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Quem quer trabalhar no sector têxtil?

O seminário “Fashion World's Challenges - Looking for Qualifications and Occupations” reuniu, no CITEVE, especialistas nacionais e internacionais para discutir o futuro da mão de obra da indústria da moda. A urgência em qualificar os trabalhadores e atrair os millennials foram algumas das ideias apontadas pelos oradores.

António Braz Costa

«São muitos os desafios que a indústria têxtil encara atualmente, seja a economia, a China, o Vietname, mas, no fundo, a nossa grande preocupação é saber onde estão as pessoas para trabalhar connosco», afirmou António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, na abertura do seminário organizado pela Academia CITEVE, em colaboração com o Cluster Têxtil: Tecnologia e Moda. O responsável lançou várias questões, às quais os oradores tentaram responder ao longo do evento: «Que qualificações precisamos para o futuro? Os jovens sabem das boas oportunidades de carreira no sector? Talvez não», admitiu.

Lutz Walter

Logo de seguida, Lutz Walter, diretor para a inovação e competências da EURATEX – European Apparel and Textile Confederation, destacou que, principalmente ao longo dos últimos 10 anos, o sector têxtil europeu tem vindo a tornar-se mais competitivo e estável quanto ao número de trabalhadores. «É uma indústria que vai continuar a empregar pessoas, enquanto cria valor acrescentado. Até 2025, serão criados cerca de 600 mil postos de trabalho no sector, a nível europeu, devido à necessidade de substituir as pessoas que se irão reformar», revelou. Fazendo igualmente previsões, Ron Senden, diretor do IVOC – Institute for Research and Training in Dressmaking, avançou que, até 2025, o número de despedimentos e de contratações será semelhante. «Este é um assunto muito sensível nas empresas. Para cada novo trabalhador, vai despedir-se um», assegurou.

A formação dos trabalhadores

Para Lutz Walter, as qualificações designadas de «mais baixas» ainda serão necessárias no futuro, porém, haverá novas necessidades nas empresas, tendo em conta a digitalização e a evolução da indústria. «Cada vez mais empresas estão conscientes de que as competências existentes são inadequadas.  O sistema de ensino tem de ser reforçado e desenvolvido. É necessário reabrir os espaços de formação do sector e modernizá-los. Além de apoio público, as melhores práticas devem ser partilhadas entre os países da Europa», defendeu.

Ron Senden

Ron Senden foi mais longe dizendo que a forma de resolver o problema é «qualificar e encontrar um modo de formar as pessoas contratadas com baixas qualificações, para trabalharem com qualificações médias. Isto significa que as escolas se devem adaptar às necessidades formativas das empresas», considerou. António Braz Costa apontou alguns constrangimentos à proposta de Rob Senden. «Acho que há um problema na implementação dessa estratégia: a idade. Precisamos de pessoas jovens a trabalhar connosco, porque têm a mentalidade necessária para compreender os consumidores atuais. Estamos a perder as pessoas que se estão a reformar, mas também estamos a perder esses empregos. Não será possível ter alguém com 25 anos, com um trabalho de costureiro, com um salário de 600 euros. Não queremos isso. Algo diferente deve ser feito», defendeu.

Empresas opinam sobre a falta de mão de obra

No debate que se seguiu, acerca das convergências e das lacunas na mão de obra, Maria Alsina, diretora de recursos humanos da Sonae lamentou que, atualmente, os estudantes «saiam das escolas com formações que não estão adaptadas ao mercado. É importante que façam estágios connosco ou com outras empresas para se adaptarem. Faltam-lhes capacidades técnicas e também soft skills», apontou.

Por seu lado, Miguel Pedrosa Rodrigues, administrador da Pedrosa & Rodrigues, defendeu que é necessário qualificar os trabalhadores, mas não acredita que os trabalhos mais técnicos devam ser considerados de baixas qualificações, porque «são a base» das empresas. «Para Portugal ser sustentável, a melhoria de qualificações também tem que acontecer nos graus de direção», sublinhou.

Ana Maria Damião, António Braz Costa, Ricardo Cunha, Miguel Pedrosa Rodrigues, Maria Alsina e Lutz Walter

Já Ricardo Cunha, diretor de recursos humanos na Continental – Indústria Têxtil do Ave (ITA), confessou que o maior problema da empresa é «atrair pessoas» para esta indústria. «Temos de combater a imagem dos salários baixos e fazer com que o sector se torne atrativo. As empresas devem formar os trabalhadores», defendeu.

Como atrair os millennials para um ambiente industrial?

«Tem a ver com o que a empresa está disposta a dar a um empregador», garantiu Ricardo Cunha. «Promovemos uma flexibilidade que não estava disponível no passado. A flexibilidade no tempo de trabalho, para sentirem que o trabalho é mais que um salário. O facto de poderem trabalhar em casa, ter flexibilidade ou períodos sabáticos são algumas das condições que atraem estres trabalhadores», enumerou. Além disso, o diretor de recursos humanos da ITA reconheceu que a indústria 4.0 «é uma grande oportunidade» para atrair os jovens. «É atraente verem robots a trabalharem com eles. Os robots na nossa indústria não estão a substituir as pessoas, mas sim a ajudá-las», elucidou.

Miguel Pedrosa Rodrigues revelou que para atrair os mais millennials, a Pedrosa & Rodrigues tem uma espécie de programa Erasmus, no qual qualquer trabalhador pode deslocar-se durante um período de tempo para uma empresa subsidiária da Pedrosa & Rodrigues, e oferece ainda bolsas de estudo, ginásio e descontos em lojas. A responsável pelos Recursos Humanos da Sonae acredita que a atratividade vai além da flexibilidade de horários. «Podemos dar-lhes muita coisa, mas eles têm que acreditar no projeto onde trabalham, se não, vão sair. Têm que se envolver e sentir que o que estão a fazer tem impacto», resumiu.