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Quanto custa o “made in USA”?

Ainda que a Nasty Gal e a American Apparel – que abriram falência recentemente – tenham dado diferentes justificações, incluindo questões legais e má gestão, para os seus acidentes financeiros, um outro critério que foi considerado chave para os analistas foi o facto de ambas as marcas terem a maior parte da sua produção nos EUA.

Os salários elevados e os custos da etiqueta “made in USA”, embora respeitosos das exigências éticas, custam caro às marcas. Nos últimos anos, sobretudo aquelas posicionadas no segmento médio que procuram manter esse estatuto, têm enfrentando obstáculos que as concorrentes de moda rápida conseguem facilmente contornar, oferecendo designs semelhantes com o mínimo de problemas financeiros.

O mercado de moda global é agora uma indústria de quase 3 biliões de dólares (aproximadamente 2,8 biliões de euros) anuais. Embora se possa pensar que os designers high-end sejam os principais contribuintes, a maioria dos lucros é atribuída à indústria de moda rápida. Empresas como a retalhista off-price TJX, por exemplo, geraram quase 31 mil milhões de dólares em receitas no ano passado.

Deste modo, não causa particular surpresa que uma em cada seis pessoas trabalhe, direta ou indiretamente, na indústria de vestuário. Mais do que isso, estes fatores fazem da indústria de vestuário a mais dependente da força de trabalho, grande parte terceirizada ao mundo em desenvolvimento. De acordo com o Workers Rights Consortium, organização independente de direitos dos trabalhadores que monitoriza as condições de trabalho em fábricas em todo o mundo, a H&M é a maior fabricante de vestuário no Bangladesh.

Até à década de 1960, os EUA ainda respondiam com 95% da produção das suas roupas. Em 2015, apenas 3% foram produzidas nos EUA e 97% da produção de vestuário foi terceirizada. Para a maioria dos retalhistas de moda rápida, a deslocalização da produção para países como o Bangladesh, Índia, Camboja, China e Vietname faz todo sentido, considerando os baixos salários, o direito do trabalho e os acordos de livre comércio.

A retórica “quanto mais baixo o preço, maior o lucro” decorre também do facto de a maioria dos americanos não se preocupar com a forma como as suas roupas são produzidas desde que sejam baratas. Na realidade, uma pesquisa da Gallup de 2013 revelou que mais de 55% dos consumidores americanos não fazem qualquer tipo de esforço para descobrir onde o vestuário foi fabricado quando estão às compras. As marcas novas estão cientes disso e, portanto, não assumem o risco financeiro da produção doméstica.

«Toda a indústria está a pedir preços mais baixos. As marcas vão dizer publicamente que não é o seu caso, mas off the record, se perguntarmos a qualquer fábrica qual é, atualmente, o seu maior problema a resposta será: “a intensa pressão dos clientes para baixar o preço”», afirmou Edward Hertzman, fundador do Sourcing Journal Online, uma publicação que cobre a cadeia de aprovisionamento de têxtil e vestuário, ao portal The Business of Fashion.

Com artigos novos a chegar às lojas todas as semanas, e não a cada estação, as marcas têm agora 52 estações por ano. A fim de sustentarem esta produção em larga escala de forma eficiente, mantendo os preços baixos, as marcas olham para as unidades de produção de países em desenvolvimento como uma opção viável e rentável.

Atualmente, mais de 4 milhões de pessoas trabalham nessas fábricas sendo que, no Bangladesh, por exemplo, um trabalhador médio ganha cerca de 67 dólares por mês.

Além disso, mais de 85% desses trabalhadores são mulheres que não têm benefícios de saúde ou qualquer forma de segurança financeira. A sindicalização é ilegal e as condições de trabalho intoleráveis.

Contudo, os baixos salários e as condições de trabalho indignas são justificadas pela maioria das grandes empresas com o argumento de, em última instância, estas serem geradoras de emprego nas regiões. Infelizmente, mesmo tragédias como o colapso de Rana Plaza, em Dhaka, no Bangladesh, que ceifou a vida a mais de mil trabalhadores, pouco serviram para mudar o seu ponto de vista. «As oportunidades de reinventar a cadeia de aprovisionamento foram perdidas e não posso dizer com qualquer confiança que não haverá uma repetição de Rana Plaza em termos de escala. Centenas de pessoas perderam a vida, ficaram feridas ou tiveram a sua saúde comprometida com a produção de roupa desde Rana Plaza e a indústria de vestuário continua a ser perigosa, poluente e intensiva na utilização de energia quando não precisa de ser nenhuma dessas coisas», apontou Lucy Siegle, jornalista britânica e autora do documentário “The True Cost”, numa entrevista.

Mas quão difícil pode ser para uma indústria de biliões de dólares pagar salários justos aos seus trabalhadores e garantir o mais básico dos direitos humanos? Os riscos da cadeia de aprovisionamento são, em última análise, sofridos pelos mais vulneráveis, que não têm alternativa senão fazer parte dela.

No entanto, a indústria está lenta, mas certamente, a mudar. O grupo Kering, que detém marcas como a Stella McCartney, tem pavimentado o caminho da moda sustentável. Já no início deste ano, a Burberry anunciou planos para investir 50 milhões de libras (aproximadamente 59 milhões de euros) na expansão e relocalização da maior parte da sua produção no norte de Inglaterra. Já a People Tree, Brooks Brothers e a Zady são marcas emergentes que se têm esforçado por acompanhar a líder Reformation na corrida sustentável.

Olaf Schmidt, vice-presidente de têxteis e tecnologias têxteis na Messe Frankfurt, elogiou também recentemente o facto da sustentabilidade estar a assumir-se como fator determinante no horizonte de compras dos consumidores. «Os consumidores têm agora à escolha uma ampla gama de marcas de moda contemporânea enraizada na sustentabilidade. Por exemplo, nas nossas feiras, mais de 160 marcas apresentam as respetivas coleções a cada estação e trabalham de forma sustentável e transparente», sublinhou.