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Restos de peixe criam poliamida mais verde

Os subprodutos resultantes da preparação de peixe podem ser usados para fabricar poliamida e outros materiais sintéticos de forma menos poluente. A investigação foi publicada no ano passado por cientistas da Universidade de Edimburgo e está agora a evoluir com a colaboração de entidades de diferentes áreas.

[©Farne Salmon]

Os investigadores escoceses desenvolveram um método sustentável de produzir um dos químicos industriais mais relevantes do mundo, conhecido por ácido adípico, que é um dos componentes da poliamida. Atualmente, a produção industrial deste químico é realizada a partir de combustíveis fósseis e o seu método de produção liberta grandes quantidades de óxido nitroso, um gás com efeito de estufa que é 300 vezes mais potente do que o dióxido de carbono.

Os cientistas da Universidade de Edimburgo alteraram o código genético da bactéria E.coli em laboratório e as células modificadas foram cultivadas em soluções contendo um químico que ocorre naturalmente, chamado guaiacol. Após um período de incubação de 24 horas, as bactérias transformaram o guaiacol em ácido adípico, sem produzirem óxido nitroso.

«Estou realmente entusiasmado com estes resultados. É a primeira vez que o ácido adípico foi obtido diretamente do guaiacol, que é um dos recursos renováveis mais disponíveis e menos explorados do planeta. Isto pode mudar completamente a forma como a poliamida é produzida», afirmou, na altura, Jack Suitor, doutorando da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Edimburgo e autor principal do estudo, que foi publicado no ACS Synthetic Biology.

Estudos de viabilidade

O projeto está atualmente numa nova fase, contando agora com os inputs dos especialistas em plástico da Impact Solutions, da produtora de produtos do mar Farne Salmon e do IBioIC – Industrial Biotechnology Innovation Centre, que em conjunto com os investigadores da Universidade de Edimburgo estão a usar técnicas avançadas de biologia molecular para explorar a viabilidade do processo para criar fibras sintéticas para utilização em têxteis e noutros produtos do quotidiano.

[©Farne Salmon]
«O projeto marca o início de uma viagem excitante para encontrar uma alternativa sustentável para um componente essencial no tecido da nossa roupa. O estudo inicial de viabilidade levou-nos a uma conjuntura entusiasmante onde podemos começar a ver o potencial de gerar valor a partir de um material que, de outra forma, seria deitado fora», revela Simon Rathbone, diretor de desenvolvimento da Impact Solutions, citado pelo The Scotsman. «Para além do ácido adípico, queremos maximizar o valor geral do processo, analisando outros componentes que possam ser extraídos dos resíduos do peixe, como ácidos gordos e óleos», explica.

O desenvolvimento deste processo pode, segundo a equipa de investigação, porporcionar um uso alternativo para os resíduos resultantes do processamento de peixe – incluindo os restos da limpeza do peixe, os seus óleos e até as águas resultantes da lavagem do mesmo – que só no Reino Unido representam, atualmente, o equivalente a 492 mil toneladas.

«Explorar alternativas sustentáveis de base biológica aos processos com base em petroquímicos é um passo importante nos esforços da Escócia para atingir um impacto zero e há uma enorme oportunidade em fazer mais coprodutos e extrair valor dos resíduos industriais como parte disso», considera a diretora de envolvimento empresarial do IBioIC, Liz Fletcher, citada pelo Just Style.

Para além da poliamida, o ácido adípico é usado numa vasta gama de produtos, incluindo artigos à base de poliuretano, como isolamentos para a construção e acolchoamento de mobiliário, assim como em cosméticos, lubrificantes, medicamentos e aditivos alimentares.