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Pyongyang sucumbe à moda

Salões de manicura, casas de massagem, cafés e outros sinais do consumismo eram desconhecidos na Coreia do Norte apenas há alguns anos atrás, mas agora estão a emergir lentamente num dos últimos bastiões do socialismo totalitário da Guerra Fria.

A North Korean staff prepares a coffee at a cafe in central Pyongyang, North Korea, in this August 31, 2013 handout. REUTERS/Handout via Reuters

A Coreia do Norte opera uma economia centralmente planeada onde o consumo conspícuo do ocidente não tem lugar. Porém, à medida que a emergente classe média norte-coreana aumenta o seu poder de compra em atividades paralelas, a procura por produtos como cosméticos, smartphones, sumos de fruta importados e vestuário estrangeiro cresce, de acordo com residentes e visitantes.

Existem agora 2,5 milhões de norte-coreanos que detêm uma subscrição de telefone móvel num país com 24 milhões de habitantes. Mesmo algumas fábricas estatais estão a diversificar as suas linhas de produtos, desviando-se da produção de bens necessários ao quotidiano para responder à procura de bens não essenciais. «Ninguém precisa de beber café e ninguém precisa de gastar dinheiro nisso, mas as pessoas fazem-no. Isto é o que está a acontecer em Pyongyang e é uma mudança», revelou Nils Weisensee, um torrador de café da Alemanha, que trabalha com a ONG Choson Exchange, sediada em Singapura, dedicada à formação de norte-coreanos em competências empresariais. O país repressivo e empobrecido está ainda distante de se tornar um paraíso de consumo mas assiste agora à emergência de uma classe de norte-coreanos ricos, denominados “Donju”, o que significa “senhores do dinheiro”, devido à crescente economia paralela.

Alguns Donju despendem o seu dinheiro em aulas privadas de inglês para os filhos ou em vestuário japonês e sul-coreano, segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Unificação Nacional, uma organização gerida pelo governo sul-coreano, em Seoul. «As pessoas podem escolher entre pastas dos dentes que usam cristais e nanotecnologia que as tornam mais eficaz do que a pasta dos dentes normal ou um sabor especial para crianças», apnta Weisensee.

Muitos dos Donju enriqueceram comerciando em mercados paralelos ou através da criação de pequenos negócios. Alguns negócios operam como uma forma de parceria público-privada, na qual os colaboradores de empresas estatais são autorizados a iniciar negócios, quase-autónomos, lucrativos. Cerca de 70% do lucro remete para o estado, ficando o restante na posse dos indivíduos, de acordo com desertores do país, incluindo Choi Song-min, que geria um serviço de expedições, antes de fugir para o sul em 2011. «Por exemplo, no ramo do Ministério dos Transportes da cidade de Chonggjin, podem dizer aos seus patrões: “e se vendêssemos café às pessoas que esperam pelos nossos autocarros”», contou Choi, que agora escreve para o Daily NK, um site baseado na Coreia do Sul, que tem contacto regular com fontes do norte da península.

Na secção de alimento dos grandes armazéns Kwangbok, no centro de Pyongyang, consumidores endinheirados têm à sua disponibilidade uma ampla variedade de alimentos de consumo, como sumos de fruta, chocolates e refrigerantes, indica Troy Collings da agência Young Pioneer Tours. «As pessoas não estavam apenas a comprar bens alimentares básicos. Estavam a considerar outros fatores além do preço, comprando sumo de laranja importado em vez de local, por exemplo», explicou Collings, que organiza viagens regulares à Coreia do Norte. Até o líder Kim Jong Un foi citado dizendo que os cosméticos norte-coreanos devem competir em qualidade com as marcas de luxo estrangeiras, como Chanel e Christian Dior, segundo com o jornal Choson Sinbo, um periódico apoiante do regime norte-coreano no Japão. «Estes novos-ricos que fazem dinheiro nos mercados precisam de um canal de consumo», afirmou Ahn Chan-il, um desertor e antigo agente secreto sul-coreano, que recebe informações de contactos na Coreia do Norte. «Coisas como carros, massagens, lotaria, cães domésticos. Os norte-coreanos estão já a usufruir da economia de mercado, não o regime», acrescentou Ahn. O capitalismo de consumo norte-coreano está ainda a dar os primeiros passos, dizem residentes de Pyongyang.

Os cortes de energia crónicos, o governo brutalmente repressivo e a corrupção impregnada atrasam e limitam o ritmo de mudança. «De que servem esses novos espaços de decoração kitsch, que imitam maioritariamente a vida dos novos-ricos chineses, se não há eletricidade para cozinhar os alimentos?», questiona uma fonte diplomática em Pyongyang. Uma área central de Pyongyang, jocosamente reconhecida pelos residentes estrangeiros como “Pyonghattan” ou “Dubai”, aloja grandes armazéns dispendiosos, um restaurante de sushi e um café aberto 24 horas por dia. «Frequentemente não somos atendidos, não por sermos estrangeiros, mas porque simplesmente não existe energia para operar a cozinha. Boa-sorte em conseguir uma refeição decente em Pyongyang depois das dez da noite», referiu uma fonte.

Os desertores afirmam que este impulso consumista se estende para lá de Pyongyang, onde mercados movimentados e estações de comboio incluem agora pequenas bancas de café e a utilização de joalharia é um símbolo exterior e aceite de estatuto. Ahn adiantou que é na cidade vizinha de Pyongsong que os norte-coreanos mais abastados residem, tendo prosperado em resultado dos negócios grossistas de bens importados da China. Choi revelou que a tendência de beber café entre os norte-coreanos endinheirados surgiu no ano passado: «De forma a parecerem cool, os Donju, membros do partido e jovens, como os estudantes universitários, vão aos cafés para conhecer pessoas», explicou. Lentamente e a passo irregular, os bens e as tendências consumistas do ocidente vão penetrando no fechado regime norte-coreano.