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«Quando o cliente chega à Tabel, tem tudo»

Humberto Salgado, CEO, e Francisca Salgado, a segunda geração a liderar a empresa, explicam os próximos passos da Tabel e o caminho a palmilhar para aumentar a exportação, que está a crescer graças a coleções mais sofisticadas e à presença em salões profissionais, onde tem atraído clientes da Europa e não só.

A estamparia digital chegou à Tabel há cerca de uma década com o objetivo de complementar a oferta da empresa. Hoje, a capacidade instalada ronda os 20 mil metros diários, mas os planos são subir aos 30 mil metros, após a recente aquisição de uma máquina single-pass, para dar resposta à procura internacional.

O que levou a Tabel a apostar na estamparia digital?

Humberto Salgado – Começámos a investir na estamparia digital com a tecnologia que havia há cerca de 10 anos. Fomos melhorando conforme os fabricantes foram também construindo novas máquinas, que permitem mais rapidez e qualidade. Hoje já está numa fase de maturidade – mais de 90% dos equipamentos fazem produção com muita qualidade. Em 10 anos, alguns dos fabricantes conseguiram os objetivos que nós, empreendedores, queríamos para enfrentar o mercado, que não é fácil. A tecnologia que temos hoje no digital dá-nos a possibilidade de fazer muito rápido – em 24 ou 48 horas entregamos ao cliente onde quer que ele esteja, seja na Europa, na Ásia ou em qualquer parte do mundo. A tecnologia digital veio também numa fase muito importante, e grave, de falta de mão de obra. Esta tecnologia veio favorecer o emprego de quadros superiores, mão de obra qualificada, que neste momento interessa ao país. As universidades ensinam bem os nossos jovens, que saem com uma boa formação.

Qual foi a ordem do investimento em estamparia digital até à data?

Humberto Salgado – Foi um investimento muito forte, entre os dois e os tês milhões de euros, e continuamos a investir. Estamos a comprar uma máquina nova, juntamente com outros equipamentos, num investimento de cerca de três milhões de euros, com capitais próprios.

Qual é o objetivo desta nova máquina single-pass?

Humberto Salgado – Aumentar a produção. Atualmente, a nossa capacidade de estamparia digital é de cerca de 20 mil metros por dia. Chega para o mercado que temos, mas precisamos de aumentar a produção para reforçar o mercado europeu. Com esta máquina vamos chegar a uns 30 mil metros por dia, para abastecer o mercado de exportação.

Que mais-valias trouxe o investimento em estamparia digital?

Humberto Salgado – É mais um complemento que a empresa tem, responde a uma necessidade de fidelizar os nossos clientes no grupo Tabel, que aqui têm estamparia convencional, estamparia digital e estamparia à peça. Costumo dizer que, quando o cliente chega à Tabel, tem tudo.

Outro grande investimento que fez foi nas instalações da empresa.

Humberto Salgado – É preciso criar boas condições tanto para os nossos colaboradores, como para os nossos clientes e fornecedores. A equipa merece que melhoremos cada vez mais. O êxito não é só das máquinas, vem também das condições que temos. Os colaboradores, se estiverem bem, produzem mais e têm mais interesse em trabalhar. Acho que a minha grande vantagem é conseguir que os nossos colaboradores estejam contentes, que vistam a camisola.

Nestes dois últimos anos, quanto investiu, incluindo as novas instalações?

Humberto Salgado – Em investimento total, estaremos nos 6 milhões de euros.

A sustentabilidade está hoje na ordem do dia. Que iniciativas, para além da estamparia digital, que é uma tecnologia mais limpa que a convencional, tem empreendido o grupo neste domínio?

Humberto Salgado – A estamparia digital é mais ecológica, mas também a convencional hoje é outra coisa, não há poluição, as águas são tratadas. O grupo Tabel é um grupo verde, que investe em tecnologia fotovoltaica, já instalámos 2.100 painéis. Temos 1.600 kVA e isso reduz uns 80% mais ou menos do custo de energia, que não é preciso abastecer da EDP. Temos os telhados cobertos de painéis fotovoltaicos e, portanto, estamos a abastecer-nos com energia limpa. E vamos sempre investir nessa base.

Há cerca de um ano apostou na Première Vision Paris. O que esta feira mudou no negócio da Tabel?

Humberto Salgado – Fez com que realmente precisássemos de aumentar a produção na estamparia digital e também aumentou a produção na convencional. Houve um impacto muito forte no futuro do nosso grupo. Por isso tivemos que avançar com mais investimento para conseguir dar resposta aos clientes novos que entraram no grupo Tabel. A Première Vision abriu-nos o mercado e aumentou sensivelmente em mais 30% os clientes que tínhamos. Em termos de mercados, não são diferentes, porque estão todos na Europa.

Francisca Salgado – Houve também uma evolução muito grande a nível do desenvolvimento dos tecidos e malhas. Deixaram de ter desenhos simples, estão mais sofisticados.

Já tinha expectativas elevadas para a participação na feira. Um ano depois pode dizer que se cumpriram?

Humberto Salgado – Superou. Vamos agora fazer a edição de fevereiro e temos perspetivas muito boas em alcançar novos clientes de países da União Europeia, logicamente, e de outros mercados, como a América – na feira aparecem clientes dos EUA, do Brasil… O mundo todo aparece lá.

Que mais-valias traz, para o mercado, a coleção primavera-verão 2020 que vai apresentar em Paris?

Humberto Salgado – Vai ter um impacto muito elevado no sector da moda, não digo mundial mas a nível europeu, face à criatividade e à inovação que incorporámos nos tecidos e malhas. O trabalho efetuado ao longo destes últimos três meses foi muito grande para que conseguíssemos realmente ter uma coleção, tal como o investimento que fizemos, para mostrar que a Tabel está no mercado e vai continuar a estar com design e inovação garantidos. Vamos mostrar novas técnicas de estampar digital, com novos corantes, que no mercado ainda não se estão a praticar. Queremos ser diferentes e vamos ser diferentes.

Francisca Salgado – Temos uma grande diversidade de desenhos, principalmente de senhora, mas também para criança. Já tínhamos para homem. E também alargámos a linha para fatos de banho, calções e biquínis em poliamida.

Quais são os principais países de exportação da Tabel?

Humberto Salgado – França, Holanda, Alemanha, Espanha e também a Bélgica, que é um mercado muito bom. França, Alemanha e Holanda foram mercados novos conseguidos na Première Vision. Mas o grupo Tabel também se apoia bastante nos clientes portugueses. Os produtores nacionais são muito bons e continuamos a querer aumentar também a oferta para os nossos industriais. É um mercado muito forte.

Como estão distribuídas as vendas entre os mercados nacional e internacional?

Humberto Salgado – Cerca de 40% é exportação, mas queremos crescer mais.

E entre a estamparia tradicional, a digital e à peça?

Humberto Salgado – Na estamparia à peça não exportamos – trabalhamos para o mercado de fabricantes portugueses. Entre a estamparia convencional e a digital, as vendas estão divididas 50%/50%. A procura pela estamparia digital aumentou mais na exportação – 60% ou 70% é digital, o resto é convencional.

Como sente o mercado?

Humberto Salgado – O mercado está incerto. A política mundial também não está a ajudar, os mercados não abrem. Isso é uma grande desvantagem.

Abriu agora o Japão, com o acordo com a União Europeia…

Humberto Salgado – Estamos interessados no mercado japonês. Estamos a tentar abrir o mercado com uma primeira feira que vamos fazer, se não for este ano, será no próximo.

Como correu o ano de 2018?

Humberto Salgado – Trabalhámos muito, mas tivemos que manter os preços dos anos anteriores. É um combate que temos. O artigo em si também não deu para evoluir muito em termos de faturação – não é um artigo tão exigente, é um artigo simples e o simples tem menos valor acrescentado.

É o mercado que dita esse tipo de artigo?

Humberto Salgado – Sim. O mercado está muito concorrencial.

Qual foi o volume de negócios no último exercício?

Humberto Salgado – Aumentámos cerca de 20% em comparação com 2017 e devemos terminar aproximadamente com 10 milhões de euros de faturação no grupo Tabel.

Todos os recentes investimentos tiveram a ver com o facto de ter uma nova geração ao seu lado?

Humberto Salgado – Sim. Dá-me uma força muito grande ter aqui uma seguidora que faz parte da minha vida. Se não fosse isso talvez não fizesse o investimento que estou a fazer. E continuo a ser empreendedor derivado também do impulso dela, da força de vontade de criar novos métodos de trabalho, que está a desenvolver na empresa, com os nossos colaboradores. É muito fixada naquilo que está a fazer e gosta daquilo que faz. É importante que esta empresa tenha uma seguidora. A minha família é um pilar, e se não fosse assim nada se fazia daqui para a frente. Eu acredito muito na minha equipa, ela é muito importante – sem a minha equipa não consigo e ela sem um bom gestor também não consegue lá chegar. Ter uma seguidora aqui a trabalhar é muito importante, alterou completamente a minha vida. Ganhei muita força, muito entusiasmo. Olho sempre para o presente, mas também acredito muito no futuro e por isso é que continuo a investir, para acompanhar os nossos clientes, tanto no mercado português como estrangeiro. Acredito que aquilo que aprendi, o know-how que tenho e que quero transmitir à minha filha, que neste caso é minha sócia, é importante.

O que mais a surpreendeu na empresa quando aqui começou a trabalhar, há cerca de um ano?

Francisca Salgado – A parte do design. Gosto muito da parte da criação, de fazer desenhos, de desenvolver coleções, de transpor os desenhos, seja numa camisa, seja num vestido, seja numas calças, até na parte de cama.

O que distingue a Tabel das suas homólogas no mercado?

Humberto Salgado – Só lhe posso dizer que quero ser diferente. Quero investir para ser diferente no mercado e não ser igual aos meus colegas. Competir sempre com uma mais-valia de faturação, mas nunca tentar fazer os que os outros fazem. Esta empresa tem de ser diferente.

Mas estou aberto, sou amigo de toda a gente, quero que corra muito bem para toda a gente, para que eu também possa existir. O bem dos meus colegas também é o meu bem.

Sente que ainda falta algo à empresa?

Francisca Salgado – Já estamos muito organizados mas acho que ainda precisamos de mais organização, principalmente na parte produtiva.

Que desafios se colocam em 2019?

Humberto Salgado – Preocupa-me ter um artigo de qualidade, rapidez e reduzir os custos energéticos. E que o Governo olhe para nós com boa cara, que nos dê força, porque é importante que nos ouça e não esqueça que é das indústrias que sai a riqueza para o país.