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Reputação em perigo – Parte 1

O Camboja não possui uma fileira têxtil ao nível local. A responsabilidade social corporativa é mais uma questão de papelada do que de zelo pelo bem-estar dos trabalhadores e do meio-ambiente. E a formação geral e a produtividade dos trabalhadores são baixas, com a taxa de abandono da escola primária em torno dos 45,5%. Abundam os relatos de greves ilegais e desmaios em massa de raparigas exaustas – mais de 2.100 desmaios em 29 fábricas em 201, e mais de 500 casos em cinco fábricas no primeiro trimestre de 2013. E em meados de maio, ocorreram dois colapsos parciais de fábricas, resultando em pelo menos duas mortes. A infraestrutura pública é precária e o custo da eletricidade muito alto. As despesas não-oficiais para funcionários governamentais corruptos podem custar até 20 dólares por mês por trabalhador às grandes fábricas de vestuário. De acordo com o Índice de Risco de Pessoas da Aon Hewitt 2013, a cidade de Phnom Penh, onde a maioria das fábricas está localizada, encontra-se classificada na 127.ª posição entre 138 cidades pesquisadas em todo o mundo, o que significa que a posição da capital do Camboja é péssima quando se trata de encontrar e reter pessoas qualificadas. E, no entanto, o Camboja é uma estrela em ascensão quando se trata de exportações de vestuário. Em 2012, as exportações de vestuário do país para a UE alcançaram os 1,217 mil milhões de dólares (+32,4%), colocando-o na 9.ª posição entre os principais fornecedores de vestuário da UE. Com 2,534 mil milhões de dólares de exportações de vestuário para os EUA em 2012, o Camboja foi o 7.º principal fornecedor do mercado americano. Os investidores estão constantemente a chegar. De acordo com o Conselho para o Desenvolvimento do Camboja (CDC), foram aprovadas 82 fábricas de vestuário, com um investimento de 499 milhões de dólares de capital em 2012, assim como duas fábricas de meias apoiadas com 25 milhões de dólares, quatro fabricantes de têxteis com 9 milhões de dólares e duas fábricas de luvas com 10 milhões de dólares investidos. Em comparação, no ano 2011, os investimentos em 45 fábricas de vestuário atingiram os 205 milhões de dólares. Não são apenas os investidores da China, Taiwan, Hong Kong, Coreia, Malásia e Singapura que estão a entrar no país. A Câmara de Comércio Francesa no Camboja viu a procura pelos seus serviços triplicar em 2012 relativamente a 2011. Os pedidos vêm principalmente de empresas francesas que estão a trabalhar no vestuário. Em fevereiro de 2013, o UK Trade and Investment abriu um gabinete na embaixada britânica em Phnom Penh para auxiliar as empresas do Reino Unido que fazem negócios no Camboja. E a Federação das Câmaras Indianas de Comércio e Indústria está convencida de que ainda existem oportunidades como o fornecimento de matérias têxteis para o Camboja. Evitando intermediários em centros regionais como Singapura, os fornecedores indianos de têxteis defendem que podem oferecer aos fabricantes de vestuário do Camboja preços 8% a 15% mais baixos. Ken Loo, secretário-geral da Associação de Fabricantes de Vestuário do Camboja (GMAC), recomenda uma atitude de «esperar para ver», na sequência de um aumento do salário mínimo desde o dia 1 de maio, passando dos 61 para os 80 dólares por mês. Loo acredita que os salários mínimos mais elevados noutros países, combinados com o melhor acesso ao mercado do Camboja, irão incentivar os fabricantes a deslocarem-se para este país. «Se não tivéssemos tantas greves, o número seria muito maior», assegura o responsável. No entanto, Loo admite que, no futuro, a Birmânia será um forte concorrente, mas indica que «a Birmânia precisa de tempo para construir as infraestruturas. Está cerca de quatro anos atrasada para representar uma verdadeira concorrência ao Camboja». Na segunda parte deste artigo, são vistos à lupa os resultados da iniciativa Better Factories Cambodia, que decorre no país desde 2001.