Início Notícias Mercados

Quem ganha com a guerra comercial EUA-China?

Em vez de devolver a produção aos EUA, a guerra comercial parece ter acelerado a mudança na produção da China para países como o Vietname e a Índia. A mão de obra norte-americana pode também não estar preparada para um possível reshoring.

De acordo com o índex da consultora A.T. Kearney, revelado pelo just-style.com, o aumento dos produtos importados dos EUA provenientes dos 14 maiores produtores de baixo custo da Ásia, subiu, em 2018, 66 mil milhões de dólares (cerca de 58 mil milhões de euros), ou seja, 9%. Trata-se da maior subida anual desde o início da recuperação económica.

Comparativamente, nos EUA, a produção industrial bruta cresceu apenas 6% em 2018. Há várias questões que justificam o facto de as novas políticas comerciais do país não terem resultado em reshoring – especialmente quando o objetivo era precisamente potenciar a produção “Made in America”.

Tal significa que, do ponto de vista económico, produzir em países de baixo custo continua a ser mais benéfico do que o produzir nos EUA. Os benefícios fiscais concedidos pelo governo norte-americano não superam os custos de produção significativamente mais baixos encontrados na Ásia. Além disso, o relatório sugere que a mão de obra nos EUA anda não está pronta para o reshoring.

Em 2018, o índex diminuiu, pelo terceiro ano consecutivo, em 32 pontos base, indicando que os produtores continuam a olhar para os países de custos reduzidos como melhores destinos de produção e compra de uma grande variedade de produtos do que para os próprios EUA, não obstante às medidas comerciais impostas por Washington.

Os entraves ao reshoring

Os custos de produção na China têm vindo a aumentar, consequência direta das tarifas adicionais impostas sobre alguns produtos. No entanto, estes já estavam a subir anteriormente devido ao aumento dos custos laborais no país, que levou a que muitas empresas mudassem as operações de aprovisionamento para países vizinhos, como o Vietname ou a Índia. A guerra comercial simplesmente acelerou esta mudança, afirmam os autores do relatório, Johan Gott e Patrick Van den Bossche.

Xi Jjinping e Donald Trump

As consequências para a China da guerra comercial com os EUA resultaram numa diminuição da sua quota de importações dos EUA em 60% no primeiro trimestre de 2019, uma quebra de 900 pontos base em relação ao trimestre anterior. A redução equivale a uma perda de 72 mil milhões de dólares em importações – mais do que o total de valor de importações da Índia (51 mil milhões de dólares), que representa a segunda maior quota nas importações para os EUA dentro dos países de baixo custo.

«A acentuada queda no primeiro trimestre de 2019 deve-se parcialmente ao facto das empresas dos EUA terem procedido ao armazenamento de stocks de produtos importados da China no terceiro trimestre de 2018, de forma a anteciparem-se às já planeadas subidas nas taxas e, parcialmente, devido a mudanças estruturais nas estratégias de sourcing dos produtores», justifica o relatório.

O crescimento do Vietname

Os produtores estão a diversificar mercados, saindo da China rumo a países de baixo custo como o Vietname, que captou em 2018 cerca de 36 mil milhões de dólares em importações para os EUA, metade dos 72 mil milhões de dólares perdidos pela China. Exemplos disto são marcas como a Nike e a Adidas que, segundo o relatório, aumentaram a sua quota de produção no Vietname – de 30% para aproximadamente 45% ao longo dos últimos 10 anos – à custa da China.

Em cinco anos, de 2013 a 2018, as importações do Vietname para os EUA mais do que duplicaram, de 21,7 mil milhões para 47,7 mil milhões de dólares. Este aumento supera as taxas de crescimento dos outros países asiáticos. Entre o primeiro trimestre de 2018 e o primeiro trimestre de 2019, as importações do Vietname para os EUA subiram 36%, enquanto as importações da China para território norte-americano baixaram 13% no mesmo período. A contribuir para este crescimento estão custos laborais mais reduzidos do que na China, a proximidade às cadeias de aprovisionamento do Sudeste Asiático e um conjunto de políticas comerciais extremamente favoráveis ao investimento direto internacional.

A evolução dos investimentos em infraestruturas no Vietname também contribuiu para a recente subida. «Se o Vietname continuar a crescer a este ritmo tão acelerado ao longo do que resta de 2019, o aumento poderá traduzir-se num ganho adicional equivalente a 17 mil milhões de dólares de importações» pode ler-se no relatório.

Será que o reshoring ainda pode acontecer?

O relatório sugere outro fator que se opõe ao regresso da produção aos EUA: a falta de preparação da força laboral norte-americana. Em 2018, a taxa de emprego na área da produção industrial cresceu, pelo quinto ano consecutivo. A taxa de emprego aumentou anualmente 48 pontos base, de uma média de 3,1% em 2017 para 3,6% em 2018.

A falta de mão de obra foi mais evidente para posições de operadores de máquinas altamente qualificados, assim como de gestores, revela o relatório. «Se querem que a produção regresse aos EUA, é necessário analisar a falta de mão de obra. Como a natureza da situação não se altera desde 2017, o caminho é o mesmo: os produtores devem realizar parcerias público-privadas e investir em formação», sugere o relatório.

O estudo prevê que, se a guerra comercial com a China se mantiver ou piorar, a produção industrial bruta irá seguir a sua tendência descendente, ao ponto de colocar a produção nos EUA nas mesmas condições de 2016, altura em que houve uma contração na produção.

Por outro lado, uma diminuição nas tarifas poderia reverter as recentes diminuições nas exportações dos EUA e aliviar a pressão inflacionária sobre os produtos. A produção industrial bruta poderia, por sua vez, recuperar da queda do primeiro trimestre e crescer em 2019.

«Podemos antecipar que o índex de 2019 será profundamente moldado pela evolução dos conflitos comercias que surgiram por todo o mundo ao longo dos últimos três trimestres. Na pior das hipóteses, a guerra comercial irá escalar e o governo não conseguirá realizar os investimentos necessários para potenciar a competitividade e atratividade dos EUA. Um dia, poderá acontecer o reshoring, mas este benefício virá a custo da contração da economia doméstica e global».