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Retalho cinzento nos EUA

Num mercado cuja economia é impulsionada pelo consumo, os números mais recentes do retalho nos EUA pintam um cenário pouco otimista, com o Euromonitor a apontar para uma queda de 6,5% das vendas em 2020, onde o vestuário e o calçado poderão ser os mais afetados.

Os dados da empresa especialista em análise de mercado referem que, em comparação, em 2009, o ano em que a recessão provocada pela crise financeira chegou ao fim, as vendas a retalho baixaram apenas 2,2%. E, em 2019, o retalho registou um crescimento de 3,3% face ao ano anterior.

O Euromonitor, contudo, sublinha que há fatores que podem alterar esta previsão, nomeadamente a duração da pandemia, a resposta do Governo, a taxa à qual os consumidores estarão confortáveis a regressar a centros comerciais e lojas e como os retalhistas lidarão com as dramáticas mudanças no consumo. «Obviamente será pior se houver outro surto», admite Michelle Evans, diretora de consumo digital no Euromonitor International.

A National Retail Federation, a associação do sector do retalho dos EUA, tinha antecipado no final de fevereiro que as vendas a retalho subissem 3,5% a 4,1% em 2020, ultrapassando os 3,9 biliões de dólares em 2020. As previsões agora são muito cinzentas.

De acordo com o Euromonitor, os atores do comércio eletrónico como a Amazon e as plataformas de entrega de terceiros serão os que deverão sair-se melhor este ano, juntamente com o retalho alimentar. Do lado oposto, indica, estão retalhistas de vestuário, grandes armazéns, cadeias de luxo e marcas dirigidas ao consumidor final. Alguns dos nomes nestas categorias, como a Neiman Marcus, a J. Crew, a Stage Stores e a JC Penney já apresentaram pedidos de proteção à insolvência durante esta crise.

Vestuário mais afetado

Segundo Michelle Evans, a categoria de vestuário e calçado pode contrair até 36% este ano, depois de ter crescido 3,7% em 2019. «Ao contrário de muitas outras indústrias, em que o choque [do Covid-19] pode estar a ser sentido universalmente, alguns retalhistas registam uma procura sem precedentes, enquanto outros tentam agarrar-se à vida», assegura a diretora de consumo digital no Euromonitor International.

Em abril, o consumo caiu 16,4% nos EUA em termos mensais, de acordo com os dados do governo. As lojas de vestuário evidenciaram a maior queda, com as vendas a descerem 78,8%.

Analistas da UBS garantem, numa nota assinada por Michael Lasser e Jay Sole, que a pandemia pode levar ao encerramento de 100 mil pontos de venda até 2025 se mais consumidores se voltarem para as compras online. «Mesmo quando as lojas abrirem, pode levar algum tempo antes das pessoas voltarem a ter a confiança de estarem seguras em espaços cheios», acreditam.

Lojas de vestuário, eletrónica e artigos para o lar podem ser as mais afetadas se as vendas online aumentarem para uma quota de 25% do retalho, em comparação com os atuais 15%. Com base no número de centros comerciais em 2019 e a estimativa de crescimento da população, cerca de 100 centros comerciais arriscam-se a encerrar, consideram os analistas.

Os pequenos retalhistas deverão ser, no entanto, os mais afetados, enquanto as grandes cadeias como o Walmart, Target e Costco podem beneficiar do fecho de lojas com más performances.