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Remédio contra a crise

Os principais estilistas ocidentais foram muito prejudicados com a crise financeira internacional. Mas os designers libaneses, que vêm de uma terra onde a Fashion TV é o canal de escolha nos bares elegantes, dizem ter conseguido escapar ao impacto da crise por causa de duas coisas: alta-costura acessível e clientes árabes ricos. É justo dizer-se que o Líbano não é adepto do vestuário casual. Sapatos de salto alto, vestidos justos e penteados sofisticados são parte da rotina diária de muitas mulheres libanesas. Alugar um vestido de marca para usar num casamento é muito mais aceitável do que, horror dos horrores, optar por comprar um vestido genérico. Assim sendo, não é nenhuma surpresa que os melhores designers do país se tenham tornado mais famosos pelas suas colecções elaboradas do que pelas suas linhas clássicas de pronto-a-vestir. E a sua clientela continua a querer mais. Efectivamente, Elie Saab, cujos vestidos estão entre as escolhas das estrelas de Hollywood, disse que as suas linhas de pronto-a-vestir sofreram durante alguns meses nos EUA devido à crise, mas não as suas linhas de alta-costura. «Os designers libaneses foram sempre diferenciados pela sua alta-costura, não pelo pronto-a-vestir», afirmou Saab à Reuters. Saab falava pouco antes do seu primeiro desfile em Beirute, em 18 anos, onde mostrou a sua colecção de pronto-a-vestir para o Outono/Inverno 2010-2011, marcando a abertura oficial da opulenta zona comercial Beirut Souks no centro da cidade. Scarlett Johansson, Carey Mulligan e Emily Blunt já foram apanhadas a usar alguns dos modelos da colecção. «Se uma pessoa vai a uma casa de moda francesa, (para alta-costura), o preço não é natural, é como se eles estivessem a dizer “nós não queremos vender”. É por isso que a alta-costura é um sucesso no Líbano. É a beleza da peça (…) e os preços são adequados para as mulheres do mundo», explicou Saab. Abed Mahfouz, cujos vestidos foram usados por Beyoncé e Victoria Beckham, concorda. Para lidar com os bolsos mais magros dos seus clientes, Mahfouz cortou os seus preços até 50%, um empreendimento arriscado que outros estilistas se têm recusado fazer, na convicção de que seria prejudicial para a marca. Os vestidos que eram vendidos entre os 70.000 e os 100.000 dólares registaram uma redução para os 50.000 e os 60.000 dólares, forçando-o a fazer um corte de 30% nos lucros do período 2009/2010. Mas Mahfouz afirmou que o seu risco valeu a pena e a sua base de clientes do Médio Oriente alargou. Mahfouz revelou que está agora a começar a ter mais clientes no Egipto, Líbia, Tunísia e Iémen. Respondendo ao aumento da procura, Mahfouz decidiu abrir um novo showroom no elegante bairro do centro de Beirute, a poucos passos de distância da loja de Elie Saab. Mas, são as mulheres ricas do Golfo Pérsico as verdadeiras fãs de Saab e Mahfouz, cujos modelos de vestidos apelam aos seus gostos elaborados e coloridos. Mahfouz revelou que 50% a 60% das suas vendas provêm de clientela Saudita. Apesar das mulheres terem de usar um casaco longo e preto, conhecido como “abaya” em público, elas vestem frequentemente vestidos resplandecentes nos eventos da alta sociedade e nos casamentos. O designer referiu que o aperto nos orçamentos do mundo árabe tem desenvolvido um novo nicho. Em vez de fazer um vestido único, como normalmente acontece na alta-costura em geral, ele faz três ou quatro peças do mesmo modelo. Os vestidos que costumavam ser vendidos por 25.000 a 30.000 dólares são agora vendidos entre os 12.000 e os 15.000 dólares. «O meu pronto-a-vestir é como a alta-costura. Todos gostam de vestir alta-costura, mas querem preços de pronto-a-vestir», concluiu Mahfouz.