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Resíduos de couro e EVA transformam design

O toque, o cheiro, a suavidade e a versatilidade do material desenvolvido pela ERT e entidades do sistema técnico-científico não deixam adivinhar que o mesmo é produzido a partir de resíduos de couro e EVA. Uma solução sustentável que está a ser patenteada e que engloba diferentes segmentos, do vestuário aos têxteis-lar.

Mónica Gonçalves

O objetivo era valorizar as elevadas quantidades de resíduos de couro animal e de espuma de etil vinil acetato (EVA) produzidos pela indústria automóvel e calçado e transformá-los em produtos inovadores, sustentáveis e com valor estético e o resultado, revelado na apresentação dos resultados finais do projeto mobilizador Texboost, cumpriu a meta traçada inicialmente.

«Os designers que têm contacto com este material, a primeira ação que têm é sentir o cheiro, o toque, porque suscita verdadeiramente curiosidade. E depois ficam espantados porque o estado de perfeição é de tal maneira que não se nota o resíduo», sublinhou Mónica Gonçalves, da ERT. «Tem um toque e uma suavidade muito mais acessível que o couro habitual e convencional que estamos habituados a trabalhar», adiantou.

O material é fruto de um projeto de inovação que contou com a ERT, o CITEVE, o CeNTI e o CTIC e que começou por fazer a análise dos resíduos fornecidos pela ERT e a sua adequação, quer através de um processamento mecânico, quer de um processo químico, como explicou Helena Vilaça, investigadora do CITEVE. «Os resíduos que nos foram fornecidos pela empresa, foram aquilo que nós chamamos de EVA micronizado, que é EVA praticamente em pó. Este usamos diretamente nas formulações. O EVA granulado, que tem maior granulometria, procedemos à sua trituração, conseguindo obter uma granulometria adequada para a aplicação por hotmelt», indicou. Já quanto ao couro, fornecido em diferentes cores, «foi transformado, quer por via mecânica, obtendo-se o couro triturado, quer por via química, obtendo-se o couro hidrolisado, sendo que o couro, após processamento, mostrava já uma cor que vinha do resíduo de couro original», explicou Helena Vilaça.

Os resíduos foram incorporados em diferentes formulações aquosas no caso da raclagem, spray coating ou para hotmelt. «Também aplicamos diferentes técnicas como embossing, aplicação de foils ou incorporação direta dos aditivos nas formulações para obter diferentes formas de valorização estética», acrescentou a investigadora do CITEVE.

Certificações em mente

As amostras laboratoriais que revelaram melhores características quanto ao aspeto visual, toque e propriedades de solidez e resistência foram selecionadas para a prototipagem, que foi feita quer para aplicação de revestimento por raclagem, quer por revestimento por hotmelt.

O resultado é «uma gama que fala uma linguagem quer de têxtil-lar, quer da parte de vestuário e temos também outros protótipos que não estão aqui expostos na área do calçado e marroquinaria», salientou Mónica Gonçalves, para quem «isto mostra que a tecnologia é verdadeiramente versátil e que o material consegue adaptar-se a todas as solicitações que temos vindo a fazer até agora», até porque « fomos fazendo vários ensaios industriais e após cada ensaio industrial fizemos sempre um estudo de prototipagem e o material respondeu sempre com excelência às exigências».

O consórcio já fez um pedido de patente e está também a avaliar a possibilidade de certificação GRS – Global Recycle Standard ou RCS – Recycled Claim Standard dos protótipos, com os substratos têxteis a terem sido selecionados «já a ponderar o possível uso deste rótulo para as soluções finais», concluiu Helena Vilaça.