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Resíduos agrícolas dão roupa

A empresa finlandesa Spinnova criou um método inovador, sem utilização de químicos, para transformar madeira e resíduos agrícolas em fibras têxteis. A tecnologia está a ser aplicada a diversas fontes de matérias-primas e ganhou mais impulso com uma nova parceria.

A Spinnova estabeleceu uma parceria estratégica com a empresa dedicada a energias limpas Fortum para continuar a explorar o ecossistema de base biológica. A colaboração, segundo a Spinnova, é uma ótima junção de várias megatendências: a mudança da indústria de energia, que se está a afastar dos combustíveis fósseis, a necessidade da indústria têxtil de matérias-primas sustentáveis e a inovação na celulose proveniente do know-how acumulado da Finlândia na indústria florestal.

A Fortum lançou as suas prioridades estratégicas em 2018, que incluem criar opções para novos negócios significativos, como a produção de artigos de elevado valor a partir de resíduos agrícolas e biomassa de madeira para melhorar a eficiência dos recursos.

«A tecnologia disruptiva da Spinnova é única no mundo. Estamos muito satisfeitos por sermos capazes de fazer estes testes juntos usando matérias-primas inovadoras, sobretudo resíduos agrícolas. Na bioeconomia, é necessário estudar uma vasta gama de opções de materiais e de processos para atingir qualidades de aplicação ótimas. Por isso, trabalhar com empresas tecnológicas numa fase inicial é crucial», afirma Heli Antila, vice-presidente de soluções de base biológica na Fortum.

Processo mecânico

Em dezembro, a Spinnova concluiu uma fábrica-piloto para aumentar a produção da sua fibra à base de celulose, que usa um processo mecânico que não exige a dissolução da polpa com químicos agressivos. A técnica patenteada, que implica triturar a polpa de madeira em filamentos minúsculos, não cria resíduos e usa aproximadamente menos 99% de água do que a produção tradicional de algodão. Esta tecnologia é igualmente adequada para resíduos de celulose, indica a empresa finlandesa.  A Spinnova fez os testes iniciais com biomassa da Fortum com resultados muito promissores.

«A nossa utilização de água é mínima», revela Janne Poranen, CEO e cofundador da Spinnova, em declarações à Fast Company, acrescentando que estes são apenas os primeiros passos. «Apenas estamos a raspar a superfície das opções que temos como matérias-primas», assegura, colocando em cima da mesa a possibilidade de produzir fibras a partir de outros resíduos – a empresa, aliás, fez já diversos ensaios, desde cascas de cenoura a vestuário em algodão.

As matérias-primas à base de resíduos disponíveis localmente têm um grande potencial na economia circular. Por exemplo, uma grande quantidade de palha é queimada nos países asiáticos, provocando emissões significativas que contribuem para as mudanças climáticas. No futuro, a biomassa pode ser usada para produzir energia e fibras têxteis.

«Seria a eficiência de recursos no seu melhor, criando ao mesmo tempo um produto de valor acrescentado que é atrativo para o consumidor, ao mesmo tempo que mitiga as mudanças climáticas. Estamos muito entusiasmados com esta colaboração e o seu potencial impacto ambiental no futuro», explica Janne Poranen.

Poupança de água e terra

O projeto da Spinnova e da Fortum pode transformar o recurso à celulose natural, como algodão, que é muito exigente em termos de utilização do solo e de água. De acordo com as empresas, se um campo de algodão for substituído por trigo, por exemplo, e apenas 30% da palha recolhida após a colheita for usada num ecossistema de biomassa, pode ser conseguida a mesma quantidade de fibras têxteis de um campo de algodão, mas com muito menos utilização de água. Isso também responderia ao maior problema mundial: uma população crescente que precisa de cada vez mais recursos naturais para produzir alimentos e vestuário.

A Spinnova está igualmente no processo de comercializar os seus produtos de fibras com base em celulose de madeira virgem, segundo os planos de outro parceiro estratégico, a produtora de polpa Suzano. A empresa finlandesa tem como compromisso que, como matéria-prima, usa apenas madeira com certificação FSC ou resíduos.

Janne Poranen