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Quénia revitaliza algodão

O Quénia tem a revitalização da sua indústria de algodão na linha de mira. A matéria-prima foi uma importante fonte de receitas até à década de 1980 e, agora, face a uma forte procura por fibras domésticas e à possibilidade de aprovisionar os exportadores de vestuário para os EUA, o algodão volta a estar no centro das atenções.

O governo queniano está a planear a formação e o financiamento dos agricultores como parte de uma tentativa mais vasta de revitalização da produção, que chegou a atingir as 38.000 toneladas de semente de algodão em 1984-1985. O Quénia produz atualmente 15.700 toneladas de sementes de algodão, gerando cerca de 5.240 toneladas de algodão.

A procura desta matéria-prima é de cerca de 37.000 toneladas, com a importação dos países vizinhos a colmatar a insuficiência, revelou Fanuel Lubanga, da autoridade estatal de Agricultura e Alimentação, à Bloomberg.

A iniciativa estatal foi posta em prática numa altura em que os produtores da maior economia da África Oriental esperam que as exportações de vestuário para os EUA cresçam 5%, depois de estes estenderem uma década a sua Lei de Crescimento e Oportunidade em África (AGOA). «O potencial que temos para o nosso algodão através das exportações AGOA é uma forte motivação para o crescimento da indústria», afirmou Lubanga.

Fanuel Lubanga prevê que a produção nacional duplique durante a colheita de 2017, uma vez que os agricultores estão agora a usar sementes compradas a Israel em vez de sementes recicladas, outrora prática comum.

A África Oriental tem o potencial de exportar vestuário avaliado em 3 mil milhões de dólares (aproximadamente 2,9 mil milhões de euros) anuais até 2025, de acordo com um relatório de 2015 da McKinsey. Os preços da eletricidade e a mão-de-obra barata – com salários mensais de 60 dólares – tornam os produtores do Quénia e da Etiópia atraentes para os investidores, como mostra o estudo da consultora.

Zonas de exportação

O Quénia exportou vestuário avaliado em 380 milhões de dólares em 2015, com empresas como a Puma, Wal-Mart, JC Penny e H&M a garantir o seu aprovisionamento nas zonas de exportação do país, que empregam mais de 66.000 pessoas.

Apesar de os produtores das zonas de exportação não usarem atualmente algodão cultivado no Quénia, segundo Lubanga, o ministério da indústria está a trabalhar formas de garantir que os agricultores quenianos consigam contratos para vender domesticamente.

Os seis membros da Comunidade da África Oriental, que inclui o Quénia, estão a trabalhar para renovar o mercado nacional de vestuário, proibindo as importações de roupa em segunda mão até ao final de 2018, de acordo com a Associação dos Fabricantes do Quénia. O Ruanda já proibiu as importações de couro, assim como de vestuário e calçado usados.

Em 2013, o Quénia importou roupa em segunda mão no valor de 243 milhões de dólares, segundo dados da agência das Nações Unidas Comtrade.

A indústria têxtil do Quénia caiu na década de 1980, após as políticas de liberalização de mercado exigidas pelos credores multilaterais terem exposto o mercado às importações de artigos usados. O país tem agora seis fiações de algodão, em comparação com as 52 de 1991, e há quatro empresas de descaroçamento, face às 24 existentes nesse mesmo ano.

«Os investidores turcos demonstraram interesse em cultivar algodão em grande escala em Siaya», revelou Lubanga, referindo-se a um município no sudoeste do Quénia, sem divulgar mais informações.