Início Destaques

RdL reforça know-how

Na área da estamparia, a competitividade não está apenas na tecnologia usada no processo final. A preparação e gravação de quadros e a utilização das tintas mais adequadas podem marcar a diferença, como focaram especialistas e clientes como a Fusão Print no 25.º seminário da Ruy de Lacerda.

David Zamith

O 25.º seminário técnico da Ruy de Lacerda foi dedicado à estamparia e reuniu no auditório do Citeve especialistas, técnicos e empresários desta área de negócio. «Um dos pontos que sempre tivemos nesta área da tecnologia de impressão serigráfica foi dar formação. O ano passado fomos três vezes a Itália com um grupo de clientes portugueses, estivemos na Suíça com outro grupo e temos um laboratório em Leça da Palmeira, nas nossas instalações, para dar formação e fazer troubleshooting. Sempre que há um movimento que sentimos ser importante transmitir ao cliente, fazemos um seminário», justificou, ao Portugal Têxtil, David Zamith, chairman da Ruy de Lacerda.

No caso da estamparia, o foco esteve na pré-impressão. «A pré-impressão é a base de tudo. Para quem quer manter a estamparia por serigrafia, o quadro é o rei da questão», destacou David Zamith, atribuindo como segundo ponto fundamental «a qualidade das tintas».

Duas questões que foram amplamente abordadas nas intervenções de Andreas Ferndriger, CEO da SignTronic, e de Beppe Quaglia, presidente e CEO da Quaglia.

Os quadros são o princípio

A preparação e gravação dos quadros é um dos processos mais morosos e que prejudica a competitividade da estamparia convencional face, por exemplo, à estamparia digital. Mas, afirmou Andreas Ferndriger, há formas de aumentar a eficiência do processo. «A mensagem é simplificar, porque a limitação na estamparia por quadros é a fraca e dispendiosa produção de quadros, de muitas formas. Reduzam o número de quadros, reduzam a quantidade de tinta – menos custos», apontou.

Andreas Ferndriger

Acima de tudo, assegurou, é importante «perceber o custo por quadro» e tentar baixá-lo. Algo que passa, segundo Andreas Ferndriger, por uma conjunção de organização e tecnologia. «Um dos nossos conceitos é o laboratório de quadros», explicou o CEO da SignTronic. Nesse espaço, a organização faz-se por unidades individuais ou em linha, onde os quadros são manipulados, desde a limpeza à gravação e posterior utilização. «O objetivo é ter uma sala o mais limpa possível para preparar os quadros», indicou, dando conta que várias empresas em Portugal, incluindo a Estamparia Ralope, têm já laboratórios de quadros.

Ferndriger deixou ainda como conselho a utilização de quadros da mesma qualidade e tamanho e a utilização de tecnologia de gravação por luz ultravioleta, que permite evitar distorções na gravação e acelerar o processo, sublinhando que «a estamparia por quadros é muito competitiva, mas é preciso simplificar os processos».

Qualidade faz a diferença

Beppe Quaglia tinha já focado a competitividade da estamparia por quadros. «Apesar do digital estar a crescer, só está a tirar a parte mais baixa em termos de qualidade do mercado, porque é onde é mais fácil ver a diferença», explicou o presidente e CEO da Quaglia, que acredita que é possível aumentar a competitividade da estamparia convencional. «Não podemos parar a estamparia digital, mas podemos coexistir», salientou, avançando a possibilidade de haver, no futuro, máquinas híbridas capazes de fazer estamparia por quadros e estamparia digital, usando-se a solução mais adequada consoante a situação.

Beppe Quaglia

Até lá, contudo, Beppe Quaglia relembrou a importância de usar corantes e emulsões de qualidade. «Quando a tinta é melhor, a qualidade da estamparia é melhor e gasta-se menos tinta, tornando a produção mais barata, apesar de ser um produto de valor acrescentado. Se é melhor e consome menos, não só tenho uma melhor qualidade como consigo também poupar tinta», explicou.

Num estudo realizado na unidade de produção nas Honduras da produtora canadiana de vestuário Gildan, a Quaglia usou a sua oferta de tintas de base aquosa Virus e conseguiu poupanças na ordem dos 70% no processo de estamparia. O importante, reforçou Beppe Quaglia, é «estar preparado para a mudança».

Exemplos de sucesso

A Decordecal e o grupo Fusão Print são exemplos de quem já abraçou esta mudança, com Paulo Mota e Adelino Rafael a darem conta desta evolução para ambas as empresas.

A primeira, no sector da cerâmica, não se sente ameaçada pelo digital, «até nos tem trazido vantagens, porque serve para grandes quantidades», admitiu o CEO da empresa, que, embora assuma pretender manter a mais-valia da pintura manual, confessou que a tecnologia de gravação CTS (computer-to-screen, ou seja, com um sistema de exposição digital direta de luz) «foi revolucionário, sobretudo para as amostras», que passaram de um período de três semanas para serem concretizadas, por vezes, em apenas um dia, destacou Paulo Mota.

Ana Paula Cedília, Paulo Mota e Adelino Rafael

O mesmo aconteceu com o grupo Fusão Print, na área têxtil. A empresa começou há cerca de 10 anos com quadros serigráficos sem fotolito, mas avançou para os CTS automatizados. A tecnologia, juntamente com a normalização dos quadros com apenas três tamanhos – algo implementado desde a fundação –, permitiu, como grandes vantagens, rapidez e qualidade, apontou Adelino Rafael. «Mais às vezes do que a parte económica, que acaba por ter retorno, tem muito mais a ver com a satisfação do cliente e com a qualidade», explicou.

Previsões mais difíceis

Os clientes, de resto, estão mais exigentes, acompanhando a tendência dos consumidores, sobretudo as novas gerações, que, afirmou Paulo Vaz, diretor-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, «não compram como nós». As mudanças no perfil do consumidor serão algo a que as empresas terão de se adaptar, numa altura em que a indústria têxtil e vestuário, fruto da conjuntura internacional, dá alguns sinais de abrandamento. «Estamos a viver 10 anos consecutivos de crescimento – não há memória de um ciclo tão grande de crescimento neste sector – e ainda se mantém, apesar do arrefecimento da economia», garantiu.

Apesar de algumas fraquezas, como empresas pouco capitalizadas e falta de mão de obra, e de ameaças como a concorrência internacional e o risco de desintegração da fileira têxtil enquanto cluster, o diretor-geral da ATP realçou que a ITV portuguesa possui características valorizadas, nomeadamente qualidade, flexibilidade e rapidez na resposta, havendo diversas oportunidades para continuar a crescer, desde a exploração de produtos de nicho e mercados emergentes à aposta na sustentabilidade e na economia circular.

Paulo Vaz

E mesmo assumindo que o futuro é cada vez mais difícil de prever, Paulo Vaz acredita que «devemos ter um objetivo ambicioso: sermos líderes mundiais em produtos de nicho e de alto valor acrescentado».

Na Ruy de Lacerda, o ciclo de crescimento continua, incluindo com a indústria têxtil e vestuário. «O ano passado e já este ano, em termos transversais, na nossa atividade, têm sido anos de crescimento», afirmou David Zamith, acrescentando que as empresas têm investido. «A crise trouxe uma “coisa boa”: como o mercado doméstico desapareceu, obrigou-nos a pegar na pasta e ir para o estrangeiro. Isso deu uma cultura completamente diferente e as empresas sentem-se mais confortáveis para poderem investir. E também sabem quando investir – e a melhor altura para investir é em contraciclo», concluiu o chairman da Ruy de Lacerda.