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Retalho aos saltos

O número recorde de turistas e o pacote de estímulo à economia estão a animar as perspetivas de negócio para os retalhistas tailandeses, com muitos a preparem novos investimentos. Uma estratégia que poderá pôr as vendas na segunda economia do sudeste asiático de novo na rota do crescimento.

Num centro comercial de Banguecoque, jeans rasgados e óculos de sol espelhados direcionados para os adolescentes apaixonados por moda ilustram como os retalhistas tailandeses estão a preparar-se para o próximo grande acontecimento – um pacote de estímulo governamental que esperam que revitalize as vendas após anos de estagnação do mercado.

Estes produtos estão à venda na primeira loja na Tailândia da retalhista americana Aeropostale, aberta recentemente em parceria com a Robinson Department Store. A terceira maior retalhista do país tem planos para mais 15 lojas este ano, apesar das dificuldades que a Aeropostale enfrenta no seu mercado interno.

Os centros comerciais de luxo, grandes armazéns e supermercados tailandeses estão todos a abrir novas lojas. Entre números recorde de turistas, o governo militar está a preparar um estímulo ao consumo de longo prazo que os retalhistas antecipam que ultrapasse os 50 mil milhões de dólares (44,3 mil milhões de euros) para suportar uma retoma frágil de 2014, quando meses de protestos nas ruas e um golpe de estado levaram à estagnação da segunda maior economia do sudeste asiático.

«A economia está a recuperar lentamente», afirmou à Reuters o diretor financeiro da Robinson Department Store, Dissatat Wisetvara, antecipando vendas superiores a 5 milhões de dólares nas lojas da Aeropostale este ano. «Esperamos que as medidas de estímulo ajudem a alimentar a economia e a procura e comecem a ter impacto a partir de junho», acrescentou.

Anunciado em março, com mais despesa em infraestruturas em junho, o estímulo surge por entre sinais de que os consumidores estão prontos para responder rapidamente. Por exemplo, as vendas comparáveis recuperaram no quarto trimestre, depois da Junta Militar ter cortado alguns impostos para promover o consumo no final do ano.

Numa visita recente à loja da Aeropostale num centro comercial no bairro de Ratchadapisek, popular entre os turistas, Nawarat Kreukheunpetch, uma farmacêutica de 30 anos, comprou umas sandálias e uma t-shirt com o branding de Nova Iorque da Aeropostal. Cada artigo custou cerca de 14 dólares. «Gosto do design e os preços são razoáveis», afirma. «E a loja também oferece descontos em promoção, o que torna mais fácil para mim comprar», acrescenta.

Antes do pacote de estímulo fazer efeito, as perspetivas de crescimento num sector avaliado em 90 mil milhões de dólares em vendas anuais estavam estimadas em 3% para este ano pela Associação Tailandesa de Retalhistas, o mesmo que em 2015. Ainda assim, os retalhistas esperam que a taxa de crescimento recupere para os valores médios de 7% a 8% por ano registados na última década.

O pior já passou

A Tailândia espera um valor recorde de 32 milhões de turistas este ano – boas notícias para os retalhistas de luxo do país.

Em resposta, o Central Group, um conglomerado que envolve retalho e imobiliário, planeia investir 6,5 mil milhões de baht (cerca de 164 milhões de euros) este ano para expandir o seu centro comercial Central Embassy em Banguecoque.

Os retalhistas estrangeiros estão igualmente a mostrar um interesse crescente: o operador japonês de grandes armazéns Takashimaya Co vai abrir a sua primeira loja na Tailândia num novo projeto de luxo de utilização mista chamado Icon Siam em 2017.

Os retalhistas no Norte, em Banguecoque e nas ilhas tailandesas estão a ver os benefícios do crescente número de turistas. O operador de hipermercados Big C Supercenter Pcl revelou que vai expandir a sua cadeia e que vai ainda acrescentar 78 lojas mais pequenas em localizações urbanas, enquanto a CP All pretende abrir 700 novas lojas de conveniência franchisadas 7-Eleven este ano.

«O pior já passou para o retalho», acredita Chatrchai Tuongratanaphan, diretor da Associação Tailandesa de Retalhistas.

Mas não será fácil. O endividamento recorde das famílias, que aumentou durante o governo anterior, que a Junta Militar derrubou em maio de 2014, continua a ser uma restrição.

«Não esperamos ver uma retoma forte [a curto prazo] tendo em conta que os que têm menos rendimentos ainda não recuperaram completamente», afirma Chatrchai.

Qualquer atraso nas despesas com infraestruturas poderá ser um risco para a retoma, que não passa ainda de uma tentativa: a 23 de março, o banco central reviu em baixa as suas previsões de crescimento para 2016, de 3,5% para 3,1%.

Esse valor, contudo, continua a ser uma aceleração face ao crescimento de 2,8% registado em 2015, e as medidas do governo, incluindo novas baixas de impostos, devem agir como uma solução intermédia para aumentar o consumo.

Os economistas do Citigroup indicam que a baixa de impostos pode impulsionar em 0,1% o crescimento económico, reforçando o consumo antes da materialização dos investimentos em infraestruturas.