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Retalho britânico derrapa

No início deste mês, a Marks & Spencer, a maior retalhista de vestuário do Reino Unido, anunciou uma queda de 5,8% nas vendas no trimestre que incluiu o Natal, levando o CEO Marc Bolland a pedir demissão. A Next, que ocupa o 2.º lugar no ranking, também desiludiu. As vendas cresceram 0,6% nos dois meses até 24 de dezembro, falhando as estimativas de 5%.

Ambas culpabilizaram o inverno excecionalmente ameno no Reino Unido, que atrasou a procura por vestuário sazonal – a M&S, em particular, sempre apostou em categorias de inverno, como malhas e casacos. Contudo, a desculpa não convenceu os analistas.

Bernadette Kissane, analista de vestuário e calçado na Euromonitor, ressalva em declarações ao portal The Business of Fashion que a Debenhams «reagiu bem às lições aprendidas» no outono excecionalmente quente de 2014, tendo limitado os stocks este ano e evitando assim os descontos. Além disso, apesar do clima, as vendas da irlandesa Primark subiram 7% no período de 16 semanas até ao Natal, enquanto as vendas da gigante da moda sueca H&M subiram 10% em dezembro.

Pesos-pesados

Nos últimos anos, nomes como a Primark e cadeias de supermercados como a Tesco tomaram de assalto o mercado de retalho de vestuário britânico, aumentando a sua quota de 10,4%, em 2001, para 23,8%, em 2013, de acordo com a Exane BNP Paribas. Até agora, a Next conseguiu compensar essa pressão ao aumentar o seu espaço de retalho, afirma Luca Solca, da Exane BNP Paribas. Mas a M&S ficou para trás. Desde o quarto trimestre de 2011, a retalhista registou 14 trimestres consecutivos de quedas nas vendas.

Competição online

«O comércio eletrónico, em particular, é uma grande ameaça para o retalho britânico», reconhece Bernadette Kissane. Na verdade, a Next citou um ambiente online mais difícil na última quadra natalícia – não só de concorrentes online como a Boohoo.com e a Asos, mas também de retalhistas tradicionais. A Boohoo.com, por exemplo, superou as expectativas dos analistas na quadra natalícia, com um crescimento de vendas na ordem dos 49% nos quatro meses até 31 de dezembro. A Asos conheceu um aumento de 22% de vendas para os 206,2 milhões de libras (aproximadamente 236,6 mil milhões de euros) no mesmo período.

Descontos

No entanto, vendas saudáveis não garantem margens fortes num cenário de retalho cada vez mais competitivo e com guerras de preço. No ano passado, as promoções dos retalhistas britânicos atingiram o seu nível mais alto desde 2008, segundo a Deloitte.

A Next não descontou stock até depois do Natal, o que melhorou as margens, mas prejudicou as vendas. Na Asos, a margem bruta de retalho caiu 40 pontos base devido a preços mais baixos. «À medida que a deterioração das margens de lucro se torna a norma, pode questionar-se sobre quem estará realmente a lucrar no retalho britânico», admite Kissane.

Crescimento internacional

A M&S tem vindo a apostar no mercado externo nos últimos anos e agora tem 480 lojas em toda a Europa, Ásia e Médio Oriente. Apesar de ter aberto 25 lojas no exterior no ano terminado a 28 de março de 2015, a receita internacional da retalhista caiu 5,7%, para os 1,1 mil milhões de libras no mesmo período.

Categoria moda

Há muito que a M&S e a Next estabeleceram ofertas de vestuário de homem, senhora e criança. Mas os arquirrivais apressaram-se a seguir a estratégia de moda para toda a família. No ano encerrado em dezembro de 2014 (os últimos resultados disponíveis), os lucros na River Island aumentaram quase 70%, impulsionados pelo lançamento de roupa de criança. O vestuário infantil foi também uma aposta ganha na Primark, particularmente em países como Espanha, mercado no qual as lojas estão localizadas em shoppings orientados para a família. Enquanto isso, a New Look evidenciou um crescimento «excelente» nas vendas e nos lucros no ano encerrado em dezembro de 2014, quando a retalhista inaugurou as primeiras lojas exclusivamente dedicadas ao menswear.

Moda rápida

Os ciclos de produção curtos e eficientes das marcas de moda rápida fazem com que estas estejam melhor posicionadas para se adaptarem a fatores imprevisíveis como o clima: se os casacos não estão a vender, simplesmente param de produzir casacos. Permitem também um reabastecimento de stock mais rápido – e tanto a M&S como a Next sofreram com a fraca disponibilidade de stock e com artigos esgotados durante a última quadra natalícia.