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Renascer das cinzas

Tal como a mitológica fénix, os sectores tradicionais do têxtil e calçado retomaram o dinamismo do passado nos últimos anos, num regresso triunfante à ribalta da economia, mas que não deverá ficar por aqui, como testemunharam atores das duas indústrias numa conferência em Guimarães organizada pela Vida Económica.

“Fénix Renascida: os novos sectores do têxtil e do calçado” foi o tema que juntou ontem, no Laboratório da Paisagem, empresários e atores da indústria têxtil, do vestuário e de calçado. Passado, presente e futuro foram discutidos nesta conferência sob a égide da Vida Económica, onde estas atividades económicas, consideradas tradicionais, mostraram que têm estratégia para continuar a crescer e a expandir-se no mundo inteiro.

Com uma história secular em Portugal – e cuja importância foi já relevante na época dos Descobrimentos, nomeadamente nas velas e cabos que levaram os navegadores portugueses a “dar novos mundos ao mundo” –, o sector têxtil ultrapassou a crise da abertura dos mercados, nomeadamente a ameaça da China na primeira década deste século, a recessão económica mundial em 2008 e a crise das finanças públicas em Portugal em 2011 e está atualmente no bom caminho para atingir um recorde nas exportações. «Este ano estamos convencidos que vamos ultrapassar os 5 mil milhões de euros de exportação», afirmou Paulo Vaz, diretor-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, sublinhando ainda que o feito se torna mais relevante por haver menos empresas no sector. «Hoje, a indústria têxtil e vestuário exporta quase 80% do que produz face a 65% em 2008», apontou Paulo Vaz.

Para que os números continuem a sua trajetória ascendente, a ATP está a apostar atualmente em ações de promoção do sector em mercados internacionais. Batizado Fashion From Portugal (ver Uma nova imagem para a ITV), o programa irá contemplar uma primeira ação no País Basco já hoje (16 de julho), que se irá prolongar até domingo. O objetivo «é chegar aos 8 mil milhões de euros em valor de produção e 6 mil milhões de euros de exportações», referiu o diretor-geral da associação.

O trabalho de promoção da imagem do calçado português começou em 2009, revelou, por seu lado, João Maia, diretor-executivo da Apiccaps – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos, que destacou a necessidade que o sector teve de se concentrar num segmento de mercado mais alto para “fugir” à concorrência asiática. «A nossa solução foi procurar segmentos onde pudéssemos vender produtos mais caros», explicou. Aliás, esta especialização justifica, em parte, a centralização das exportações no mercado europeu. «Um quarto do mercado mundial está concentrado numa pequena área no centro da Europa, daí o sector vender 85% da sua produção para a Europa», indicou João Maia.

Atentos às grandes tendências do mercado – como o envelhecimento da população, a ascensão das mulheres no mercado de trabalho e, inevitavelmente, as vendas online –, a inovação está igualmente em foco neste percurso de “renascimento” do calçado português. Prova disso, afirmou João Maia, é o novo projeto, que está a ser liderado pelo grupo Kyaia, «de uma linha para produzir sapatos em 24 horas», pensado para «responder às vendas online», uma vez que permite a customização e uma entrega rápida ao cliente final.

O diretor-geral da P&R Têxteis, Hélder Rosendo, também abordou esta questão durante a sua intervenção na conferência, referindo que «o online abre a possibilidade de chegar a mercados distantes com um investimento relativamente reduzido», mas que esta transição para o comércio eletrónico traz desafios à área produtiva. «Há um aumento da pressão para a customização e entrega rápida», apontou.

O serviço é um dos fatores apontados pelas empresas nacionais como essencial para ganhar e fidelizar clientes, como mencionou Hélder Rosendo, citando o acompanhamento comercial, I&D, proximidade e transparência para com o cliente como elementos fulcrais. A internacionalização é igualmente central. «Somos um mercado pequeno de 10 milhões de pessoas», lembrou.

«A internacionalização é o caminho», reforçou José Armindo Ferraz, administrador da Inarbel, que conta com vendas em 28 países e tem conseguido fortalecer a sua posição nos mercados internacionais. «Os objetivos que tínhamos há sete anos estão praticamente atingidos. Ainda não chegamos lá, mas vamos chegar», resumiu.

A questão quente da atualidade – a escassez dos recursos humanos – esteve igualmente em discussão, com Noémia Carneiro, diretora do Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade do Minho, a dar conta de uma retoma na atratividade do curso de Engenharia Têxtil, que sofreu com os altos e baixos do próprio sector. «A procura que sentimos neste momento é superior à oferta», afirmou, sublinhando que o curso está mais moderno e acompanhou a evolução do negócio.

Para combater esta falta de mão de obra qualificada para o sector, que foi mencionada inclusivamente pela plateia, sobretudo em termos de quadros médios, a P&R Têxteis está mesmo a criar uma academia para formar técnicos para trabalhar na empresa. «As empresas não se podem desresponsabilizar», defendeu Hélder Rosendo.

Os centros de formação profissional do sector fazem também parte da solução, como destacou no encerramento o presidente da Associação Comercial e Industrial de Guimarães, Manuel Martins, que revelou que «o Modatex e a Anivec – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção estão, juntamente com a Câmara Municipal de Guimarães, a estudar a possibilidade de instalar um polo de formação em Guimarães».

A cidade que viu nascer Portugal quer tornar-se uma referência incontornável para a indústria e juntar, ao forte tecido empresarial do sector instalado no concelho, outras valências. «Temos de ter novas abordagens ao têxtil e ao calçado», afirmou Ricardo Costa, vereador da edilidade vimaranense, na abertura da conferência. «Tem de haver uma ligação umbilical entre empresas e centros de conhecimento», sublinhou, acrescentando que «Guimarães quer ser o laboratório do futuro».