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Retalhistas hostis ao protecionismo

Mais de 100 retalhistas, incluindo o Wal-Mart e a Target, bem como as principais associações comerciais norte-americanas, estão a aliar-se para contestar uma proposta republicana às taxas sobre as importações, algo que, acreditam, poderá prejudicar os seus negócios.

A National Retail Federation, juntamente com a American International Automobile Dealers Association, a National Grocers Association e outros organismos estão a unir forças para formar o Americans for Affordable Products, grupo que irá levar a cabo uma campanha para educar os consumidores e mostrar aos legisladores que o chamado “Border Adjusted Tax” (um aumento dos impostos sobre as importações) fará escalar os preços de itens diários até 20%, incluindo vestuário, alimentação e até mesmo os combustíveis (ver Trump defende protecionismo).

O grupo, que segundo a Associated Press inclui também empresas como a Nike, a Best Buy, o conglomerado de luxo LVMH e o Dollar General, está a tentar fazer com que a sua posição seja ouvida, enquanto o Congresso e o presidente eleito Donald Trump tentam definir exatamente os ajustes a propor.

Os congressistas republicanos querem eliminar os incentivos fiscais que encorajam as empresas norte-americanas a deslocalizarem-se, baixando os impostos para 20% (de 35%) e fomentando a produção nos EUA. Todavia, os oponentes defendem que o plano poderá ter um efeito nocivo no retalho, fazendo com que as empresas possam até demitir trabalhadores. A proposta – encabeçada pelo líder da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, e pelo representante do estado do Missouri, Kevin Brady – representa uma das reformas mais abrangentes aos impostos em pelo menos três décadas.

Trump descartou a pedra angular do plano do Partido Republicano por ser «muito complicada». No entanto, o seu porta-voz parece ter conseguido voltar a colocar o imposto em andamento, propondo agora um imposto de 20% sobre os bens importados do México e «de outros países com quem temos um défice comercial» para pagar o muro da fronteira.

«Há uma corrida para conseguir isso no Congresso, queremos ter certeza de que as nossas vozes serão ouvidas», afirma David French, que faz lobby pela National Retail Federation.

Muito está em jogo. Quase todos os itens que os consumidores norte-americanos compram são total ou parcialmente produzidos no exterior, uma vez que as empresas procuram a alternativa mais barata. Com a concorrência online e os consumidores em busca permanente pelas melhores ofertas, os retalhistas norte-americanos não tiveram o poder de aumentar os preços dos produtos durante vários anos.

Rick Woldenberg, CEO da Learning Resources, empresa familiar com sede em Vernon Hills, Illinois, que produz brinquedos educativos e emprega 150 pessoas nos EUA, estima que, de acordo com o plano do Partido Republicano, a sua taxa de imposto chegue aos 165% (de 39,6%), pelo que seria obrigado a aumentar 10% a 15% os preços para que fosse viável continuar no ativo e ainda precisaria de demitir funcionários.

Os líderes do sector do retalho descrevem estes aumentos como «uma ameaça existencial», declara Stephen Lamar, vice-presidente executivo da American Apparel & Footwear Association.

Já George Feldenkreis, CEO da Perry Ellis International, estima que a empresa precise de aumentar os preços do vestuário entre 20% a 25% se o aumento do imposto na fronteira entrar em vigor. «As pessoas que estão a pensar nisso não conhecem as consequências», lamenta Feldenkreis, acrescentando que a empresa teria também de despedir trabalhadores.

«Não teria apenas implicações no retalho», sublinha Jack Kleinhenz, economista na National Retail Federation.

Os defensores ressalvam que se o plano for aprovado, o dólar aumentará em valor em até 25%, resultando em importações mais baratas e compensando o impacto. Mas muitos economistas e executivos da indústria preocupam-se com o ajustamento do dólar, que poderá tardar ou não ser conseguido.

Lamar mostra que uma etiqueta “Made in China” não conta a história toda, notando que 70% do valor do vestuário sustenta empregos dos EUA em áreas como o design e a logística.

Entretanto, outros grupos já se mostraram avessos à medida protecionista, incluindo a Americans for Prosperity, organização conservadora apoiada pelos bilionários Charles e David Koch, que normalmente doam generosas quantias às campanhas republicanas.

Não obstante, o imposto encorajaria as empresas a produzir mais nos EUA ou a comprar mais peças e componentes localmente e algumas empresas afirmam poder fazer essas mudanças para evitar o aumento de preços.

Robert Sands, CEO da Constellation Brands, admitiu numa recente conferência de imprensa que a empresa poderia comprar mais gás natural aos EUA, que usa para fazer vidro para a cerveja Corona e Modelo que importa. «É esse tipo de coisas que estamos a analisar e a planear, se isso acontecer», disse Sands. «Não esperamos que a procura dos consumidores pelos nossos produtos seja afetada», completou.