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Retalho americano recupera em junho

Num mês em que as lojas começaram a reabrir nos EUA, as vendas de retalho evoluíram positivamente, tendo duplicado comparativamente com o mês anterior. Ainda que a pandemia continue a ameaçar a recuperação e a incerteza se mantenha, o panorama tem vindo a melhorar.

[©Newsweek]

De acordo com o US Census Bureau, as vendas nas lojas de vestuário aumentaram 105,1% em junho em relação ao mês anterior, o que fez com que esta categoria seja uma das que verificou um maior crescimento. Mesmo assim, as vendas permanecem inferiores em 23,2% face ao mesmo mês do ano passado.

As vendas a retalho totais no mês passado cresceram 7,5%, sazonalmente ajustadas em relação ao mês de maio, e 1,1% numa base anual. Isto determina um aumento de 18,2% em comparação com o mês de maio e dita o primeiro incremento, em termos anuais, nos números governamentais das vendas a retalho desde fevereiro.

As vendas no retalho voltaram a subir depois de uma queda recorde de 14,7% em abril, o primeiro mês em que a maioria das lojas estiveram fechadas por causa da Covid-19.

«O número de segmentos de retalho que geraram um crescimento positivo nas vendas anuais aumentou significativamente de apenas um em abril para quatro em maio e oito em junho», indica Ken Perkins, presidente da empresa de estudos de mercado Retail Metrics. «Não devemos ficar muito entusiasmados com estes números. O ganho de 1,1% nas vendas em junho foi gerado por uma grande quantidade de estímulos que podem não estar presentes na segunda metade de 2020. Além disso, o crescimento de 1,1% em relação ao ano transato foi o quarto aumento mensal mais baixo desde meados de 2010, estando apenas à frente dos três meses anteriores», destaca.

Ken Perkins salienta ainda que, no mês passado, os focos de transmissão do vírus surgiram em duas das quatro maiores cidades dos EUA, com a agravante de que algumas regiões do país continuam a ver o número de casos de Covid-19 a subir. «Isto não é um bom sinal para as lojas físicas, porque os consumidores vão continuar a procurar operações que não requerem contacto», explica.

Jack Kleinhenz, economista-chefe da National Retail Federation (NRF), partilha desta linha de pensamento, na medida em que a recuperação das vendas neste sector depende também da evolução da pandemia. «Os números de junho revelam que os gastos no retalho estão a alimentar a recuperação económica. A durabilidade desta melhoria no consumo no retalho está diretamente relacionada com o aparecimento de casos de Covid-19. O foco está nas infeções que estão a acelerar em várias partes do país, o que representa uma ameaça séria para a retoma», resume, salientando que os processos de recuperação nem sempre são lineares e diferem uns dos outros. Neste caso específico, o economista-chefe considera que será um caminho longo a percorrer, visto que é preciso absorver as perdas de todos os postos de trabalho e voltar a atingir o nível económico pré-existente. «O apoio do governo para os consumidores e negócios ajudou, mas é necessário dar um alento adicional que sustente os gastos dos consumidores, que são a base da nossa economia», avança.

Os dados das vendas a retalho da NRF – que exclui concessionários de automóveis, postos de abastecimento e restaurantes para que o foco incida sobre o retalho principal – mostraram que em junho as vendas subiram 4,9% ajustadas sazonalmente em relação ao mês de maio e 9,3% em termos anuais, sem valores ajustados.

Dois terços das categorias de retalho verificaram aumentos mensais e apenas mais de metade teve um crescimento anual. A maior parte dos ganhos foram obtidos por retalhistas que se viram forçados a fechar portas à luz da pandemia, contudo os profissionais destas categorias preveem um novo encerramento quando a situação do vírus se agravar novamente em algumas regiões do país.

Segundo o estudo da NRF, as lojas de vestuário e acessórios cresceram em valores sazonalmente ajustados 105,1% comparativamente com o mês anterior. No entanto, contaram com um declínio anual não ajustado de 24,3%. Já as lojas de artigos desportivos aumentaram 26,5% mensalmente, dados sazonalmente ajustados, e 22,4% anualmente em valores não ajustados.

Em contrapartida, as vendas online desceram 24% sazonalmente ajustadas em relação ao mês anterior e aumentaram 30,2% numa base anual não ajustada.

Fatores condicionantes

Neil Saunders, diretor-geral da GlobalData Retail refere ao just-style que, apesar do impacto do coronavírus, junho foi um mês em que os americanos reativaram o retalho e voltaram a comprar. Ainda assim, muito do dinheiro gasto veio de estímulos do governo e do aumento do pagamento dos subsídios de desemprego, uma das razões que contribuiu, na perspetiva no analista, para que o sector tivesse um bom desempenho referente a esse mês, apesar das elevadas taxas de desemprego e da «confiança enfraquecida» dos consumidores.

[©USA Today]
«O dinheiro recebido pelos consumidores, juntamente com a reabertura do retalho físico, fez com que muitas compras adiadas durante o confinamento fossem finalmente feitas. A materialização desta procura ajudou o sector de retalho a compensar algumas perdas, embora as vendas em abril, maio e junho continuem mais baixas 8% em comparação o período homólogo de 2019, o que indica que o sector tem ainda um longo caminho para percorrer antes de sair da crise», prevê Neil Saunders.

Na análise, o diretor-geral da GlobalData Retail relembra que apesar do «bom crescimento generalizado», os resultados diferem em cada categoria inerente a este sector, que tem, neste momento e na perspetiva do analista, três pilares. A área da mercearia é uma das categorias que mais contribui, segundo os dados, para este crescimento, dado que as vendas de junho cresceram 11,4% em relação ao ano anterior, uma situação provocada pelo facto de as famílias evitarem cada vez mais jantar fora e, por isso, preciso de ter mais alimentos para consumo em casa. Os produtos para a casa revelaram ser também uma das categorias que alicerçam este crescimento, tendo em conta que as pessoas passam mais tempo em casa e, consequentemente, querem ter melhores condições, o que se traduziu num acréscimo de 22% para esta categoria comparativamente com junho de 2019. O receio de frequentar ginásios e o confinamento criaram ainda uma procura crescente de artigos desportivos e de equipamento de ginásio, como bicicletas e outras máquinas, uma área que resultou ser também um dos pilares para alavancar a recuperação geral.

A fazer jus à situação mencionada de desequilíbrio entre os diferentes sectores, as lojas físicas de outras áreas têm tido um desempenho menos positivo. «As lojas de vestuário viram as vendas baixar 24,3% depois de um impulso inicial durante a pandemia, as lojas de eletrónica tiveram uma queda de 11,7% e o rendimento das lojas de mobiliário caíram 1,9%», enumera Neil Saunders.

Os canais de compra remotos também registaram uma diminuição depois do desconfinamento e do aumento de 30,2% nesta categoria, ainda que os resultados sejam bastante superiores ao mesmo período do ano passado, onde os hábitos dos consumidores diferiam dos atuais, com a chegada da pandemia. Neste sentido, o online continuará a ser um dos canais mais recorrentes de compra, com o receio da deslocação dos consumidores às lojas físicas ainda muito presente.

«Todas estas dinâmicas enfatizam o facto de que, embora os consumidores estejam a gastar, os comportamentos mudaram radicalmente, o que causa dificuldades significativas em partes do mercado onde tem havido retração. Além disso, a mudança geral para produtos e canais, como o online, com margens mais baixas continua a distorcer os resultados coletivos de retalho», admite.

Para o futuro a curto prazo, Neil Saunders divide-se em duas preocupações cruciais que vão afetar diretamente a recuperação do sector. Entre elas um aumento do número de casos confirmados de Covid-19, que pode gerar um novo confinamento que, por ser a segunda vez, poderá ser mais prejudicial. O futuro indefinido dos subsídios de desemprego atribuídos nos EUA é outras das preocupações, porque se sofrerem cortes ou deixarem de existir sem qualquer outra alternativa, vão deixar os consumidores sem dinheiro para gastar, o que reverterá o crescimento do retalho, remata o analista.