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(Re)Criações Mesopotâmicas

A casa da moda iraquiana, financiada pelas autoridades, estÁ instalada num edifício discreto de três andares em Bagdad. Uma equipa composta por 307 pessoas, entre as quais costureiros, estilistas e desenhadores, recriam vestidos e fatos próprios desta região, cuja história remonta hÁ mais de 5 000 anos. Estes vestuÁrios bordados à mão representam os povos da Mesopotâmia: o período dos sumérios (antes de 2.000 A.C.), dos babilónios (2.000 A.C. – 1.750 A.C.) e dos assírios (1.300 A.C. – 613 A.C.) Estão sem preço e não são, por conseguinte, para serem vendidos», sublinhada May Rammo, directora geral da casa de moda. Algumas destas peças necessitaram de um ano para serem confeccionadas. Como é possível atribuir-lhe um preço? Fazemos estes vestuÁrios para preservar a nossa cultura e para serem apreciados», salienta a directora. Estes vestuÁrios imitam as indumentÁrias dos reis e das rainhas da Mesopotâmia, São feitos apenas com seda, algodão e lã e excluem qualquer fibra sintética», explica May Rammo. Financiada pelo ministério da cultura iraquiano, a casa da moda foi criada em 1970 com o objectivo de preservar a cultura iraquiana. Mas estes tesouros foram pilhados, bem como outras obras de arte, no caos que se seguiu à invasão americana do Iraque em Março de 2003. Shireen Mohammed, sub-directora da casa da Moda, esperava o pior quando, em Abril de 2003, verificou os estragos naquele espaço de arte. Trinta e três anos de trabalho tinham sido destruídos num só um dia. Tudo estava em ruínas. Fiquei chocada». Hanna Sadiq, responsÁvel da secção dos costureiros, contabilizou mais de um milhar de peças de vestuÁrio roubadas ou destruídas durante os acontecimentos. Passada a cólera e a tristeza, os empregados da casa da moda entregaram-se ao trabalho, com obstinação, para fazer renascer a sua cultura. Apresentamos algumas colecções este ano, das quais uma em Alger e outra em Erbil, a capital do Curdistão iraquiano (norte)», declara a May Rammo. Estamos prestes a viajar de novo ao estrangeiro. Gostaríamos de ir a Nova Iorque ou Paris, mas necessitamos de apoio financeiro », acrescenta. Com o rosto anguloso e de olhos escuros como brasas, a manequim Zaman Hussein diz-se orgulhosa de ser o porta-estandarte da antiga civilização» do seu país. Não fazemos desfiles como os ocidentais. Os nossos são mais folclóricos, culturais e artísticos», prossegue. A possibilidade de apresentar criações modernas no ocidente dissipou-se, de acordo com a modelo, devido aos conflitos religiosos que devastaram o Iraque desde o atentado contra uma mesquita de Samarra em Fevereiro de 2006. Com medo dos extremistas, Houda Aarim, uma modelo “loira falsa” guarda o segredo do seu trabalho como manequim: A sociedade julga-nos mal». Houda Aarim estima que este tipo de trabalho não tem lugar na sociedade Árabe. Gostaria que a visão da mulher da nossa sociedade mudasse», conclui a modelo.