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Restrições ainda inibem sectores têxtil e de vestuário

A Índia pode ser considerada como um dos principais potenciais fornecedores de vestuário de moda no futuro, mas a sua indústria têxtil e de vestuário continua a ser prejudicada por diversos constrangimentos, conforme nos refere este artigo publicado pelo just-style. De acordo com o ministro indiano para os têxteis, Shri Shankersinh Vaghela, os maiores constrangimentos na indústria têxtil e de vestuário indiana são a «legislação laboral e o fornecimento de energia eléctrica». No entanto, estas questões são apenas a ponta do icebergue, pois existem diversos outros factores que prejudicam o desenvolvimento da indústria. A legislação laboral Indiana é efectivamente restritiva. O Ministro Vaghela é a favor do relaxamento dos actuais procedimentos ao nível dos trabalhadores e do aumento do período máximo de trabalho semanal, das 48 para as 60 horas. Por outro lado, na medida em que o fornecimento de energia é imprevisível, as empresas têxteis indianas necessitam de investir em centrais geradoras de energia, um custo adicional em relação a outros países. No entanto, outras falhas ao nível dos recursos humanos e infraestruturais também prejudicam o desenvolvimento da indústria têxtil e de vestuário. A Índia pode gabar-se da sua superioridade ao nível das tecnologias de informação e comunicação, mas a taxa de alfabetismo do país continua aquém da registada na China. Em 2002, a taxa de alfabetismo nos adultos da Índia era de 61,3%, um valor que se encontra bastante abaixo da taxa de 90,9% que era registada na China. Os baixos custos laborais das empresas têxteis e de vestuário são contrabalançados pela baixa produtividade. Pequenos empresários frequentemente desconhecem ou não compreendem os benefícios que o governo indiano lhes disponibiliza. De acordo com o referido por Shri H. P. Kumar, director da National Small Industries Corporation (associação indiana que tem por missão a promoção, apoio e desenvolvimento das empresas indianas de pequena dimensão), a maior parte dos programas desenvolvidos para apoiar as pequenas empresas passam desapercebidos. Um fundo especial para o desenvolvimento ao nível da tecnologia têxtil, o qual disponibilizava um subsídio de 50% para as pequenas empresas, registou um número muito reduzido de interessados. A infra-estrutura Indiana não é apenas deficiente em termos do fornecimento de energia e de água, mas também em termos logísticos, com portos ineficientes e estradas em más condições. As anteriores políticas governamentais, desenvolvidas com o objectivo de apoiar as empresas de pequena dimensão em detrimento das grandes empresas, deixaram a Índia com uma indústria têxtil e de vestuário muito fragmentada. Segundo os dados do gabinete do comissário indiano para os têxteis em Bombaim, perto de 83% do total da produção indiana de tecido em 2005 foi da responsabilidade do sector de pequena dimensão equipado com teares convencionais. Este sector é considerado como incapaz de competir com os tecidos de elevada qualidade que produzem as modernas empresas da China e de outros países. Na medida em que as reservas aplicadas sobre a produção de vestuário e de malhas foram eliminadas há apenas pouco tempo, a maior parte das exportações indianas de vestuário são ainda produzidas em pequenas unidades. A Gokaldas Images, principal exportador indiano de vestuário, trabalha através de 40 unidades fabris, enquanto que a principal empresa chinesa de vestuário, a Luen Thai Holding, com uma dimensão quatro vezes superior, opera apenas duas fábricas. Diversas fraquezas A cadeia de fornecimento têxtil e de vestuário da Índia encontra-se mal balanceada e sofre de constrangimentos. O fornecimento de algodão pode estar bem desenvolvido e ser competitivo em termos internacionais, mas o mesmo não pode ser dito no caso da cadeia de fornecimento de fibras não-naturais, apesar do orçamento de estado para 2006/2007 propor uma redução na taxa aplicada sobre o poliéster dos 16% para os 8%, tornando os fios com poliéster mais competitivos ao nível de preço relativamente aos fios de algodão. O sector de fiação indiano é bastante moderno (cerca de 25 milhões de fusos de um total de 37 milhões são considerados capazes de produzir fio de qualidade), mas o sector de tecelagem não é competitivo. O sector de ultimação precisa de investimentos urgentes e substanciais de forma a manter-se competitivo face aos requisitos internacionais. Apesar de se ouvir falar de «produtos de elevado valor acrescentado», a maior parte da produção indiana de têxteis continua a ser de produtos com um baixo valor acrescentado, conforme foi concluído por um recente estudo elaborado pelo KSA Technopak. O director do ITPO (India Trade Promotion Organisation) em Frankfurt, Shyam S. Agrawal, lamenta que os exportadores indianos de vestuário ignorem o facto dos países da União Europeia (UE), assim como acontece nos EUA e no Japão, também possuírem uma estação de Inverno e uma estação de Verão. Segundo este responsável, as exportações indianas estão demasiado focalizadas nos padrões étnicos. Surpreendentemente a Índia ainda exporta menos calças de senhora, t-shirts e roupa interior em malha para os principais mercados (EUA, UE e Japão) do que o pequeno Bangladesh. A Índia é também relativamente débil nas exportações de meias e pulôveres. É ainda demasiado cedo para avaliar se o aumento no investimento indiano, realizado ao longo de 2005, em tecnologias para a produção de fio e tecido (o qual tem continuado ao longo de 2006), foi baseado em bases seguras ou se, pelo contrário, baseou-se no entusiasmo geral após a eliminação das quotas alfandegárias. Mas muitos investidores sentem-se constrangidos pela inabilidade dos produtores indianos de equipamentos em diminuírem os prazos de entrega, apesar da baixa utilização de capacidade produtiva (55% em 2004/2005). Sector do retalho de vestuário ainda com restrições A Índia possui 1,1 mil milhões de habitantes e, ao longo dos últimos anos, a sua economia registou um crescimento anual de aproximadamente 8%. Por conseguinte, não é de estranhar que, apesar das restrições, diversas marcas internacionais estejam já a operar no mercado indiano, em cooperação com importadores indianos, operadores sob licença ou franchisados. Entre as principais marcas internacionais no mercado indiano encontram-se: Benetton, Marks & Spencer, Mothercare, Esprit, Hugo Boss, Lacoste, Levi’s, Arrow, New Man, Adidas, Nike, Bulgari e Zegna. Recentemente a Chanel investiu diversas centenas de milhares de dólares em festas para comemorar a sua entrada no mercado indiano, e a Christian Dior, Giorgio Armani, Gucci e outras marcas de renome estão a preparar-se para dar o primeiro passo na Índia. Estas iniciativas não são fruto do acaso na medida em que, no final de Janeiro deste ano, o governo indiano decidiu eliminar parcialmente a proibição aplicada sobre os retalhistas estrangeiros de implantarem as suas lojas no mercado indiano. Na sequência desta decisão, as empresas estrangeiras podem agora investir directamente em lojas de venda a retalho, mas com duas condições: a sua quota máxima no investimento está limitada a 51% e podem comercializar apenas uma única marca. Diferentes consultores expressaram opiniões divergentes sobre o possível impacto da nova legislação. Mike Flanagan, da britânica Clothesource Sourcing Intelligence, avisa que o potencial do mercado doméstico de vestuário da Índia vai demorar muito tempo a materializar-se (ver Parte I e Parte II deste estudo no Portugal Têxtil). Flanagan argumenta que a Índia vai continuar a manter as suas medidas proteccionistas, incluindo as elevadas taxas de importação, sobre as importações de vestuário estrangeiro durante muito tempo. O responsável refere ainda que não prevê que empresas como Tesco, Wal-Mart e C&A corram imediatamente para a Índia. No entanto, a consultora indiana Simran Singh, da Simran Singh & Associates, Retail and Brand Advisory, acredita que o sector de retalho de vestuário deverá em breve estar sujeito a futuras eliminações das restrições. Singh acredita que, dentro de cinco anos, as restrições em vigor sobre os retalhistas estrangeiros devem desaparecer. Assim como Flanagan, Singh considera que actualmente a maior parte dos retalhistas estrangeiros vai esperar para ver. Mas, de acordo com o consultor indiano Devangshu Dutta, da indiana Third Eyesight, muitos retalhistas estrangeiros estão prontos e a preparar ansiosamente a sua entrada no mercado indiano de retalho de vestuário.