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Recessão elimina empresas e países – Parte 2

A recessão internacional originou sérias implicações em muitos fornecedores de vestuário, fomentando alterações relevantes no comércio internacional. Na primeira parte deste artigo (ver Recessão elimina empresas e países – Parte 1) foi analisada a primeira lição: “a recessão até agora já produziu alguns resultados surpreendentes”. Nesta segunda parte, a atenção está centrada na segunda lição a retirar. Lição número dois: à medida que as empresas ficam mais fracas, muitos países mais pequenos tornam-se mais vulneráveis a mudanças muito pequenas no ambiente operacional. No entanto, a vulnerabilidade de um país depende de uma série de factores: • O Madagáscar está actualmente sob a ameaça de uma revisão por parte dos EUA sobre a isenção de impostos ao abrigo das regras do AGOA (African Growth and Opportunity Act). Estas regras requerem que o Presidente norte-americano avalie o compromisso de um país para com uma governação honesta e os EUA não concordam com a eliminação em Março de 2009 do presidente democraticamente eleito. Quer o embaixador dos EUA em Madagáscar, quer o representante americano adjunto do comércio para África, fizeram declarações referindo implicitamente uma elevada probabilidade de Madagáscar perder as suas concessões, a menos que haja reformas sérias. O país pode perder essas concessões em 2010, originando um acréscimo entre 20 e 30% no preço do vestuário exportado para os EUA, que compra mais de 70% das exportações de vestuário de Madagáscar. A perda de privilégios no AGOA iria provavelmente devastar a indústria de vestuário do país e isso pode afectar os clientes europeus, apesar do seu acesso isento de taxas à UE não ser perturbado. • O Sri Lanka tem um problema bastante diferente. O seu acesso isento de direitos para a UE no âmbito do SPG+ está dependente do país honrar 27 convenções internacionais sobre direitos humanos, que a UE, depois de uma investigação com a qual o governo do Sri Lanka se recusou a cooperar, acredita que o governo do país não honrou. A UE recomendou eliminar as concessões de isenção de taxas ao abrigo do SPG+. Mas não antes de Junho de 2010. Para a maioria das peças de vestuário, a remoção iria adicionar 9,6% ao preço, quando desembarcado na Europa e somente se o governo do Sri Lanka renegar (que o seu Banco Central defendeu que deveria) a promessa feita em 2008 para fornecer um subsidio equivalente à nova taxa alfandegária. No entanto, os pontos fortes do Sri Lanka encontram-se em vestuário como os sutiãs (em que a UE irá cobrar um imposto de apenas 5,2%), de qualquer forma, cerca de um terço das roupas que envia para a Europa não beneficia da isenção de tarifas. E as vendas para os EUA representam cerca de 40-45% das exportações de vestuário do país. Deste modo, a perda da sua concessão na UE iria claramente prejudicar muitos exportadores do Sri Lanka e originar a perda de muitos empregos no país, mas dificilmente destruiria a sua próspera indústria de vestuário para sempre. Impacto drástico Outras mudanças bastante pequenas no ambiente de exploração de pequenos países ameaçam ter efeitos drásticos. As exportações da Costa Rica, nunca recuperaram da confusão sobre se iria juntar-se ao CAFTA (Central America Free Trade Agreement) e, na altura que realmente chegou perto de se inscrever, os compradores chegaram à conclusão de que haviam outros lugares onde comprar, pelo que as suas exportações estão actualmente com uma quebra de 42%. A República Dominicana tem sofrido de forma semelhante, é o caso da aparente maior atracção do Haiti, com o qual partilha a ilha, pelo que as suas vendas estão a registar uma quebra de 51%. A ruptura não precisa estar no país em causa. A decisão da Cone Denim, em não operar as suas instalações de denim recentemente concluídas na Nicarágua, não prejudicou grandemente as exportações de vestuário do país. Mas contribuiu seriamente para grandes perdas de vendas nas vizinhas Honduras e Guatemala, cujas fábricas de jeans estavam a contar com uma fábrica de denim na América Central, que poderia beneficiar dos baixos custos de exploração da região e manter o livre acesso aos EUA. Ao todo, já existem mais de uma dúzia de países, outrora importantes na produção de vestuário, cuja viabilidade como fornecedores de volume para os clientes ocidentais foi seriamente prejudicada no ano passado pelo encerramento de instalações importantes ou pela ameaça de mudanças no ambiente operacional. A crescente força da China não foi o argumento decisivo em nenhum destes casos, mas quando combinada com a recessão torna o mercado muito menos confortável para a sobrevivência dos actores marginais. O ambiente de hoje está a eliminar quer os negócios fracos, quer os países vulneráveis. E, em quase todos os casos, o seu desaparecimento está a criar oportunidades para outras empresas e países.