim que este pode ser o melhor caminho a seguir. Curiosamente, longe de ser prejudicial para as perspectivas de colaboração com diversos organismos, o relatório da Greenpeace parece ter sido um catalisador para o diálogo. A Timberland e outros já manifestaram a vontade de trabalhar com a Greenpeace no assunto e Sarah Shoraka afirmou que “o ramo de oliveira” lá estaria. A Nike parece ter agarrado firmemente esse “ramo de oliveira” e o êxito da cooperação multilateral na melhoria dos padrões laborais sugere que muito poderia ser conseguido se outras empresas fizessem o mesmo.