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Quem produz mais barato?

China, China, China. Todos os caminhos de fornecimento vão lá ter, com ou sem quotas, isto segundo um estudo anterior à liberalização da Kurt Salmon Associates (KSA) e da Apparel Commerce. Mesmo quando a China não lidera a lista dos 75 países mais procurados, aparecendo em quarto lugar, é considerada pelos especialistas em fornecimento sem qualquer dúvida o país produtor mais importante. «Para esta eleição contribuem vários factores e não apenas a dimensão e os baixos custos de mão-de-obra», esclarece Hagen Decker, responsável da KSA. «Muitos consideram apenas o preço de compra, mas esta atitude é errada».

Pela primeira vez constam da análise, actualizada bienalmente desde 1991, a dimensão macroeconómica de cada país: avaliam-se os riscos políticos, económicos e financeiros. Paralelamente ao índex do custo da produção figuram pela primeira vez no índex do custo de sourcing os custos inerentes à logística. Nos custos de produção incluem-se os custos médios de mão-de-obra por cada minuto de trabalho, o tempo gasto com um determinado passo do processo de produção, a quantidade produzida, o número de dias de trabalho por ano, o número de horas de trabalho por dia, os níveis de produtividade e os custos de transporte. Este Atlas de Sourcing de 250 páginas compila dados da situação económica, população, PIB, desenvolvimento do câmbio e investimentos estrangeiros directos. É um indicador do caminho a seguir na “selva mundial do fornecimento”. «Esta referência global de sourcing dirige-se sobretudo a compradores e fornecedores. A indústria também pode através deste documento experimentar as suas estratégias», diz Andreas Novak da Apparel Commerce.

Ranking

O Uzbequistão é o país mais vantajoso em termos de produção e a Alemanha o mais caro. Os dez países com os custos de produção e de sourcing mais baixos são os asiáticos. Os dez mais caros são quase exclusivamente europeus. Será então a solução uma mudança radical para a Ásia? Decker e Novak não aconselham esta atitude. Na realidade não podem aconselhar o fornecimento no Uzbequistão, mesmo quando os custos de mão-de-obra são imbativelmente dois cêntimos por minuto mais baratos. «Os meios técnicos disponíveis, a qualidade de produção, as capacidades a nível da moda, todos estes factores não estão ainda devidamente desenvolvidos», enumera Decker. Considerando também os standards sociais, as condições de trabalho e os critérios ambientais este país deixa de ser ideal como fornecedor. No que diz respeito à produção pode já ser considerado, uma vez que os produtores têm bastante know-how. Também no Paquistão as costureiras ganham apenas 2 cêntimos por minuto, consequentemente os custos de mão-de-obra são os mais baixos mundialmente nestes dois países. No caso do Vietname, um país que se situa em terceiro lugar à frente da China, adiciona-se outros factores como o de ser, «um país extremamente atractivo sobre o qual até ao momento não se fala muito», diz Novak. «Lá podemos sem preocupações produzir quase todos os básicos».

País dos sete ofícios

E mais uma vez já estamos na China. Segundo os cálculos da KSA, os custos de mão-de-obra descem ainda mais. Desde 1999 que quase desceram para metade, enquanto que noutros países como a Chechénia, Ucrânia e Turquia subiram ligeiramente ou pelo menos mantiveram-se estáveis. Os analistas explicam este facto através da mudança das zonas industriais da zona costeira para as zonas interiores menos desenvolvidas. Os custos de emprego e produção nas zonas costeiras são em média um cêntimo mais elevados do que nas zonas interiores, reflectindo-se este valor na posição do ranking. Simultaneamente, os investimentos em instalações modernas e um novo know how resultaram num aumento da produtividade. «Os chineses conseguem fazer tudo», sublinha Decker. Os grandes retalhistas, que também vendem por exemplo DVDs, podem facilmente abastecer-se neste país e não apenas em grandes quantidades a preços baixos. Os chineses aprenderam facilmente a ter qualidade, os riscos políticos e económicos são diminutos e o risco financeiro muito pequeno. Apenas a distância continua a ser um problema e quando se trata de um produto de moda, a Europa de leste e a Turquia estão muito melhor posicionados», diz Decker.

Mesmo quando a Bielo-Rússia se situa na 23ª terceira posição, sendo o primeiro pais do continente europeu no ranking, a Europa de leste continua a ser um parceiro importante de produção. Novak, «neste caso é novamente importante a rapidez dos preços mais elevados». A vantagem de viajar de carro mais rapidamente até à Turquia existirá sempre. A situação é idêntica no que diz respeito aos portugueses que com custos de fornecimento de 18 cêntimos se situam em 54º lugar e continuarão a produzir como anteriormente. Na opinião de Decker não existe o país ideal de produção. Os comerciantes e produtores devem escolher o país de fornecimento de acordo com o produto e necessidades. «Tenho de considerar todos os custos da cadeia de produção. Se no final do processo em cada cinco artigos obtiver 30 por cento de cópias do artigo acabado consegui obter rapidamente uma vantagem do custo de mão-de-obra de um ou dois cêntimos.

Gestão das Margens

Três hipóteses: 2 ou 3 por cento de acréscimo nas margens, despedir 7000 trabalhadores ou então bancarrota. Uma empresa esteve perante este problema e através da ajuda de um consultor conseguiu elevar as margens trabalhando a cadeia de fornecimento. «Só através do fornecimento correcto se pode actualmente fazer crescer as margens. O aumento do volume de negócio deixou há muito de ser possível». Os consultores analisam cuidadosamente os vários tipos de fornecimento e encontram artigos que não necessitam de ser produzidos para quick response, mas que poderiam ser planeados mensalmente. Uma parte da produção que era enviada para a Turquia foi desviada para a China. O tempo de entrega passou de 4 para 6 meses. Só no vestuário de exterior o preço de compra baixou cerca de 34 por cento. «A produção em baixo de época é uma modalidade para muitos comerciantes, particularmente no que diz respeito aos básicos. Isto já pode aligeirar o preço de compra na ordem dos 2/3 por cento», afirma Decker.

Naturalmente se a cadeia de fornecimento se tornar mais rápida, registar-se-á uma queda cada vez maior das pré-encomendas, no entanto é necessário analisar cuidadosamente o que e se pode encomendar com antecedência. Muitos têm prejuízos, porque os compradores continuam a atrasar as suas encomendas. Actualmente, de acordo com a KSA a percentagem de quick response com leadtimes de apenas quatro a oito semanas situa-se nos 40 por cento, verifica-se 30 por cento para as encomendas tradicionais e 30 por cento para stock. Uma grande parte das encomendas de entrega rápida não se baseia em exigências do mercado, mas apenas em más planificações. Dentro de cinco anos, 55 por cento das encomendas deverão ser quick response e dessas ainda 40 por cento pedidos rápidos, estima Decker.

Sourcing directo

Se a empresa tiver um volume de negócios superior a 150 milhões de euros anuais a KSA aconselha o sourcing directo, sem agentes, importadores ou escritórios de compras. Com uma dependência no Oriente, não em Hong Kong, mas em Xangai ou Ningbo, os comerciantes devem abrir uma pequena sucursal. Dessa forma podem poupar cerca de 2/3 por cento em cada peça. «O sourcing directo justifica-se se existir uma focalização em grupos de produtos importantes num país com poucos fornecedores e um volume de fornecimento a partir de mais de 25 milhões de euros», afirma Decker. Ao longo da liberalização a estrutura de custos não se vai modificar dramaticamente, mas o fornecimento tornar-se-á ainda mais simples e transparente, o que por sua vez facilita o sourcing directo, sobretudo na China. «As repercussões financeiras para os consumidores poderão parecer melhores do que serão na realidade. Os preços de compra poderão teoricamente durante a eliminação dos custos das quotas descer entre 10 a 15 por cento, mas isso vai-se reflectir nalguma parte da cadeia. Uma parte vai ser absorvida pelos próprios chineses. O nível de custos de mão-de-obra e consequentemente de sourcing deverão permanecer quase iguais. Mas quando o comerciante conseguir concentrar grande parte da sua actividade na China poderá reduzir os custos internos. Todos os clientes da KSA iniciaram-se na China, de qualquer forma os especialistas de sourcing aconselham a reservar para o futuro outras alternativas. A confecção continuará a estar bem posicionada na Europa de leste. Para a produção de T-shirts e pullovers Novak aconselha o Bangladesh e para o vestuário outdoor o extremo oriente. No que diz respeito a jeans a Turquia e o Paquistão são os países indicados. Novak vê na Índia uma alternativa em termos de custo à China. «No global, é importante que os comerciantes continuem a manter as suas margens. A longo prazo os produtores e comerciantes alemães tem de se despedir do know how tecnológico e concentrar-se apenas na distribuição», é a conclusão de Hagen Decker.