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Quando o custo não é baixo o suficiente

O Bangladesh, Camboja, Malásia, Singapura, Tailândia e Vietname são conhecidos como paraísos da indústria de vestuário, pelos reduzidos custos de produção que conseguem oferecer. Contudo, são também os países que mais pressão sofrem por parte dos compradores para manter os preços baixos.

Bangladesh

O relatório de 2019 do Better Buying Index, que visa promover a melhoria das práticas de compra nas cadeias de aprovisionamento da indústria de vestuário, calçado e têxteis-lar, concentrou-se este ano, pela primeira vez, em averiguar as estratégias de scourcing aplicadas pelos compradores aos respetivos fornecedores. Reunindo informação de 715 fornecedores, distribuídos por 52 países, que avaliaram o desempenho de 71 retalhistas e marcas diferentes nos sectores do vestuário, calçado e têxteis-lar, a análise concluiu que as regiões que praticam custos de produção mais reduzidos, como o sudeste asiático (Camboja, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietname) e o Bangladesh, são as mesmas que suportam uma pressão maior por parte dos compradores para cortar os preços.

Agravando estas condições, o relatório averiguou que esta pressão vai crescendo à medida que a relação entre ambas as partes se prolonga. De facto, o número de anos contabilizados na parceria negocial fornecedor-retalhista regista uma associação negativa no que toca ao parâmetro Custo e Custo de Negociação – em contrapartida, o seu sentido inverte-se ao nível do Design e Desenvolvimento. Isto significa que, apesar do fornecedor evidenciar um progresso contínuo na compreensão das expectativas do cliente, a pressão para manter os preços reduzidos é crescente, ao longo do tempo.

Estratégias de pressão

No entanto, um dos benefícios garantidos às regiões que apresentam condições de trabalho precárias, como o Bangladesh, prende-se com a atribuição de incentivos de produção para cumprirem as encomendas solicitadas, enquanto os EUA, por exemplo, raramente recebem este tipo de estímulos para obedecer ao código de conduta do comprador.

Por outro lado, o estudo revela que uma maior percentagem dos fornecedores de Bangladesh recebe previsões de encomenda com maior antecedência, o que lhes garante uma maior organização da produção, para a qual também contribui um padrão anual de encomendas relativamente estável. Neste sentido, foi nomeado, a par da América Latina, como o território com melhores hábitos de compra por parte dos retalhistas. Não obstante, estas estimativas são frequentemente falaciosas, o que resulta em elevadas percentagens de capacidade inutilizada ou linhas de produção vazias.

No outro extremo do espetro estão os fornecedores da Turquia, cujas estimativas de encomenda são rececionadas com menor frequência ou, então, tardiamente, mantendo, contudo, o mesmo nível reduzido de fiabilidade. Adicionalmente, poucos são aqueles que recebem incentivos para obedecer às exigências de produção, além do padrão mensal destas encomendas ser muito volátil. «Os fornecedores estão certamente a sentir as tensões interrelacionadas das previsões falaciosas e tardias, dos preços baixos e da grande variabilidade de encomenda dos seus compradores, o que pode lhes pode dificultar a abordagem a preocupações superiores sobre a subcontratação e o trabalho precário», afirma o documento. No entanto, a Turquia prima pelo seu modelo de fast-fashion, que reduz significativamente a frequência de capacidade produtiva inutilizada.

Turquia

Deste modo, a região que concentra as piores práticas dos retalhistas/marcas no que toca à relação com os fornecedores é o sudeste asiático. Com efeito, a sua atividade ao nível do parâmetro Custo e Custo de Negociação ocupa o antepenúltimo lugar no Better Buying Index, além de estar entre os piores classificados no que diz respeito à Gestão do Processo de Compra, comparativamente a 10 outros locais. Além disso, os fornecedores desta região recebem com menor frequência incentivos para cumprir a produção.

Por consequência, os compradores recorrem a estratégias de pressão que passam pela exigência de um nível de preços anual, sem qualquer consideração sobre o impacto da inflação (37,2%) e abordagens de “pegar ou largar” em que os fornecedores são obrigados a cumprir os objetivos de custo, sob o risco do retalhista/marca rejeitar a encomenda (27,9%). Por outro lado, os inquiridos destacam ainda que sofrem comparações com base no preço, sem ter em conta toda a sua gama de atributos e vantagens (41%) – os retalhista/marcas esperam que os mesmos sejam capazes de atender a elementos específicos de estruturas de custos de outros fornecedores (41%) e tinham muito pouco tempo para responder às exigências de preços (28,2%).

O relatório sustenta igualmente que «enquanto região onde muitos países são procurados pela sua mão-de-obra barata, a percentagem muito reduzida de encomendas com preços para cobrir o cumprimento da produção é surpreendente, assim como o uso frequente de estratégias de negociação de custo que pressionam fortemente o negócio dos fornecedores. Isto realça a questão de que quando é baixo, é baixo o suficiente?».

Chave para o futuro

Como forma de contrariar estas pressões, o relatório defende que «as cadeias de aprovisionamento do futuro irão necessitar de ser estruturadas para ir ao encontro de uma procura de mercado volátil e providenciar uma continuidade de aprovisionamento, apesar da ambiguidade das políticas [de sourcing]» além de «contribuir positivamente para o ambiente e as pessoas envolvidas no processo de produção».

O Better Buying refere que a chave para o futuro está na criação de parcerias justas, estratégicas e mutuamente lucrativas entre o fornecedor e o retalhista, «que se baseiam nas principais competências e forças que cada um incorpora, entre as quais os benefícios que atingem juntos são partilhados de forma justa». Neste contexto, o relatório assume a necessidade de serem estabelecidas parcerias duradouras entre ambas as partes, ao invés de relações de interesse de curto prazo em busca do melhor negócio comercial ou do custo mais reduzido. «Trabalhar de forma mais estratégica com os fornecedores irá ajudar os retalhistas/marcas a diminuir custos de operação e auxiliar a manutenção da qualidade do produto, esperada pelos seus clientes», explica o estudo.

A iniciativa Better Buying está a projetar um novo processo de feedback cíclico para ajudar a converter as classificações do fornecedor sobre práticas de compra da marca ou do retalhista em ações concretas e mais parcerias de negócio sustentáveis com impactos mensuráveis.