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Recessão elimina empresas e países – Parte 1

Mais de uma dúzia de países produtores de vestuário viram a sua viabilidade, como fornecedores de volume para os clientes ocidentais, seriamente prejudicada no ano passado. A crescente força da China não foi o argumento decisivo para nenhum deles, mas tornou o mercado muito menos confortável, conforme relata Mike Flanagan, director-executivo da Clothesource Sourcing Intelligence, uma empresa de consultoria britânica. O encerramento da Caratex em Novembro de 2009, o maior grupo produtor de vestuário do Botsuana, foi uma péssima notícia para as 5.000 pessoas que empregava e para a sua administração, maioritariamente do Taiwan. Isto vai certamente significar uma redução substancial nas exportações de vestuário do Botsuana. Mas, ao contrário do encerramento da Ramatex, de propriedade malaia, na vizinha Namíbia em 2008, que levou à quase extinção das exportações de vestuário do país, a saída da Caratex não vai eliminar a indústria de vestuário do Botsuana. Existem dezenas de outras empresas de vestuário no país, que produzem roupas para a África do Sul, Europa e EUA. Apesar da Caratex ser de longe o maior fabricante do país, não dominava o sector no Botsuana, da forma como a Ramatex representava a quase totalidade da indústria têxtil e vestuário da Namíbia. Duas lições fundamentais O encerramento da Caretex anuncia duas lições cruciais sobre o aprovisionamento mundial de vestuário. Primeiro, a recessão já produziu até agora alguns resultados surpreendentes: • Em termos globais, a procura mundial de vestuário não reduziu muito. Mas uma onda de falências no final de 2008, juntamente com o crescimento do receio dos bancos, originou que os pagamentos secassem entre Setembro de 2008 e a Primavera de 2009. Durante esse período, muitos fabricantes foram aniquilados e muitos outros começaram a recear que pudessem também estar em risco. • Ao mesmo tempo, os retalhistas tornaram-se muito mais apreensivos em termos de exigência. De acordo com o Clothesource Pricetrak, os preços do vestuário no mundo caíram 8% entre Setembro de 2008 e Setembro de 2009. Esta evolução aumentou a pressão sobre os fabricantes mais fracos, originando mais falências. • Mas a China, que em meados de 2008 alegou amplamente estar a tornar-se “incompetitiva”, foi quase a única origem que estava excepcionalmente bem posicionada para tirar o máximo partido da situação. Porque não só as quotas dos EUA sobre a China caíram no final de 2008, como também o sistema da União Europeia de exigir licenças de exportação aos chineses foi eliminado. Deste modo, a China estava liberta para competir muito mais livremente, da mesma forma como os fornecedores “não-chineses” estavam a ser atacados. O governo chinês passou os anos anteriores à recessão a aumentar os custos: aumentou o salário mínimo legal, reduziu a proporção do desconto do IVA pago pelos exportadores sobre as matérias-primas e serviços e deixou a sua moeda valorizar-se face ao dólar e ao euro. Com o início da recessão, o governo chinês simplesmente inverteu todas estas políticas e, ao mesmo tempo, só o governo chinês teve a perspicácia – e a força – para garantir que os seus bancos mantivessem o fluxo de crédito para as fábricas de exportação entre o Outono de 2008 e a Primavera de 2009. Assim, as pequenas e médias empresas da China sobreviveram ao pior da recessão, enquanto os seus rivais, em muitos casos, eram eliminados do negócio. As empresas em todo o mundo foram seriamente enfraquecidas entre o Outono de 2008 e a Primavera de 2009. Em alguns países, como o Vietname, Índia e Bangladesh, a maior parte das grandes empresas passou por tudo isto relativamente ilesa e está hoje a ganhar muitos negócios, que os extintos concorrentes locais outrora tiveram. Ainda não está clara a proporção dos prejuízos que esses países sofreram com a recessão (as estimativas de perdas de emprego são maioritariamente conjecturas, que visam fornecer uma justificação para os subsídios que alguns grupos de lóbi estão a tentar surripiar aos contribuintes desavisados). Mas em geral, o sector de vestuário desses países continua a estar em muito boa forma. E, apesar da China ter actualmente uma participação recorde, os seus produtores estão a ter dificuldade em competir e mesmo, em algumas categorias como casacos casuais, têm realmente perdido quota de mercado. Mas o outro lado do sucesso da China foi o que aconteceu em muitos países mais pequenos, conforme vamos analisar na segunda parte deste artigo.