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Quénia investe na ITV

O governo queniano identificou a indústria têxtil e vestuário (ITV) como motor do crescimento económico interno, integrada num vasto plano de transformação do país, que pretende conduzi-lo rumo à modernização.

No âmbito do Programa de Transformação Industrial destaca-se uma estratégia que visa criar um núcleo industrial e potenciar o sector de produção, elevando a sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) do Quénia para uma percentagem superior a 15%, face aos atuais 11%, estagnados há mais de uma década. O programa é orientado pelo Kenya Vision 2013, o plano de desenvolvimento económico do país.

O aumento das exportações industriais «é fundamental para a criação de emprego e crescimento económico, a par do investimento nacional e estrangeiro», afirma Adan Mohamed, Secretário do Gabinete para a Industrialização e Desenvolvimento Empresarial. «Identificamos oportunidades que poderão duplicar o atual número de postos de trabalho do sector de produção, para aproximadamente 700.000, e somar dois a três mil milhões de dólares ao nosso PIB», revela.

«De forma a concretizarmos estas oportunidades, devemos superar seis desafios: disponibilidade de infraestruturas e propriedades, aptidão e capacidade dos sectores prioritários, qualidade dos inputs, custo de operação, acesso a mercados e políticas de incentivo ao investimento», apontou Mohamed.

A estratégica, que inclui cinco ângulos de abordagem, será introduzida com o lançamento de projetos inovadores, especificamente direcionados para a indústria têxtil, vestuário e couro. As propostas incluem o desenvolvimento de um núcleo têxtil integrado em Naivasha, uma cidade localizada no Vale do Rift, próxima a uma estação geotermal, e o lançamento de um núcleo de fabrico de couro em Machakis e outras duas localizações.

A estas iniciativas seguir-se-ão planos que pretendem desenvolver as pequenas e médias empresas do país, apoiando entidades emergentes e potenciando a capacidade de construção, adotando fábricas modelo, criando um fundo de desenvolvimento industrial e impulsionando os resultados por meio da recém-formada Unidade de Entrega do Ministério..

O programa sugere que o sector têxtil e vestuário é um importante motor de crescimento da indústria de exportação do Quénia, tendo aumentado para 415 milhões de dólares desde a assinatura da Lei de Crescimento e Oportunidade de África, em 2000. O sector respondeu por 30% do crescimento total das exportações dos últimos cinco anos.

O Quénia acredita reunir capacidades específicas, que lhe permitirão expandir a ITV. «O nosso custo laboral é relativamente baixo comparado com o praticado na Ásia e o nosso acesso preferencial aos mercados globais cria uma vantagem de custo que atrai os compradores, num momento em que estes procuram diversificar a sua base de sourcing», destaca Mohamed.

Posto isto, o Quénia representa 0,4% do mercado de têxteis americano, avaliado em 84 mil milhões de dólares, enquanto o Bangladesh responde por 6% do total do mercado, com um valor de 225 mil milhões de dólares.

O governo queniano acredita que «temos a oportunidade de escalar a nossa quota do mercado de têxteis e vestuário americano, entrar em novos mercados e expandir a nossa gama a produtos de valor superior, gerando um valor adicional de 140 milhões a 200 milhões de dólares no nosso PIB e criando 105.000 postos de trabalho».

Paralelamente, o Quénia dispõe de um dos maiores rebanhos de gado do continente (60 milhões de cabeças) e um sector de couro estabelecido, mas subutilizado. Cerca de 90% das exportações de couro do país, avaliadas em 94 milhões de dólares, são de couro inacabado, curtido com crómio. «O tratamento posterior do couro e artigos de couro finalizados irá criar 35.000 novos postos de trabalho e 150 milhões a 250 milhões de dólares suplementares para o PIB, contribuindo para a substituição de uma porção de 86 milhões de dólares nas importações anuais de calçado», refere o plano.

Existem, também, desafios, entre os quais se destacam a carência de aptidões que superem os conhecimento básicos inerentes à produção de vestuário, limitando as oportunidades de oferta de design e acessórios em artigos específicos para cada estação e para o fast-fashion, por exemplo.

Os elevados custos laborais, operacionais e de transporte da indústria têxtil e vestuário significam que a produção é 10% a 20% mais dispendiosa face ao custo mais baixo de produção existente no mercado e o elevado custo de capital está a desencorajar o investimento em unidades de produção.

A competitividade é também afetada pelo longo período de tempo de colocação dos produtos no mercado – 118 dias desde a encomenda até à sua entrega nos Estados Unidos – decorrente da falta de materiais têxteis locais (76% são provenientes de importação). Além do mais, o acesso aos mercados internacionais, como o Canadá, África do Sul, Turquia e Médio Oriente, é limitado, dificultando a circulação de produtos têxteis e de couro confecionados no Quénia.

No segmento do couro, a carência de aptidões que permitam a produção de couro e de produtos de couro é descrita como «problemática», enquanto a pele animal de baixa qualidade, resultante de práticas agrícolas deficientes, limita o potencial do material.

Embora o interesse pelo sourcing de vestuário proveniente de países da África Subsariana esteja a aumentar, os resultados de um estudo produzido no princípio deste ano sugerem que poucas entidades estão, efetivamente, a desenvolver planos concretos de investimento nesse espaço. Os executivos defendem também que a indústria deve formular uma estratégia coletiva, tendo em vista a construção de «algo especial» em África.